O silêncio voltou a tomar conta do deserto israelense às 6h29 desta quarta-feira, 7 de outubro de 2026. Exatamente três anos depois do início do ataque liderado pelo Hamas contra Israel, o mesmo horário foi marcado por homenagens às vítimas no local onde acontecia o festival de música Nova, perto do kibutz Re’im.
A música deu lugar ao silêncio, às orações e às lembranças de uma manhã que mudou profundamente a sociedade israelense. O ataque de 7 de outubro de 2023 matou mais de 1.200 pessoas e levou 251 pessoas como reféns para a Faixa de Gaza, desencadeando a guerra que transformou o Oriente Médio e provocou uma das maiores crises humanitárias das últimas décadas.
Três anos depois, a data é lembrada em Israel sob uma combinação de luto, trauma, questionamentos sobre as falhas de segurança que permitiram o ataque e uma disputa política cada vez mais intensa às vésperas das eleições legislativas de 27 de outubro.
No local do festival Nova, familiares das vítimas, sobreviventes e autoridades participaram de uma cerimônia no mesmo horário em que os primeiros foguetes foram lançados naquela manhã de 2023.
Um minuto de silêncio no local do massacre
O memorial no antigo local do festival tornou-se um dos principais símbolos da tragédia. Centenas de familiares e sobreviventes se reuniram entre fotografias, flores e homenagens às pessoas que morreram durante o ataque.
Mais de 350 participantes do festival foram mortos, segundo a Associated Press, que acompanhou as cerimônias do terceiro aniversário. O local, antes associado à música e à celebração, transformou-se em um espaço permanente de memória.
A sobrevivente May Hayat, que trabalhava como garçonete no festival, voltou a falar sobre os primeiros momentos do ataque. Em depoimento divulgado no Reino Unido, ela lembrou que as pessoas começaram a correr enquanto a música ainda continuava tocando.
“De repente vimos pessoas correndo, mas a música continuava tocando. Não entendemos o que estava acontecendo até vermos os foguetes no céu”, relatou Hayat.
Hayat sobreviveu depois de se esconder e fingir estar morta entre vítimas do ataque. Em 2026, ela continua compartilhando sua experiência em iniciativas dedicadas à memória dos sobreviventes e das pessoas assassinadas no festival.
Kfar Aza também revive o trauma
As homenagens se estenderam ao kibutz Kfar Aza, localizado próximo à fronteira com Gaza e um dos locais mais atingidos durante a ofensiva de 7 de outubro.
Segundo uma investigação das Forças de Defesa de Israel, 64 moradores de Kfar Aza foram mortos e 19 foram levados como reféns durante o ataque.
Na manhã desta quarta-feira, moradores e familiares participaram de uma cerimônia no kibutz, onde a destruição provocada três anos atrás ainda permanece visível em diferentes partes da comunidade.
O local também se tornou um dos principais símbolos das discussões sobre as falhas de segurança que antecederam o ataque. Investigações posteriores apontaram problemas na preparação das forças de defesa e na resposta inicial à incursão dos militantes.
Para muitas famílias, a data não representa apenas uma lembrança do passado. É também uma oportunidade para exigir respostas sobre como uma operação dessa dimensão conseguiu atravessar a fronteira e atingir comunidades israelenses durante várias horas.
Netanyahu enfrenta novas cobranças por falhas de segurança
A discussão sobre responsabilidade política ganhou ainda mais força porque Israel se prepara para as eleições legislativas de 27 de outubro.
O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu continua no centro das críticas de opositores e familiares das vítimas, que questionam a atuação de seu governo antes e durante o ataque.
Nos últimos meses, novas informações sobre alertas transmitidos por países da região alimentaram o debate. Reportagens indicaram que autoridades egípcias haviam alertado Israel, dias antes do ataque, sobre uma deterioração da situação em Gaza. Também vieram à tona informações sobre um alerta atribuído aos Emirados Árabes Unidos.
Netanyahu rejeitou as acusações de que teria recebido informações específicas sobre um ataque iminente e negou responsabilidade pessoal pelas falhas de segurança.
O tema, entretanto, tornou-se uma das questões centrais da campanha eleitoral. Para seus adversários, a dimensão do ataque exige uma investigação independente e uma avaliação das decisões tomadas pelo governo e pelas estruturas de segurança antes de 7 de outubro.
A eleição de 27 de outubro será, portanto, realizada em um ambiente no qual as consequências daquele dia continuam determinando boa parte do debate político israelense.
Três anos depois, a guerra deixou marcas profundas em Gaza
O aniversário também ocorre enquanto Gaza continua marcada pelas consequências da guerra iniciada após o ataque de 7 de outubro.
De acordo com autoridades de saúde de Gaza, mais de 74 mil palestinos morreram desde o início do conflito. A cifra é divulgada pelas autoridades de saúde controladas pelo Hamas e não faz distinção entre combatentes e civis. A extensão das mortes e da destruição foi documentada por organizações internacionais e veículos de imprensa ao longo dos três anos de guerra.
Apesar do cessar-fogo alcançado em 2025, a situação permanece instável. A Reuters informou que Israel continua controlando aproximadamente dois terços do território da Faixa de Gaza, enquanto o Hamas mantém presença na área restante, e que a violência e as tensões continuam.
O aniversário de 2026 também é diferente dos anteriores porque não há mais reféns israelenses mantidos em Gaza. O último dos 48 reféns que ainda estavam na Faixa de Gaza no início de 2026 teve seu destino definido em janeiro, quando as Forças de Defesa de Israel confirmaram a identificação e o retorno dos restos mortais de Ran Gvili.
Israel mantém alerta de segurança
As autoridades israelenses reforçaram a segurança durante as cerimônias do aniversário diante do temor de novos ataques ou de ações destinadas a marcar simbolicamente a data.
O contexto regional permanece delicado, e a lembrança do ataque ocorre enquanto Israel continua envolvido em diferentes frentes de segurança no Oriente Médio.
Um episódio ocorrido no fim de setembro também elevou temporariamente o nível de preocupação. Um avião comercial que fazia a rota entre Dubai e Israel realizou um pouso de emergência na Arábia Saudita depois que um dos pilotos esfaqueou o outro e houve uma tentativa aparente de desviar ou derrubar a aeronave. Autoridades israelenses chegaram a investigar a possibilidade de um atentado, embora as circunstâncias do episódio ainda estivessem sob investigação.
O episódio foi mencionado no contexto do reforço das medidas de segurança adotadas durante o aniversário, embora não haja confirmação de uma ligação direta entre os dois acontecimentos.
A memória do 7 de outubro ultrapassa as fronteiras de Israel
As homenagens desta quarta-feira não ficaram restritas a Israel.
Comunidades judaicas e grupos de familiares das vítimas organizaram cerimônias em diferentes cidades do mundo. Em Londres, uma vigília foi realizada para lembrar as vítimas dos ataques de 2023, enquanto manifestações favoráveis aos palestinos também ocorreram na capital britânica.
A Polícia Metropolitana impôs condições específicas para uma marcha estudantil pró-Palestina realizada no aniversário. Os participantes foram obrigados a se concentrar em Lincoln’s Inn Fields, seguir uma rota determinada até Russell Square e encerrar a manifestação às 14h. Também foi proibido o uso de coberturas que escondessem a identidade dos participantes.
A decisão ocorreu em meio às preocupações das autoridades com possíveis conflitos entre grupos e com a segurança da comunidade judaica no dia que marca o terceiro aniversário dos ataques.
Durante os atos em Londres, a polícia efetuou prisões em manifestações distintas, enquanto grupos pró-Israel e pró-Palestina realizaram protestos e atos de homenagem em diferentes pontos do centro da cidade.
O cenário mostra como o conflito iniciado em 7 de outubro de 2023 continua repercutindo muito além das fronteiras de Israel e dos territórios palestinos.
Uma sociedade ainda marcada pelo trauma
Três anos depois, o 7 de outubro permanece como uma ferida aberta na sociedade israelense.
As famílias das vítimas continuam convivendo com a perda, enquanto sobreviventes enfrentam as consequências psicológicas do ataque e de experiências de violência e cativeiro. Ao mesmo tempo, uma parte significativa da população continua questionando como foi possível que o país, considerado uma das nações com sistemas de inteligência e segurança mais sofisticados do mundo, tenha sido surpreendido por uma operação de tamanha escala.
O debate também se tornou eleitoral. Para os apoiadores de Netanyahu, a prioridade continua sendo garantir a segurança de Israel diante das ameaças regionais. Para seus críticos, o aniversário reforça a necessidade de responsabilização política e de uma investigação abrangente sobre as falhas que antecederam o ataque.
O resultado das eleições de 27 de outubro poderá, portanto, influenciar não apenas a composição do próximo governo, mas também a forma como Israel pretende lidar com o legado político e institucional deixado pelo 7 de outubro.
Enquanto o país recorda seus mortos, o conflito continua deixando marcas profundas dos dois lados da fronteira. O terceiro aniversário do ataque acontece, assim, não apenas como uma data de memória, mas como um momento de disputa sobre responsabilidade, segurança, futuro político e as possibilidades de uma paz ainda distante.