Pesquisa do King’s College London mostra que o público estima em 30% a parcela de londrinos vítimas de crimes, mais que o dobro dos 12,2% registrados oficialmente

Londres pode ser percebida como uma cidade muito mais perigosa do que os dados oficiais indicam. Uma nova pesquisa do King’s College London identificou uma diferença significativa entre a percepção dos britânicos sobre a criminalidade na capital e a realidade registrada pelas estatísticas oficiais.

Segundo o estudo, realizado em parceria com a YouGov, os entrevistados estimaram que 30% dos londrinos haviam sido vítimas de algum crime entre outubro de 2024 e setembro de 2025. O dado oficial para o mesmo período, porém, foi de 12,2%.

Ou seja, a percepção do público foi mais de duas vezes superior à realidade medida pelo levantamento oficial.

Mesmo os próprios moradores de Londres demonstraram uma visão mais pessimista: eles estimaram que 25% dos habitantes da capital haviam sido vítimas de crimes no período, aproximadamente o dobro da proporção registrada.

Os pesquisadores ressaltam, entretanto, que 12,2% ainda representa uma parcela significativa da população. Na prática, significa que aproximadamente uma em cada oito pessoas foi vítima de algum crime no período analisado.

O estudo faz parte do projeto Mistaken Britain, desenvolvido pelo Policy Institute do King’s College London para investigar diferenças entre aquilo que o público acredita e o que mostram os dados disponíveis.

Londres tinha a menor taxa de crimes violentos entre as regiões

Uma das conclusões mais marcantes da pesquisa está relacionada aos crimes violentos.

Metade dos entrevistados acreditava que Londres tinha a maior taxa de crimes violentos entre todas as regiões da Inglaterra e do País de Gales no período de 12 meses encerrado em setembro de 2025.

Os dados oficiais apontavam justamente o contrário: Londres apresentava a menor taxa de crimes violentos entre as regiões analisadas.

A mesma distorção aparece quando os entrevistados foram questionados sobre a evolução geral da criminalidade.

Cerca de 62% acreditavam que o número total de crimes na capital havia aumentado entre 2019 e 2025. Na realidade, segundo os dados utilizados pelos pesquisadores, houve uma queda de aproximadamente 1,4% no período.

O número de homicídios também foi superestimado. Quatro em cada dez entrevistados acreditavam que os assassinatos haviam aumentado desde 2019, quando o número real caiu cerca de 15%.

Nem tudo é percepção equivocada

Os pesquisadores fazem uma ressalva importante: a pesquisa não conclui que as preocupações com a criminalidade em Londres sejam infundadas.

Alguns tipos de crime realmente aumentaram significativamente.

A maioria dos entrevistados identificou corretamente o crescimento dos furtos em lojas e dos furtos de objetos ou pertences de pessoas. Ambos mais que dobraram entre 2019 e 2025.

Também houve maioria entre os entrevistados que identificou corretamente o aumento dos crimes sexuais e dos crimes violentos contra pessoas.

Dados mais recentes da Polícia Metropolitana indicam que essas tendências continuaram em algumas categorias. No período de 12 meses até julho de 2026, os crimes sexuais aumentaram 4,2%, enquanto os crimes de violência contra pessoas cresceram 7%.

O resultado mostra que a percepção pública não é simplesmente uma invenção: determinados delitos que afetam diretamente a vida cotidiana realmente cresceram e podem contribuir para uma sensação maior de insegurança.

Furtos de celulares estão entre as prioridades da polícia

O furto de celulares se tornou um dos principais focos da Polícia Metropolitana, especialmente nas regiões mais movimentadas e turísticas de Londres.

A corporação afirma que uma operação de grande escala contra esse tipo de crime contribuiu para uma redução significativa das ocorrências.

Segundo os dados divulgados pela polícia, houve 13 mil furtos de celulares a menos em Londres no período de um ano.

No West End, uma das áreas mais visitadas da capital, o número de ocorrências caiu pela metade entre junho de 2025 e junho de 2026, após o aumento do patrulhamento e uma operação específica contra os furtos.

A Polícia Metropolitana também informou que o chamado crime de bairro caiu 14% em Londres nos 12 meses até junho de 2026, o equivalente a mais de 35 mil ocorrências a menos. Os furtos contra pessoas recuaram 23%, enquanto os roubos pessoais diminuíram 11%.

Moradores também superestimam a sensação de insegurança

A pesquisa identificou outra diferença significativa entre percepção e realidade.

Os entrevistados estimaram que 60% dos londrinos não se sentem seguros caminhando sozinhos pela região onde vivem depois de escurecer.

O dado oficial é de 37%.

Até os próprios moradores da capital superestimaram o medo de outros londrinos. Eles estimaram que metade dos habitantes não se sentiria segura nessas circunstâncias.

Isso não significa, porém, que a sensação de insegurança seja irrelevante. Mais de um terço dos moradores afirmar que não se sente seguro caminhando sozinho à noite é um dado que continua representando um desafio importante para as autoridades.

A pesquisa mostra, portanto, duas realidades que podem coexistir: os índices gerais de criminalidade podem estar abaixo do que o público imagina, enquanto uma parcela considerável da população ainda experimenta uma sensação concreta de insegurança.

Como as redes sociais influenciam a imagem de Londres?

Os pesquisadores também relacionam as percepções sobre criminalidade ao ambiente político e à maneira como Londres é retratada na internet.

O estudo do King’s College London aponta que a capital se tornou uma das cidades mais polarizadas do Reino Unido em termos de percepção pública.

Apenas 42% dos entrevistados afirmam ter uma visão favorável de Londres, enquanto 36% têm uma visão desfavorável.

Além disso, 54% acreditam que a cidade mudou para pior desde 2016. Apenas 16% consideram que Londres melhorou nesse período.

O próprio governo da capital vem monitorando a maneira como Londres é retratada nas redes sociais.

Um relatório da Greater London Authority identificou crescimento significativo de conteúdos que descrevem a cidade como perigosa ou em decadência. Segundo a análise, narrativas desse tipo aumentaram entre 150% e 200% entre março de 2024 e março de 2026, enquanto conteúdos relacionados à imigração e Londres cresceram mais de 350%.

A própria autoridade municipal esclareceu posteriormente, em resposta a um pedido de acesso à informação, que não existe uma equipe única dedicada exclusivamente ao monitoramento dessas narrativas. O levantamento citado foi produzido como um trabalho específico pela Unidade de Inteligência da Cidade.

Sadiq Khan acusa “desinformação organizada”

O prefeito de Londres, Sadiq Khan, utilizou os resultados do estudo para reforçar suas críticas ao que considera uma representação distorcida da capital nas redes sociais.

Khan afirmou que Londres vem sendo alvo de uma campanha “incansável e sem precedentes” de informações falsas e desinformação.

Segundo o prefeito, atores estrangeiros, políticos e contas automatizadas estariam contribuindo para a disseminação de conteúdos que apresentam a cidade como muito mais perigosa do que os dados indicam.

Khan também destacou os investimentos realizados na Polícia Metropolitana e na Unidade de Redução da Violência, afirmando que essas medidas ajudaram a reduzir o crime de bairro em 14%.

A Prefeitura de Londres anunciou ainda, em junho, uma campanha internacional de £7 milhões destinada a promover a capital como destino turístico e centro de investimentos, ao mesmo tempo em que busca combater narrativas consideradas prejudiciais sobre a cidade.

Londres é realmente uma cidade segura?

A resposta depende, em grande medida, do indicador utilizado.

Os dados do estudo mostram que Londres não apresenta os níveis de criminalidade que muitos britânicos imaginam. Em particular, a capital aparece com uma das menores taxas regionais de crimes violentos e registrou queda na criminalidade total e nos homicídios em comparação com 2019.

Ao mesmo tempo, determinados crimes aumentaram de maneira expressiva. Furtos em lojas e furtos contra pessoas mais que dobraram no período analisado, enquanto crimes sexuais e violência contra pessoas também apresentaram crescimento.

A realidade, portanto, é mais complexa do que os extremos presentes no debate público.

O professor Bobby Duffy, diretor do Policy Institute do King’s College London, afirmou que as pessoas tendem a concentrar sua atenção em ameaças e acontecimentos negativos, enquanto notícias violentas e conteúdos alarmantes recebem maior destaque nos meios de comunicação e nas redes sociais.

Segundo ele, as percepções equivocadas não são apenas uma questão de falta de informação: também estão relacionadas a emoções, identidade, experiências pessoais e ao ambiente político e midiático.

Londres, entre os fatos e a percepção

A pesquisa mostra que a imagem da capital britânica está cada vez mais dividida entre duas narrativas.

De um lado, os dados oficiais apontam que vários indicadores de criminalidade melhoraram e que Londres não é a região mais violenta do país. De outro, crimes específicos cresceram e continuam alimentando preocupações legítimas entre moradores, comerciantes e visitantes.

A principal conclusão dos pesquisadores não é que Londres esteja livre de problemas de segurança, mas que a percepção pública sobre o tamanho desses problemas frequentemente se distancia dos dados disponíveis.

Em uma cidade de milhões de habitantes, mesmo uma taxa de 12,2% representa centenas de milhares de pessoas afetadas. Por isso, reduzir a distância entre percepção e realidade não significa minimizar as vítimas ou os crimes que efetivamente ocorrem.

Significa, segundo o estudo, criar um debate público baseado em números confiáveis, distinguindo entre aquilo que está aumentando, aquilo que está diminuindo e aquilo que simplesmente parece maior devido à maneira como os acontecimentos são percebidos e divulgados.

E esse talvez seja o ponto central do levantamento: em Londres, assim como em outras grandes cidades, a sensação de insegurança e a criminalidade real não são necessariamente a mesma coisa.

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