Cabelo branco só fica bem em homem?

Por Janice Mansur (@janice_mansur)*

Em primeiro lugar, quero perguntar a você por que a sociedade acha o cabelo branco bonito em homens? Por que a eles é dado o direito de ficar ao natural e ainda serem considerados charmosos?

Esse dias andava na rua, perto da Tower Bridge, e vi uma menina de seus 18 anos com o cabelo azul bem claro, interessante, era quase branco. Daí fiquei pensando no porquê das pessoas começarem a pintar os cabelos também?

Minha avó pintou o cabelo somente até certa idade. Na sua época, os homens não pintavam nem quando ficava todo branco. Alguns artistas pintavam para esconder a idade e para fazer papéis de mais novos na televisão e no cinema [as pessoas midiáticas sempre tiveram de se sujeitar aos critérios da sociedade de consumo], aí era permitido. Minha mãe também pintava, e, ao contrário de minha avó, pintou-os até seus 82 anos. De castanho, ela adotou o louro e passou assim a vida inteira.

Dentro de uma mesma família percebe-se haver todo o tipo de gostos, não é mesmo? Eu sempre pintei para esconder os brancos, e ficar “mais jovem” (o que a influência do meio não faz!), geralmente da cor original, ou preto ou avermelhado, mas nunca saí da cor a qual estava acostumada.  Isso quando meus alunos não reclamavam que minha raiz branca estava aparecendo, e eu estava ficando feito uma “velha”. Aff.

Contaram isso para você?

Para nos situar historicamente, encontrei estudos nos quais achados arqueológicos evidenciaram que até mesmo os neandertais usavam produtos para mudar a cor do cabelo e da pele, os homens da Babilônia usavam pó de ouro em suas barbas e os saxões tingiam seus cabelos com cores vibrantes, ou seja, essa prática é muito antiga e existe desde que o mundo é mundo.  Tudo pela vaidade? Será? Então, em alguma época os homens também podiam se preocupar com beleza, e não só hoje.

Desde 3000 ou 2500 a.C., os egípcios, mesopotâmicos e outros povos, já utilizavam técnicas de tintura em tecidos e  cabelos,  na  elaboração  de inúmeros  corantes  que  extraíam  de matérias-primas animais e vegetais, como camomila, hena e índigo, ou os importavam da Síria ou Creta. Portanto, não é novidade nem o uso de tinturas nem que todos os gêneros de pessoas utilizavam recursos para embelezamento. A moda das perucas, por exemplo, começou com Luís XIV (1638-1715) para esconder a calvície de alguns homens nobres, tornando-se igualmente sinal de status e prestígio, que podiam ser coloridas ou não.

Mas a história não para por aqui,  a irlandesa Eliza Rossana Gilbert (1820-1861), Condessa de Landsfeld, mais conhecida por Lola Montez, publicou em 1858, um livro chamado The arts of beauty − or secrets of a lady’s toilet, with hints to gentlemen, on the art of fascinating. Nele, Eliza explicava como preparar um composto que deixaria o cabelo mais escuro – isso porque os corantes mais usados eram para cabelos marrons ou pretos. O que nos aponta a preocupação existente para muitos.

Em meados de 1912, como os modismos vão e vêm, tanto para homens quanto para mulheres, surgiu uma tendência também na américa do norte criada por cabeleireiros parisienses: tingir perucas com tons de azul, violeta, verde e rosa. Eram caras, feitas com cabelo de verdade vindos da China. Entretanto, foi considerado um ultraje seu uso pelos membros mais conservadores de Londres e de Paris que resolveram impedir os convidados de aparecer com cabelos coloridos em suas festas. Os cabelos coloridos da Belle Époque duraram pouco, mas retornariam.

Afinal por que não podemos decidir sobre nossas vidas?

Penso, e só penso, que deveria reformular minha pergunta inicial sobre o porquê da sociedade ainda achar o cabelo branco mais bonito em homens, para uma que questione o poder da moda sobre nossas atitudes. Você saberia responder? Hoje em dia, muitos homens estão indo na direção contrária e pintando mais os seus cabelos? As mulheres desistiram de assumir os brancos ou os estão assumindo ainda mais? Não sei. Há estatísticas? Talvez tivéssemos de fazer uma pesquisa apurada sobre, e isso eu poderia deixar nas mãos da amiga Mirian Goldemberg, pois não sou antropóloga nem historiadora. Eu, de minha parte, acho que as cabeças e os cabelos, por pertencerem a seus respectivos donos, podem ser pintados, raspados, tracejados, tosqueados, ou  o que for. A moda só mostra sua função de retorno: afinal na humanidade nada se cria, tudo se copia. No final de minha pesquisa para este artigo (você acha que escrever não dá trabalho, né?), pude entender mais sobre o cabelo azul da menina de 18 anos.

Embora, acreditemos viver em democracias ainda − em alguns lugares −, as pessoas deveriam poder decidir sobre pintar ou não suas madeixas. Eu deixei as minhas embranquecerem, ou melhor, tornarem-se prateadas, lindas!  Se foi uma escolha, não sei, uma vez que minha primeira deliberação foi por questões de saúde. Mas depois gostei. Adorei a cor prata, a liberdade, a chance de dedicar meu tempo a outras coisas. Aprendi a desapegar de uma imagem condicionada e ditada pela cultura para me curtir mais.  E, veja, há vantagens extras, já que realmente parece que os cabelos brancos tem um quê de senhoril na história: levantam-se de assentos para eu me sentar, carros param para que eu atravesse a rua, e outras coisas mais. Curioso.

Vê se você concorda comigo? Além da moda (que se encaixa nas categorias a seguir), existem padrões sociais, econômicos e culturais que nos restringem e ditam regras para nossos comportamentos. Fato. Homens de cabelos brancos estão maduros e são sexy; mulheres, estão envelhecendo e são relaxadas, não é isso?  Será que isso terá fim?

E  com relação aos colorantes, só vou deixar aqui você com a pulga atrás da orelha: tingir os cabelos é ruim para sua saúde? Pense.

Se você descobrir mais coisas interessantes sobre tudo isso, me conte, ok?

Beeeijo.

* Janice Mansur é escritora, professora, revisora de tradução, criadora de conteúdo e psicoterapeuta  (atendendo online). Canal do YouTube: BETTER & Happier Instagram: @janice_mansur

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