Londres entrou oficialmente na era dos veículos autônomos para transporte de passageiros. Uber e a empresa britânica Wayve lançaram nesta quinta-feira (3) o primeiro serviço de viagens autônomas do Reino Unido, colocando nas ruas da capital uma pequena frota de Ford Mustang Mach-E elétricos equipados com tecnologia capaz de conduzir os veículos.
Há, porém, um detalhe fundamental: ainda existe uma pessoa no banco do motorista.
Na fase inicial, os 15 veículos da Wayve contam com um motorista profissional licenciado pela Transport for London (TfL), que permanece a bordo durante todo o percurso, supervisiona o sistema e pode assumir o controle caso seja necessário. O serviço é, portanto, um lançamento de condução autônoma supervisionada — e não ainda um serviço de veículos totalmente sem motorista.
Mesmo com essa limitação, o lançamento representa um marco para o Reino Unido. Pela primeira vez, passageiros comuns podem solicitar pela plataforma da Uber uma viagem realizada por um veículo equipado com tecnologia de condução autônoma.
Como funciona o novo serviço
Os veículos da Wayve estão integrados à plataforma da Uber. Usuários que solicitarem determinadas categorias — UberX, Uber Electric ou Uber Comfort — podem ser selecionados para viajar em um dos automóveis autônomos.
O passageiro não precisa pagar uma tarifa adicional. Se o sistema oferecer um veículo da Wayve, o usuário poderá aceitar a viagem ou optar por um automóvel convencional antes que o carro seja enviado para buscá-lo. Os veículos podem circular por Londres, com exceção dos aeroportos.
A Uber afirma que mais de 140 mil londrinos já haviam manifestado interesse em experimentar o serviço antes do lançamento. Como a frota inicial tem apenas 15 veículos, a empresa também criou uma opção nas configurações do aplicativo para que os usuários aumentem suas chances de receber uma viagem autônoma.
Depois que o veículo chega, o passageiro pode desbloquear as portas e iniciar a viagem pelo próprio aplicativo. Dentro do automóvel há ainda uma tela interativa que permite iniciar o percurso e acompanhar informações sobre a viagem. A interface está disponível em 64 idiomas.
Os veículos podem transportar até quatro passageiros, enquanto o banco do motorista permanece reservado ao profissional responsável pela supervisão.
Por que ainda há um motorista?
A resposta está na regulamentação britânica.
Em agosto, a Transport for London concedeu licenças de Veículo de Aluguel Privado a uma série de veículos autônomos da Wayve. Os Ford Mustang Mach-E foram inspecionados para verificar se atendiam aos requisitos de segurança e às normas estabelecidas pela autoridade londrina.
Essa autorização, entretanto, não equivale a uma permissão para transportar passageiros sem qualquer intervenção humana.
Na fase atual, os veículos operam dentro do regime de testes de veículos automatizados do governo britânico, que exige a presença de um motorista treinado e licenciado. É essa pessoa que continua responsável por supervisionar o trajeto e assumir o controle quando necessário.
O Reino Unido criou uma estrutura regulatória específica para a próxima etapa: os Serviços Automatizados de Passageiros. Esse regime permitirá, depois das devidas avaliações e autorizações, que veículos transportem passageiros sem a presença de um motorista humano.
É justamente essa autorização que transformaria o atual serviço supervisionado em um robotáxi totalmente autônomo.
O verdadeiro teste ainda está por vir
A presença obrigatória do motorista é importante para a segurança durante a fase inicial, mas também representa a principal diferença entre o serviço que acaba de chegar a Londres e os modelos mais avançados de robotáxi já em operação em algumas regiões dos Estados Unidos e da China.
A principal promessa econômica da condução autônoma está na possibilidade de eliminar a necessidade de um motorista humano em cada veículo. Sem essa etapa, o custo operacional de um automóvel autônomo continua incluindo um profissional qualificado sentado no banco da frente.
Por isso, o lançamento de Londres deve ser encarado como uma etapa de validação e expansão da tecnologia, e não como a conclusão da corrida pelos robotáxis.
A Wayve poderá, entretanto, acumular algo extremamente valioso: dados obtidos em condições reais de circulação em uma das cidades mais complexas do mundo para a condução automatizada.
Londres é um dos ambientes mais difíceis para dirigir
A capital britânica foi escolhida como laboratório de tecnologia autônoma justamente porque apresenta uma combinação particularmente difícil de situações.
Ruas estreitas, cruzamentos complexos, ônibus, motocicletas, ciclistas, pedestres, veículos estacionados irregularmente e mudanças constantes no fluxo de trânsito fazem parte do cotidiano londrino.
A Wayve desenvolve e treina sua tecnologia nas ruas da cidade desde 2018. Seu sistema, chamado Wayve AI Driver, utiliza inteligência artificial para aprender com a experiência e interpretar o ambiente ao redor do veículo. A empresa afirma que sua abordagem não depende dos tradicionais mapas de alta definição nem de regras codificadas manualmente para cada situação.
Essa característica é considerada estratégica para uma eventual expansão internacional, porque, em teoria, permitiria adaptar o sistema a novas cidades sem precisar construir previamente mapas extremamente detalhados de cada rua.
A Wayve também desenvolveu uma arquitetura que não depende de um modelo específico de veículo ou de uma configuração única de sensores, o que pode facilitar futuras expansões da tecnologia para diferentes fabricantes e modelos.
Uber aposta em uma rede híbrida
Para a Uber, o objetivo não é simplesmente substituir imediatamente todos os motoristas por máquinas.
A empresa está desenvolvendo o que chama de uma rede híbrida, na qual veículos autônomos e motoristas humanos trabalham simultaneamente na mesma plataforma.
A estratégia permitiria que a Uber ampliasse a disponibilidade de viagens autônomas gradualmente, enquanto mantém os motoristas humanos para atender regiões, horários ou situações nas quais os veículos automatizados ainda não estejam preparados para operar.
Segundo a empresa, ela trabalha atualmente com mais de 30 parceiros de veículos autônomos em áreas de mobilidade, entregas e transporte de cargas. A Uber pretende facilitar viagens autônomas em até 15 cidades ao redor do mundo até o final de 2026.
Londres é, portanto, uma peça importante de uma estratégia muito maior.
Wayve entra na disputa com Waymo e Baidu
A chegada da Wayve à capital britânica também coloca Londres no centro da competição internacional pelo futuro dos robotáxis.
A Waymo, empresa pertencente à Alphabet, já opera serviços comerciais de veículos totalmente autônomos em diversas cidades dos Estados Unidos e prepara sua entrada no mercado londrino. A chinesa Baidu, por sua vez, também desenvolveu operações de robotáxi em diferentes cidades da China e está entre as empresas interessadas na expansão internacional desse mercado.
A diferença é que Uber e Wayve conseguiram colocar passageiros pagantes em veículos autônomos em Londres antes de seus principais concorrentes.
Mas isso não significa necessariamente que tenham chegado mais longe tecnologicamente.
O serviço londrino ainda depende de um motorista de segurança, enquanto algumas operações da Waymo nos Estados Unidos já funcionam sem ninguém no banco do motorista. Essa diferença será um dos principais pontos de comparação quando os concorrentes começarem a disputar o mercado britânico.
A experiência ainda é quase a mesma de um Uber convencional
Para o passageiro, a mudança pode parecer menor do que o termo “robotáxi” sugere.
A viagem é solicitada pelo aplicativo, o usuário recebe uma tarifa antecipada e pode avaliar o serviço depois do percurso. A diferença é que, ao entrar no veículo da Wayve, ele encontrará um automóvel capaz de conduzir grande parte da viagem de forma autônoma.
O passageiro também pode acompanhar informações sobre o percurso em uma tela instalada no interior do veículo.
A Uber, entretanto, mantém uma opção de escolha: se o usuário não quiser viajar em um veículo autônomo, pode recusar a viagem e solicitar um automóvel convencional.
Essa característica é particularmente importante nesta primeira fase, porque permite que a empresa introduza a tecnologia gradualmente e observe como os passageiros reagem à experiência.
O próximo passo será retirar o motorista
O verdadeiro marco da tecnologia, porém, ainda está por acontecer.
Para a Wayve e a Uber, o objetivo de longo prazo é permitir que esses veículos circulem sem uma pessoa preparada para assumir o volante. Isso exigirá novas autorizações regulatórias e demonstrações de segurança suficientes para convencer as autoridades britânicas de que o sistema pode operar de maneira confiável sem supervisão humana.
Até lá, Londres terá uma situação curiosa: um carro que consegue dirigir sozinho, mas que ainda precisa de um ser humano sentado ao volante.
A contradição resume perfeitamente o momento atual da indústria.
A tecnologia já deixou os laboratórios e começou a transportar passageiros pelas ruas de uma das cidades mais movimentadas e complexas da Europa. Mas a transição entre um veículo que consegue dirigir sozinho e um serviço comercial que realmente não precisa de motorista ainda depende de testes, dados, regulamentação e, principalmente, confiança.
O lançamento da Uber e da Wayve é, portanto, menos o ponto final da corrida dos robotáxis do que o início de uma nova etapa.
Londres já tem carros que dirigem sozinhos. Agora, a indústria precisa provar que eles conseguem fazer isso com segurança — e, finalmente, sem ninguém atrás do volante.