Um funcionário do Ministério do Interior britânico, que trabalhou diretamente na análise de pedidos de asilo, afirma que apenas cerca de 1% das solicitações avaliadas por ele seriam genuínas. O denunciante, identificado pelo jornal The Times apenas como “J” para proteger sua identidade, acusa o sistema britânico de permitir fraudes em diferentes etapas do processo e afirma que determinados grupos de solicitantes utilizariam relatos semelhantes, documentos questionáveis e estratégias previamente preparadas para obter proteção no país.
As declarações, porém, não foram verificadas de forma independente e não representam uma estatística oficial do governo britânico. O próprio Ministério do Interior não confirmou a estimativa de 1% nem os exemplos apresentados pelo informante.
A denúncia surge em um momento de forte pressão política sobre o sistema de asilo do Reino Unido, enquanto o governo tenta reduzir o número de pedidos pendentes, acelerar decisões e combater alegações fraudulentas.
Informante afirma ter encontrado “pedidos em pacote”
Segundo “J”, um dos padrões que mais chamaram sua atenção durante os anos em que trabalhou no sistema foram os chamados “pedidos em pacote”: relatos apresentados por diferentes solicitantes que, apesar de não terem relação aparente entre si, continham histórias muito semelhantes.
Um dos exemplos citados envolve centenas de solicitantes curdos iraquianos que teriam afirmado, separadamente, ter mantido um relacionamento com a filha do primeiro-ministro da região do Curdistão iraquiano.
De acordo com o informante, a repetição da mesma história teria se tornado uma espécie de piada interna entre funcionários responsáveis pela análise dos casos.
Ele afirma que situações semelhantes teriam ocorrido com solicitantes paquistaneses. Centenas deles, segundo seu relato, teriam alegado que corriam risco de perseguição porque mantinham um relacionamento com o mesmo homem, que supostamente fornecia cartas para sustentar os pedidos de asilo.
O funcionário também levantou suspeitas sobre determinados pedidos apresentados por cidadãos de Bangladesh que afirmavam ser dissidentes políticos de um antigo partido governista atualmente proibido. Segundo ele, alguns desses solicitantes não conseguiam responder a perguntas básicas sobre a organização política que alegavam apoiar ou integrar.
Como funcionaria o suposto esquema
Na avaliação do informante, parte do problema estaria relacionada ao próprio funcionamento do processo de asilo britânico.
Depois de apresentar um pedido inicial, o solicitante pode passar meses antes de participar da entrevista substantiva na qual sua história é examinada em detalhes. Para “J”, esse intervalo oferece tempo suficiente para que algumas pessoas preparem cuidadosamente seus relatos, procurem orientação e tentem reunir documentos destinados a sustentar suas versões.
O funcionário afirma que, em alguns casos, esse material poderia incluir documentos falsificados ou outras evidências produzidas especificamente para reforçar uma história previamente construída.
“J” também critica o fato de que os responsáveis pelas decisões não podem, em determinadas circunstâncias, entrar em contato com os países de origem dos solicitantes para verificar diretamente suas alegações. A restrição está relacionada às próprias regras de confidencialidade do sistema de proteção internacional: entrar em contato com autoridades do país de origem poderia colocar uma pessoa que realmente corre risco de perseguição em perigo.
Rejeitar um pedido exige mais trabalho, afirma informante
Outra crítica apresentada pelo denunciante diz respeito à carga de trabalho dos funcionários responsáveis pelas decisões.
Segundo “J”, uma decisão negativa precisa responder detalhadamente aos diferentes elementos apresentados pelo solicitante, enquanto uma decisão favorável pode ser menos trabalhosa. Na avaliação dele, isso criaria uma estrutura que favoreceria a aprovação de determinados pedidos simplesmente pela pressão sobre os funcionários e pelo volume de processos.
O informante descreve o sistema como profundamente disfuncional e afirma que praticamente nenhuma etapa funciona como deveria.
As acusações são graves, mas permanecem sendo o relato de uma única fonte anônima e não constituem, por si só, prova de fraude generalizada no sistema de asilo.
O que dizem os números oficiais
Os dados mais recentes do próprio governo britânico mostram uma realidade bastante diferente da estimativa apresentada pelo informante.
No ano encerrado em junho de 2026, 85.891 pessoas solicitaram asilo no Reino Unido, uma redução de 21% em relação ao período anterior. Ainda assim, o número permanece acima dos níveis registrados na maior parte do período entre 2003 e 2022.
No mesmo período, 115.872 pessoas receberam uma decisão inicial sobre seus pedidos. Destas, 42.394 receberam proteção ou outra forma de autorização de permanência, enquanto 73.478 tiveram seus pedidos recusados.
A taxa de concessão na primeira decisão foi de 38%, uma queda expressiva em relação aos 48% registrados no ano anterior e muito abaixo do pico de 77% registrado no ano encerrado em setembro de 2022.
Esses números, entretanto, não permitem concluir que os 62% dos pedidos recusados eram fraudulentos. Uma decisão negativa significa que o pedido não cumpriu os critérios para receber proteção ou outra autorização naquele estágio do processo. Recursos e revisões podem alterar o resultado.
De acordo com o governo, para pedidos apresentados entre 2007 e 2022, a taxa de concessão após decisões posteriores, incluindo recursos e reconsiderações, foi em média 20 pontos percentuais superior à taxa observada na decisão inicial.
Paquistaneses e bangladeshianos estão entre os grupos mais numerosos
Os dados oficiais também mostram que algumas das nacionalidades citadas pelo informante estão entre as que mais apresentam pedidos de asilo no Reino Unido.
No ano encerrado em junho de 2026, Paquistão e Bangladesh estavam entre as seis principais nacionalidades de solicitantes, junto com Eritreia, Irã, Sudão e Afeganistão. Juntos, esses seis grupos representaram aproximadamente 46% de todos os pedidos registrados no período.
Entretanto, as taxas de concessão variam significativamente entre nacionalidades. Entre os dez grupos que mais receberam decisões iniciais no período, Bangladesh apresentou uma taxa de concessão de 11%, enquanto Paquistão ficou em 25%. Sudão e Eritreia apresentaram taxas muito mais elevadas, de 92% e 84%, respectivamente.
Essas diferenças refletem uma combinação de fatores, incluindo as circunstâncias existentes em cada país e a natureza dos pedidos apresentados. Elas não constituem, isoladamente, uma medida de fraude.
Mais de quatro em cada dez solicitantes já tinham visto ou autorização
Outro dado relevante para compreender o cenário é a rota de entrada no Reino Unido.
Segundo as estatísticas oficiais, pouco mais da metade das pessoas que solicitaram asilo no ano encerrado em junho de 2026 havia chegado por rotas consideradas ilegais, enquanto 41% tinham anteriormente obtido um visto ou outra forma de autorização para permanecer no país.
Isso significa que uma parcela significativa dos pedidos não está diretamente relacionada às travessias do Canal da Mancha em pequenas embarcações.
O dado também ajuda a explicar por que o debate britânico sobre asilo não se limita às chegadas por mar. Pessoas que entram legalmente no país para trabalhar, estudar ou visitar também podem posteriormente solicitar proteção internacional, desde que apresentem um pedido que será analisado pelas autoridades.
Governo diz que os pedidos são avaliados individualmente
O Ministério do Interior rejeitou a caracterização de que o sistema simplesmente aceita pedidos fraudulentos.
A posição oficial é de que cada solicitação é analisada individualmente por funcionários treinados, que devem considerar as evidências disponíveis e avaliar se o solicitante atende aos critérios para receber proteção.
O governo também afirma que pretende combater fraudes e retirar do país pessoas que tentem enganar deliberadamente o sistema.
A queda da taxa de concessão, de 77% em 2022 para 38% no ano encerrado em junho de 2026, é apontada pelas autoridades como um dos sinais de que o processo de análise se tornou mais rigoroso.
A alegação de 1% não foi comprovada
A afirmação mais contundente do informante — de que apenas um em cada cem pedidos seria genuíno — precisa ser tratada com cautela.
Não existe, nos dados públicos do governo britânico, uma estatística que indique que 99% dos pedidos de asilo sejam fraudulentos. As autoridades registram pedidos, decisões, concessões, recusas, recursos e outras categorias administrativas, mas esses números não equivalem a uma classificação entre “verdadeiros” e “falsos”.
Além disso, o fato de um pedido ser recusado não significa necessariamente que o solicitante tenha apresentado uma história inventada. Da mesma forma, uma decisão favorável não constitui prova de que todas as informações apresentadas durante o processo tenham sido verificadas de maneira independente.
A denúncia de “J” pode, portanto, levantar questões importantes sobre os mecanismos de controle do sistema, mas sua estimativa de 1% permanece uma alegação não comprovada.
Debate sobre o futuro do sistema de asilo
A denúncia chega em um momento no qual a imigração continua sendo uma das questões políticas mais sensíveis do Reino Unido.
O governo enfrenta pressão simultânea para reduzir o número de pessoas que aguardam decisões, diminuir o uso de hotéis para acomodação de solicitantes e acelerar a retirada daqueles que não têm direito de permanecer no país.
No final de junho de 2026, cerca de 40 mil pessoas ainda aguardavam uma decisão inicial sobre seus pedidos, uma redução de 56% em relação ao ano anterior e de 77% em comparação com o pico registrado em junho de 2023. O número de pessoas recebendo apoio do sistema de asilo também caiu para aproximadamente 93 mil.
Esses avanços, porém, não encerram a discussão sobre a qualidade das decisões nem sobre a capacidade do governo de identificar fraudes sem prejudicar pessoas que realmente precisam de proteção.
O relato do informante deverá alimentar ainda mais esse debate. Mas, enquanto não houver uma investigação independente que confirme a dimensão das irregularidades descritas, a estimativa de que apenas 1% dos pedidos de asilo seriam legítimos deve ser tratada como uma denúncia individual, e não como um retrato comprovado do sistema britânico.