As contas de água das famílias britânicas poderão ficar mais caras durante períodos de seca, caso o regulador do setor, Ofwat, aprove novas regras que permitiriam às empresas adotar tarifas variáveis de acordo com a disponibilidade de água e o nível de consumo.

A proposta prevê a possibilidade de as companhias cobrarem valores mais altos em períodos de grande demanda ou quando os consumidores ultrapassarem determinados limites de utilização. A ideia é estimular a economia de água em momentos de escassez, mas a medida já provoca críticas diante do histórico de aumentos nas tarifas e dos problemas enfrentados pelo setor.

A possibilidade ganhou destaque justamente em meio a uma das situações de seca mais graves registradas recentemente no Reino Unido. Cerca de três quartos do país foram declarados em situação de seca, enquanto aproximadamente 27 milhões de pessoas estavam sujeitas a restrições ao uso de mangueiras e incêndios florestais atingiam diferentes regiões.

Se receber aprovação definitiva nas próximas semanas, o novo modelo poderá entrar em vigor a partir de abril.

Como funcionariam as novas tarifas

Entre as opções analisadas estão as chamadas tarifas sazonais, nas quais o preço da água seria maior durante o verão e menor no inverno. Outro modelo prevê a cobrança progressiva: o consumidor pagaria uma tarifa básica por um volume considerado essencial e valores maiores à medida que seu consumo ultrapassasse determinados limites.

Grande parte desses sistemas dependeria da instalação de medidores inteligentes, capazes de registrar com maior precisão o consumo das residências.

A lógica é simples: quanto maior a pressão sobre os recursos hídricos, maior seria o incentivo financeiro para reduzir o consumo.

Uma experiência realizada pela Anglian Water mostra como esse sistema pode funcionar. Em algumas regiões, clientes participantes tiveram o preço da água aumentado de €2,69 para até €4,39 por metro cúbico entre maio e agosto, enquanto a tarifa caiu para €1,78 por metro cúbico no restante do ano. Clientes considerados vulneráveis ou de baixa renda ficaram fora do programa.

Segundo os resultados do teste, aproximadamente metade dos participantes reduziu o consumo de água. A empresa avalia a possibilidade de ampliar o modelo.

A South West Water também realizou testes com tarifas sazonais e progressivas.

Críticas em meio à crise do setor

A possibilidade de cobrar mais durante períodos de seca é apoiada, em princípio, pelo governo trabalhista e pelo setor de abastecimento de água. No entanto, a proposta pode gerar forte reação em um momento em que as empresas já enfrentam críticas pelos aumentos nas contas e pelos problemas de infraestrutura.

O ativista ambiental Feargal Sharkey, conhecido também por sua atuação como cantor, acusou as companhias de transferirem para os consumidores os custos de problemas que deveriam ser solucionados pelas próprias empresas.

Segundo Sharkey, as companhias tiveram durante décadas obrigações legais de ajudar os consumidores a reduzir o consumo, mas também falharam na proteção dos rios e no tratamento adequado do esgoto.

A crítica ocorre em um contexto de forte pressão sobre o setor. Em sua revisão de preços, a Ofwat determinou aumentos significativos nas contas médias para os próximos anos. As decisões finais preveem, antes da inflação, que a conta média das empresas de água e esgoto passe de £440 em 2024-25 para £597 em 2029-30, um aumento de 36%. (⁠Ofwat)

Além disso, cinco empresas — Severn Trent, Southern Water, Thames Water, Wessex Water e South East Water — receberam autorização para revisar seus níveis de cobrança para financiar investimentos adicionais em infraestrutura.

Governo quer reduzir consumo de água

O governo britânico pretende reduzir o consumo médio de água por pessoa dos atuais 136,5 litros por dia para 122 litros até 2038.

A Ofwat argumenta que uma utilização mais eficiente da água interessa tanto aos consumidores quanto às empresas e afirma que as novas opções de cobrança permitiriam considerar de forma mais adequada a escassez do recurso e a eficiência no consumo.

A Water UK, entidade que representa as empresas do setor, também defende a busca por novos modelos. Além de reduzir vazamentos, a organização afirma que é necessário estudar formas de incentivar os consumidores por meio das próprias contas de água.

Apesar dos testes já realizados, não existem atualmente planos formais para implementar de maneira generalizada uma tarifa variável durante períodos de seca. A consulta da Ofwat indica, porém, que algumas empresas consideram as regras atuais um obstáculo para a adoção desse tipo de sistema.

A discussão coloca o Reino Unido diante de um dilema: como reduzir o consumo de água em períodos cada vez mais pressionados pela escassez sem aumentar ainda mais o peso das contas sobre as famílias. A decisão da Ofwat deverá definir até que ponto o preço poderá ser utilizado como instrumento para administrar um recurso que se torna cada vez mais limitado.

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