Número de travessias caiu cerca de 40% em relação ao mesmo período de 2025, mas aumento das chegadas no início de outubro voltou a colocar a imigração irregular no centro do debate político britânico
Um total de 1.739 pessoas chegou ao Reino Unido em pequenas embarcações pelo Canal da Mancha entre 1º e 7 de outubro, segundo os dados mais recentes do Ministério do Interior britânico. O movimento equivale a uma média de quase 249 chegadas por dia, ou aproximadamente uma pessoa a cada seis minutos durante o período.
As travessias ocorreram em 23 pequenas embarcações, elevando para 20.935 o número de pessoas que chegaram ao Reino Unido por essa rota desde o início de 2026. Os dados voltaram a alimentar o debate político sobre imigração irregular e sobre a estratégia do governo para impedir as partidas a partir da costa francesa.
A segunda-feira, 5 de outubro, foi o dia de maior movimento da semana. 609 pessoas chegaram em oito embarcações, segundo os registros oficiais. O número representa uma média de aproximadamente 76 pessoas por barco, evidenciando o nível de lotação das embarcações utilizadas nas travessias.
Os números diários publicados pelo Ministério do Interior mostram que, antes do pico de segunda-feira, 91 pessoas haviam chegado em 2 de outubro, 164 no dia 3 e 418 no dia 4. Em 6 de outubro, outras 338 pessoas foram registradas em cinco embarcações. Os dados operacionais são provisórios e podem sofrer alterações.
Total de 2026 continua abaixo do registrado no ano passado
Apesar do aumento observado no início de outubro, o acumulado de 2026 permanece significativamente abaixo do registrado no mesmo momento do ano anterior.
Segundo os números divulgados nesta semana, as 20.935 chegadas representam uma redução de aproximadamente 40% em comparação com o mesmo período de 2025. O governo britânico afirma que o ritmo atual coloca 2026 no caminho para registrar o menor número anual de chegadas por pequenas embarcações desde 2020.
A comparação precisa ser feita com cautela porque as travessias não ocorrem de maneira uniforme ao longo do ano. Condições meteorológicas, temperatura, visibilidade e atividade das redes de tráfico de pessoas podem provocar grandes oscilações de uma semana para outra.
O histórico mostra, porém, que o problema permanece em uma escala elevada. Em 2025, 41.472 pessoas foram detectadas chegando ao Reino Unido em pequenas embarcações, segundo dados do Ministério do Interior. Foi o segundo maior número anual desde o início dos registros, atrás apenas de 2022, quando cerca de 45.774 pessoas fizeram a travessia.
Um relatório da Biblioteca da Câmara dos Comuns também aponta que o número de pessoas por embarcação aumentou consideravelmente nos últimos anos. A média passou de aproximadamente sete pessoas por barco em 2018 para cerca de 65 no período de 12 meses encerrado em junho de 2026.
Farage acusa governo de perder o controle das fronteiras
O novo balanço provocou críticas da oposição e de setores que defendem uma política migratória mais restritiva.
O líder do Reform UK, Nigel Farage, classificou a situação como um “desastre fora de controle” e afirmou que as travessias representam uma ameaça à segurança nacional. Ele também direcionou críticas ao primeiro-ministro Andy Burnham e à política migratória do atual governo.
Já o secretário de Estado paralelo do Interior, Chris Philp, do Partido Conservador, acusou o governo trabalhista de deixar as fronteiras “amplamente abertas” e afirmou que a promessa de desarticular as redes responsáveis pelo tráfico de pessoas não teria sido cumprida.
Philp também fez afirmações sobre a suposta relação entre migrantes que chegam por pequenas embarcações e crimes graves. Essas declarações fazem parte do discurso político da oposição e não significam que as pessoas que atravessam o Canal estejam, de forma geral, envolvidas em criminalidade.
Dados independentes mostram que a população que chega por essa rota é heterogênea. Entre 2018 e 2025, seis nacionalidades — iraniana, afegã, iraquiana, albanesa, síria e eritreia — representaram cerca de 65% das pessoas detectadas nas travessias. Além disso, a grande maioria daqueles que chegam por pequenas embarcações solicita asilo no Reino Unido.
Governo diz que milhares de travessias foram impedidas
O Ministério do Interior rejeitou a interpretação de que os números da primeira semana de outubro representem, isoladamente, uma deterioração da situação.
Em resposta às críticas, o governo afirmou que os dados apresentados de forma seletiva não representam todo o cenário de 2026. Segundo o Executivo, mais de 48 mil tentativas de travessia foram impedidas desde as últimas eleições gerais, em uma operação que envolve autoridades britânicas e francesas.
O governo também afirma ter economizado mais de 1 bilhão de libras com a redução do uso de hotéis para acomodar solicitantes de asilo. Dados parlamentares mostram que a estratégia de redução dos custos de acomodação faz parte de um plano mais amplo para diminuir a dependência desse tipo de hospedagem.
Em setembro, a ministra responsável pela área de migração, Anna Turley, afirmou no Parlamento que a cooperação com a França havia impedido mais de 48 mil tentativas de travessia. O governo também informou que mais de 1.100 embarcações e motores haviam sido apreendidos pela Agência Nacional contra o Crime em operações realizadas com parceiros internacionais.
O acordo entre Reino Unido e França também passou por mudanças em 2026, com o objetivo de ampliar a cooperação policial, o compartilhamento de informações e as ações contra as redes de tráfico de pessoas. Segundo dados apresentados ao Parlamento, autoridades francesas impediram 61% dos eventos de travessia no período entre 27 de abril e 2 de agosto, cinco pontos percentuais acima do mesmo período do ano anterior.
Uma rota que continua perigosa
A redução dos números não elimina os riscos associados à travessia. As autoridades britânicas alertam regularmente que as embarcações utilizadas pelas redes criminosas são frequentemente superlotadas e inadequadas para navegar em uma das áreas marítimas mais movimentadas da Europa.
A preocupação aumentou justamente com o crescimento do número de passageiros por embarcação. Segundo a Biblioteca da Câmara dos Comuns, a média chegou a cerca de 65 pessoas por barco no período de 12 meses encerrado em junho de 2026.
A travessia também continua sendo um dos principais pontos de tensão da política migratória britânica. Desde 2018, mais de 200 mil pessoas foram detectadas chegando ao Reino Unido por pequenas embarcações pelo Canal da Mancha.
Ao mesmo tempo, os dados disponíveis mostram que a dimensão do fenômeno varia bastante de acordo com o período analisado. O número acumulado de 2026 está abaixo do registrado no ano passado, mas episódios de grande concentração, como as 1.282 chegadas registradas em apenas quatro dias no início de outubro, mostram que a pressão sobre as autoridades pode voltar rapidamente, especialmente em períodos de condições marítimas favoráveis.
Assim, os 1.739 desembarques registrados entre 1º e 7 de outubro representam um novo pico de curto prazo, mas precisam ser interpretados dentro de um cenário mais amplo: o Reino Unido registra uma queda significativa nas chegadas em relação a 2025, enquanto o número absoluto de travessias continua suficientemente elevado para manter a imigração irregular como um dos principais temas do debate político nacional.