Projeto do governo britânico prevê transformar uma antiga instalação militar próxima ao vilarejo de Oxfordshire em um centro para homens adultos que aguardam decisão sobre pedidos de asilo; a capacidade seria cerca de 3,5 vezes a população de Piddington.
Uma pequena comunidade rural de 358 habitantes em Oxfordshire tornou-se o centro de uma das mais controversas disputas locais sobre a política de acolhimento de solicitantes de asilo no Reino Unido.
O motivo é a proposta do governo de transformar uma antiga instalação militar localizada entre Piddington e Upper Arncott, próxima a Bicester, em um centro temporário com capacidade para até 1.256 homens adultos que solicitaram asilo.
Se o projeto for aprovado e funcionar em sua capacidade máxima, o número de pessoas alojadas no local será aproximadamente 3,5 vezes maior do que toda a população de Piddington. A proposta prevê uso temporário por dez anos.
A dimensão da instalação é justamente um dos principais motivos da reação dos moradores. Piddington é uma comunidade pequena, enquanto o empreendimento planejado pelo governo prevê estruturas de alojamento, serviços de saúde e assistência social, áreas recreativas, estacionamento, infraestrutura viária, segurança e tratamento de águas residuais.
O conselho distrital de Cherwell, responsável pela área, apresentou uma objeção formal ao projeto e afirmou que ainda existem questões importantes sem resposta.
Um centro maior que a própria comunidade
O local escolhido é o Site A da antiga Bicester Garrison, uma área que deixou de ser utilizada pelo Ministério da Defesa britânico.
Em junho, o Ministério do Interior anunciou a intenção de utilizar a propriedade como uma das novas instalações destinadas a substituir gradualmente os hotéis usados para alojar solicitantes de asilo. O objetivo declarado pelo governo é reduzir os custos desse sistema e concentrar o alojamento em antigas instalações militares.
A proposta de planejamento apresentada em setembro é mais específica: prevê a reutilização de estruturas existentes, demolições, construção de módulos de alojamento e implantação de instalações de saúde, assistência, segurança e lazer. A capacidade máxima prevista é de 1.256 pessoas.
O governo afirma que o local seria projetado para ser amplamente autossuficiente, justamente para reduzir o impacto sobre as comunidades vizinhas. O Ministério do Interior também ressalta que o projeto ainda está sujeito às avaliações necessárias e às aprovações de planejamento.
Para Piddington, porém, a escala da proposta é difícil de ignorar.
Uma comunidade de algumas centenas de moradores passaria a conviver, nas proximidades, com uma instalação cuja população potencial supera em várias vezes o número de pessoas que vivem no próprio vilarejo.
Conselho local questiona infraestrutura e segurança
A reação não ficou restrita aos moradores.
O Cherwell District Council apresentou formalmente sua oposição à proposta em 17 de setembro. Entre os principais pontos levantados estão o impacto sobre estradas e transporte, a pressão sobre infraestrutura e serviços públicos, os efeitos sobre as comunidades próximas, questões de drenagem e meio ambiente e os sistemas de segurança e gerenciamento do local.
O conselho também afirmou que informações importantes sobre o projeto ainda precisavam ser esclarecidas e que seriam necessárias medidas adicionais de mitigação antes que a proposta pudesse ser considerada aceitável.
O Oxfordshire County Council também apresentou objeções. A autoridade afirmou que o processo começou com pouco tempo de aviso às autoridades locais e sem uma consulta prévia adequada com moradores e parceiros locais.
A polícia também entrou no debate. O comissário de Polícia e Crime do Vale do Tâmisa, Matthew Barber, pediu que o governo financie integralmente os custos adicionais de policiamento relacionados ao projeto. Segundo uma estimativa apresentada por sua equipe, a demanda adicional poderia representar aproximadamente £1,7 milhão por ano durante a fase de construção, caso a autorização seja concedida.
Isso não significa que o centro tenha sido aprovado. A proposta segue o procedimento de Desenvolvimento Urgente da Coroa, e a decisão final caberá ao governo central, não ao conselho distrital de Cherwell.
A resposta dos moradores: um “novo Brexit”
Foi nesse contexto que Piddington decidiu organizar uma manifestação política inusitada.
Em 15 de setembro, os moradores participaram de um referendo simbólico sobre a “independência” do vilarejo. A votação não tem qualquer validade jurídica, mas foi organizada como forma de protestar contra o projeto do centro de acolhimento.
O resultado foi expressivo: 285 pessoas votaram pela independência, 26 contra e houve uma cédula anulada. A participação chegou a quase 92% dos eleitores que compareceram à votação organizada pela comunidade.
No dia seguinte, os organizadores anunciaram o resultado diante de moradores e jornalistas e passaram a chamar a localidade, de maneira simbólica, de “Principado de Piddington”.
A brincadeira foi inspirada no filme britânico Passport to Pimlico, de 1949, no qual moradores de um bairro de Londres descobrem que seu território pertence historicamente ao Ducado da Borgonha e decidem declarar independência.
Em Piddington, entretanto, o humor esconde uma disputa concreta sobre planejamento urbano, infraestrutura e política migratória.
Governo diz que o país precisa dividir a responsabilidade
O governo defende a utilização de antigas instalações militares para reduzir a dependência dos hotéis e distribuir a responsabilidade pelo acolhimento de solicitantes de asilo.
Uma ministra afirmou que a questão precisa ser compartilhada pela sociedade e argumentou que o peso do sistema de acolhimento não deveria continuar concentrado em comunidades mais pobres.
O argumento oficial também está relacionado ao grande número de pessoas que permanecem no sistema de asilo enquanto aguardam decisões sobre seus pedidos.
A proposta de Piddington, portanto, faz parte de uma estratégia nacional mais ampla, e não de uma iniciativa criada especificamente para a pequena comunidade de Oxfordshire. O governo anunciou três novos locais militares que, juntos, poderiam receber cerca de 3.700 pessoas.
Uma instalação para homens adultos e sem detenção
Outro elemento importante da proposta é que o centro não funcionaria como uma prisão.
O projeto prevê alojamento não detido, o que significa que os moradores não estariam legalmente confinados dentro da instalação. O próprio governo descreve o local como uma forma de acomodação básica e segura para pessoas que aguardam o processamento de seus pedidos de asilo.
A questão da circulação e da relação com as comunidades vizinhas tornou-se, justamente por isso, parte das preocupações apresentadas por autoridades locais e moradores.
Ao mesmo tempo, a existência de preocupações de segurança na comunidade não significa que os solicitantes de asilo sejam, individualmente, uma ameaça ou que o projeto necessariamente provocará aumento da criminalidade. As autoridades locais estão questionando principalmente a capacidade de policiamento, transporte, serviços públicos e gestão de uma instalação de grande porte em uma área rural.
Essa distinção é relevante em um debate que rapidamente ganhou dimensão nacional.
A disputa ainda não terminou
Apesar do referendo simbólico e da forte oposição local, Piddington não se tornou independente do Reino Unido. O chamado “Principado de Piddington” é uma iniciativa satírica e política sem reconhecimento jurídico.
Mais importante, o centro de acolhimento ainda não está definitivamente aprovado.
O governo apresentou formalmente a proposta em setembro, e o período de consulta terminou em 17 de setembro. O conselho de Cherwell encaminhou suas objeções ao governo, que será responsável pela decisão final.
A discussão, portanto, está longe de ser apenas sobre um referendo peculiar em uma pequena vila inglesa.
De um lado está a tentativa do governo de substituir hotéis por instalações maiores e potencialmente mais baratas para lidar com o sistema de asilo. Do outro, uma comunidade de 358 habitantes que questiona se uma estrutura para até 1.256 pessoas pode ser integrada adequadamente a uma área rural de pequena escala.
É essa diferença — uma instalação com capacidade para mais de três vezes a população de todo o vilarejo — que transformou Piddington em um dos símbolos mais recentes da disputa britânica sobre como, onde e em que escala o país deve acomodar pessoas que aguardam uma decisão sobre seus pedidos de asilo.