Andrew Bailey, presidente do Banco da Inglaterra, afirma que a persistência dos preços elevados de energia dificulta a manutenção da taxa em 3,75%; cenário pode afetar contas domésticas, crédito e hipotecas

O aumento persistente dos preços de energia está colocando uma pressão adicional sobre a economia do Reino Unido e pode dificultar a decisão do Banco da Inglaterra de manter os juros inalterados. O presidente da instituição, Andrew Bailey, afirmou nesta sexta-feira, 25 de setembro, que quanto mais tempo os preços permanecerem elevados, mais difícil será sustentar a atual política monetária.

A declaração reforça a mudança recente no tom do banco central britânico, que passou a considerar com maior atenção a possibilidade de uma nova elevação dos juros caso o choque energético continue alimentando a inflação.

“Quanto mais tempo tivermos preços de energia elevados, mais difícil será manter essa postura”, afirmou Bailey durante a Conferência de Economia Monetária organizada pela Universidade de Oxford.

O problema não está apenas nos indicadores econômicos. A combinação de energia mais cara e juros potencialmente mais altos pode chegar diretamente ao orçamento das famílias britânicas, pressionando contas domésticas, combustível, crédito e prestações de financiamentos.

Como a energia cara pode afetar o bolso

O primeiro impacto é direto: energia e combustível mais caros reduzem o dinheiro disponível para outros gastos.

Os dados mais recentes do Escritório Nacional de Estatísticas mostram que a inflação anual do Reino Unido chegou a 3,1% em agosto, acima dos 2,9% registrados em julho. O transporte, especialmente os combustíveis, foi o principal fator de pressão sobre o índice.

O preço médio da gasolina aumentou 9,1 pence por litro entre julho e agosto, chegando a 161,3 pence. O diesel subiu 14,2 pence, para 181,8 pence por litro. Em um ano, os preços dos combustíveis aumentaram 23%.

As despesas domésticas também sentem a pressão. A inflação anual de eletricidade, gás e outros combustíveis chegou a 6% em agosto, enquanto o índice de habitação e serviços domésticos atingiu 4,3%.

Há ainda um segundo efeito. Energia é um custo para empresas de praticamente todos os setores. Se os preços permanecem elevados, parte desse aumento pode ser repassada para produtos e serviços, prolongando a pressão sobre a inflação.

Até agora, esse efeito indireto foi menor do que o Banco da Inglaterra esperava no início do choque energético. A instituição, porém, considera que os impactos podem aumentar nos próximos meses.

E se os juros subirem?

É aqui que a situação pode ficar mais complicada para quem tem dívidas.

Se o Banco da Inglaterra elevar sua taxa básica, os bancos podem repassar parte desse aumento para os custos de empréstimos e financiamentos. Isso pode atingir pessoas que precisam contratar um novo crédito, renegociar uma dívida ou renovar uma hipoteca.

O Banco da Inglaterra informou que as condições financeiras do Reino Unido já ficaram mais restritivas desde o início do conflito no Oriente Médio. A taxa anunciada para uma hipoteca fixa de dois anos estava cerca de 0,95 ponto percentual acima do nível registrado antes do conflito.

Para uma família, portanto, o efeito pode ocorrer em duas frentes: primeiro, energia e combustível mais caros reduzem o poder de compra; depois, juros mais altos podem aumentar o custo do dinheiro.

Por outro lado, taxas maiores também podem beneficiar pessoas que mantêm dinheiro em determinados produtos de poupança ou depósitos remunerados, embora o efeito dependa das condições oferecidas por cada instituição financeira.

Banco da Inglaterra mantém taxa em 3,75%

Na reunião de setembro, o Comitê de Política Monetária decidiu manter a taxa básica em 3,75%, por seis votos a três.

Seis integrantes, incluindo Bailey, defenderam a manutenção. Outros três preferiram elevar a taxa para 4%.

A decisão não significa que uma nova alta tenha sido descartada. Pelo contrário: o Banco da Inglaterra afirmou que, embora os efeitos dos preços de energia sobre salários e formação de preços ainda sejam limitados, o risco aumenta quanto mais tempo o choque persistir.

Bailey resumiu a preocupação da instituição ao afirmar que o banco não pode simplesmente esperar até que todos os efeitos da alta de energia estejam plenamente visíveis antes de reagir.

A próxima decisão será divulgada em 5 de novembro.

Inflação pode superar 4% no início de 2027

A preocupação do Banco da Inglaterra está relacionada principalmente à possibilidade de o choque energético deixar de ser temporário.

A instituição estima que, com base nos preços de energia observados em meados de setembro, a inflação possa chegar a aproximadamente 3,75% no último trimestre de 2026 e superar ligeiramente 4% no primeiro trimestre de 2027.

A meta oficial de inflação do banco central é de 2%.

O risco está em um possível efeito de segunda rodada: empresas podem repassar custos maiores para seus produtos e serviços, trabalhadores podem buscar aumentos salariais para compensar a perda de poder de compra e esses reajustes podem alimentar uma nova rodada de aumentos de preços.

Até o momento, o Banco da Inglaterra afirma haver poucas evidências desse processo. Mas a avaliação é que o risco aumenta quanto mais tempo petróleo, gás e outros custos de energia permanecerem elevados.

Combustível, alimentos e contas domésticas

A energia também pode afetar o consumidor de maneira menos evidente.

Um aumento do preço do petróleo, por exemplo, não significa apenas gasolina mais cara. Empresas de transporte enfrentam custos maiores, assim como fabricantes, distribuidores, supermercados e outros negócios que dependem de combustíveis ou eletricidade.

O repasse para os preços finais, porém, não é automático nem acontece na mesma intensidade em todos os setores.

O Banco da Inglaterra observa que os efeitos indiretos sobre os preços ao consumidor ainda foram relativamente pequenos. A inflação dos alimentos, por exemplo, permaneceu em 1,3% em agosto, segundo os dados oficiais. A instituição, entretanto, vê riscos de pressão maior em 2027 caso a situação energética continue.

O que isso significa para quem tem hipoteca

Para milhões de famílias britânicas, a evolução dos juros será especialmente relevante na hora de renovar contratos de financiamento imobiliário.

Quem possui uma hipoteca de taxa fixa geralmente fica protegido durante o período contratado, mas pode enfrentar uma prestação diferente quando precisar refinanciar. Já quem possui modalidades com taxas variáveis pode sentir alterações mais rapidamente, dependendo do contrato.

Por isso, uma eventual alta do Banco da Inglaterra não significa que todas as famílias verão suas prestações aumentar imediatamente. O impacto depende do tipo de financiamento, da taxa contratada e do momento da renovação.

O mesmo princípio vale para empréstimos pessoais, crédito para veículos e financiamento empresarial.

Juros maiores também podem desacelerar a economia

A elevação dos juros tem justamente o objetivo de reduzir a pressão inflacionária.

Quando o crédito fica mais caro, famílias tendem a ter menos incentivo para contrair novas dívidas e empresas podem adiar investimentos. Isso reduz a demanda e pode ajudar a impedir que aumentos temporários de preços se transformem em inflação persistente.

O problema é que esse mecanismo também pode desacelerar o crescimento econômico.

O Banco da Inglaterra reconhece que as condições financeiras já estão restritivas e que os juros mais elevados enfrentados por famílias e empresas desde o início do conflito deverão contribuir para reduzir a inflação ao longo do tempo.

É justamente esse equilíbrio que o Comitê de Política Monetária terá de avaliar nas próximas reuniões: conter a inflação sem exercer uma pressão excessiva sobre uma economia que já enfrenta custos elevados.

Mercado passa a considerar uma alta em novembro

As declarações de Bailey reforçaram a atenção dos investidores sobre a próxima reunião.

As expectativas do mercado passaram a incorporar uma probabilidade elevada de aumento dos juros em novembro, embora essas apostas não representem uma decisão antecipada do Banco da Inglaterra.

A própria instituição deixa claro que sua política continuará condicionada à evolução da inflação, dos preços de energia, dos salários, da atividade econômica e dos efeitos do choque sobre empresas e consumidores.

Bailey também havia advertido que era cedo para determinar se as expectativas do mercado sobre várias altas nos juros ao longo do próximo ano estavam corretas.

Um cenário de pressão para as famílias

Para os consumidores britânicos, a combinação de energia cara, inflação acima da meta e possibilidade de juros mais elevados representa um cenário de pressão sobre o orçamento.

O efeito, porém, não será igual para todos. Famílias com hipotecas de taxa fixa, por exemplo, podem não sentir imediatamente uma eventual alta dos juros, enquanto aquelas que precisam refinanciar seus contratos podem enfrentar custos maiores. Da mesma forma, quem tem dívidas pode ser mais afetado do que quem mantém recursos em produtos de poupança remunerados.

O que já está claro é que o aumento dos preços de energia deixou de ser apenas uma questão relacionada ao mercado internacional de petróleo e gás. No Reino Unido, ele já aparece nos dados de inflação e passou a influenciar diretamente o debate sobre os próximos passos do Banco da Inglaterra.

A próxima decisão, marcada para 5 de novembro, será acompanhada de perto por famílias, empresas e mercados, especialmente porque determinará se a autoridade monetária considera que a pressão energética está se tornando persistente o suficiente para justificar uma mudança na taxa de juros. 

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