Cerca de 60 migrantes chegaram a Dover na madrugada desta quarta-feira depois de uma travessia de mais de 30 horas pelo Canal da Mancha. A embarcação havia deixado a costa da Normandia, enquanto protestos em Gosport terminaram com seis prisões.
Cerca de 60 migrantes chegaram a Dover, no sul da Inglaterra, na madrugada desta quarta-feira (23), depois de permanecerem mais de 30 horas no mar em uma pequena embarcação que partiu da costa da Normandia, na França.
O grupo foi resgatado por duas embarcações da RNLI, a instituição britânica de salvamento marítimo, depois que a guarda costeira francesa acompanhou o barco durante parte da travessia. Segundo autoridades francesas, os ocupantes passaram mais de 33 horas no mar em condições consideradas precárias e recusaram assistência.
A operação terminou em Dover depois que as autoridades britânicas decidiram não desembarcar os migrantes em Gosport, no condado de Hampshire, onde centenas de manifestantes haviam se reunido à espera da embarcação.
Travessia começou na Normandia
A pequena embarcação deixou a região de Vierville-sur-Mer, na Normandia, na manhã de segunda-feira (21). O ponto de partida fica muito mais a oeste do que as áreas tradicionalmente utilizadas nas travessias do Canal da Mancha.
Dados de rastreamento marítimo indicaram que o barco avançou durante horas pela costa francesa antes de seguir em direção ao Reino Unido. Na terça-feira, quando já havia passado mais de 24 horas no mar, a embarcação se aproximou da linha que delimita a área de responsabilidade entre os dois países.
A guarda costeira francesa acompanhou o barco durante a operação. Segundo a prefeitura marítima francesa, os ocupantes recusaram ajuda porque estavam determinados a chegar ao Reino Unido, apesar dos riscos associados à travessia.
Duas embarcações da RNLI, vindas de Eastbourne e Hastings, foram enviadas para a região. Os migrantes foram posteriormente transferidos para uma embarcação do Comando de Segurança de Fronteiras britânico.
O desembarque acabou ocorrendo em Dover, onde pessoas usando coletes salva-vidas laranja foram vistas deixando a embarcação e sendo encaminhadas para as instalações de controle migratório.
Protestos em Gosport terminam com seis prisões
A expectativa inicial de que o grupo chegaria a Gosport provocou uma mobilização de manifestantes na cidade. Cerca de 200 pessoas se reuniram na região, algumas usando roupas pretas e cobrindo o rosto, segundo relatos da imprensa britânica.
Vídeos mostraram manifestantes diante de policiais e houve confrontos verbais durante a noite. A polícia de Hampshire confirmou posteriormente que seis pessoas foram presas.
Segundo a corporação, os detidos são investigados por crimes que incluem condução de veículo sem o devido cuidado, agressão a um funcionário de emergência e invasão agravada de propriedade.
A polícia afirmou que havia mobilizado agentes em Gosport e Portsmouth para garantir a segurança da população, permitir protestos pacíficos e apoiar as autoridades marítimas caso fosse necessária alguma intervenção de emergência.
Depois que ficou confirmado que a embarcação seria levada para Dover, e não para Gosport, parte dos manifestantes permaneceu no local. A polícia informou que alguns deles se tornaram hostis em relação aos agentes.
Polícia investiga vídeo de embarcação danificada
Além dos confrontos em terra, a polícia de Hampshire abriu uma investigação sobre um vídeo publicado nas redes sociais que aparentemente mostra o ativista Daniel Thomas, conhecido como Danny Tommo, aproximando-se da pequena embarcação no Canal da Mancha e danificando sua estrutura com uma lâmina.
Thomas é fundador do grupo Patriot Platform e esteve envolvido em recentes manifestações contra a chegada de migrantes no sul da Inglaterra. Ele havia transmitido ao vivo sua perseguição à embarcação em um barco de alta velocidade.
As imagens que circulam nas redes sociais parecem mostrar Thomas se aproximando do bote depois que os migrantes já haviam sido transferidos para uma embarcação de resgate. Um socorrista ainda estaria a bordo no momento em que a estrutura inflável foi perfurada.
A Polícia de Hampshire confirmou que está apurando o caso e disse estar ciente de um vídeo relacionado a danos causados a uma embarcação no Canal da Mancha. Até o momento, não foi anunciada uma acusação relacionada a esse episódio.
Travessias partindo de regiões mais distantes
O episódio ocorre em meio a sinais de que algumas embarcações utilizadas por migrantes estão partindo de pontos mais distantes da costa francesa.
Vierville-sur-Mer fica a oeste de Bayeux e está consideravelmente mais longe de Dover do que os tradicionais pontos de partida próximos a Calais e Dunquerque. Autoridades e veículos britânicos vêm relatando nas últimas semanas travessias iniciadas em áreas mais ocidentais da França.
A mudança aumenta a distância percorrida no mar e pode ampliar a exposição dos passageiros a correntes, vento e problemas mecânicos. Em outro episódio recente, uma embarcação que também havia partido da Normandia percorreu uma longa distância antes de ser interceptada por equipes de salvamento.
As autoridades francesas afirmam que as operações de acompanhamento e resgate continuam sendo realizadas de acordo com as obrigações de assistência marítima, inclusive quando os ocupantes se recusam inicialmente a ser resgatados.
Reino Unido registra 17.480 chegadas em 2026
O caso também ocorre poucos dias depois de uma embarcação ter chegado à costa de Folkestone, em Kent, sem ser interceptada pelas autoridades britânicas ou francesas. Cinco pessoas foram detidas após o desembarque, e o Ministério do Interior abriu uma investigação sobre o episódio.
Segundo os dados operacionais mais recentes do governo britânico, 17.480 pessoas haviam chegado ao Reino Unido em pequenas embarcações desde o início de 2026 até 20 de setembro. O número representa uma redução de 46% em relação ao mesmo período de 2025, embora os dados sejam provisórios e possam ser revisados.
O governo britânico afirma que as fronteiras estão seguras, mas reconhece a necessidade de reforçar o sistema. O ministro da Defesa Luke Pollard disse à LBC que uma investigação estava em andamento para determinar como a embarcação que chegou a Folkestone conseguiu escapar da detecção.
Enquanto isso, a chegada a Dover desta quarta-feira volta a colocar no centro do debate a segurança das travessias pelo Canal da Mancha, especialmente diante do aumento da distância percorrida por algumas embarcações e dos riscos enfrentados pelos passageiros durante jornadas que podem durar mais de um dia.