O dilema e importância dos debates

Por Gilson Guimarães*

É  impressionante e evidente como os últimos dois anos mudaram a rotina da população mundial, exercendo grandes influências em nossas vidas. Partindo-se deste princípio, convido a todos a importantes reflexões e, ao mesmo tempo, quero provocar um alerta nas armadilhas acerca da comunicação, principalmente quando nos referimos as tais fake news.

A tecnologia nunca foi tão importante como agora. Nos meios de comunicação, as notícias e entrevistas em geral não mais requerem estudiosos, câmeras e microfones especiais. Não há mais a necessidade de jornalistas ou comunicadores capacitados ou com autoridade intelectual para ter responsabilidade sobre os fatos narrados.

Contudo nos exige muita atenção, cautela e capacidade de discernimento nos convidando a alertas constantes, nunca exigido em qualquer época da humanidade.

Os veículos de comunicação não são mais pertencentes exclusivamente a grandes empresas, jornais, revistas e canais oficiais. Sofreram e vêm sofrendo uma grande expansão, mas as notícias muitas vezes, a depender das fontes, não passam de pântanos de mentiras bem elaboradas e maquiadas, sem a preocupação com a verdade e reputação de seus  de seus interlocutores.

Se por um lado a descentralização na produção de informações possibilita maior democratização das narrativas, por outro ela gerou a produção sistemática de conteúdo falacioso que contribui para a desinformação.

E como ficam os debates? Estamos preparados para tal?

É fundamental saber e procurar entender o posicionamento e opinião das pessoas que se dispõem a debater, mas para isso exige-se respeito, conhecimento de causa e aceitação da exposição e opinião alheia.

Observamos em muitos ambientes do debate atual que ciência e razão são totalmente ignorados e desempenham apenas papéis coadjuvantes. Notamos diversos grupos extremamente intransigentes e preconceituosos que perpetuam ideias insensatas e perigosas sempre maquiadas de verdades absolutas.

Em qualquer canto da Internet é possível se deparar com comentários e fóruns de discussão repletos de homens e mulheres que destilam suas paixões como verdades absolutas e inquestionáveis. Ainda observamos o barulho de minorias, que insistem em defender ideias que há décadas foram descartadas e comprovadas por inúmeros intelectuais de inteligências incontestáveis, valorizando assim as tais pós-verdades como por exemplo a existência de uma Terra plana.

Hoje, mesmo certo de que nossa sociedade evoluiu bastante, percebo que apesar de não se mandar mais bruxas para as caldeiras ou homens para calabouços, ainda se assassinam reputações e carreiras de pessoas que não tenham a mesma opinião e/ou afinidade ideológica.

Infelizmente ainda se aglomeram grupos defensores do desequilíbrio, de revoluções sangrentas e fracassadas, de líderes e regimes autoritários e de ideias há muito malogradas e, nos casos mais extremos, cometem-se crimes de ódio contra outros indivíduos, vistos como inferiores e passíveis de punição apenas por pensarem diferente.

É necessário lembrar que até o cidadão mais ignorante do mundo, que defende as ideias mais toscas imagináveis, ao se aprofundar naquilo que acredita, apenas inflama ainda mais o seu radicalismo.  

Apresentar uma ideia com as vestes de um conteúdo científico não a torna genuína. Por isso, o debate é importante para a evolução da sociedade, havendo a necessidade de distanciamento pessoal e de seriedade para que se possa realizar qualquer análise.

O radicalismo corrompe o debate de ideias, mina o diálogo e cerceia as pessoas em grupos e castas, em bolhas sociais e ideológicas.

O debate nunca se fez tão necessário, mas infelizmente confundimos tais mecanismos desenvolvidos com a evolução do ser e muitas vezes tais eventos se transformam em verdadeiros campos de guerra em que a polarização toma lugar do protagonismo e se divide em certo e errado, direita e esquerda, descartando assim qualquer possibilidade de se entrar em consenso.

As circunstâncias não justificam, contudo, um regresso ao passado. O que seria saudável e construtivo exige mais respeito e empatia, o que hoje são considerados artigo de  luxo pois são raros os indivíduos com tais capacidades.

A rapidez com que uma informação se dissemina nos dias atuais é assustadora, e como sabemos, a informação não precisa nem ser verdadeira, basta ela existir.

“Os piores leitores são os que agem como soldados saqueadores: retiram alguma coisa de que podem necessitar, sujam e desarranjam o resto e difamam todo o conjunto” – Friedrich Nietzche

* Gilson Guimarães é coordenador do Fraternidade Sem Fronteiras no Reino Unido; ex-coordenador do Conselho de Cidadania do Reino Unido (CCRU).

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