Exames realizados em 49 moradores da região de Lancashire encontraram concentrações elevadas de PFOA, substância classificada como cancerígena pela Organização Mundial da Saúde; mais de 100 pessoas avaliam uma ação judicial contra a empresa responsável pela fábrica
Moradores de Thornton-Cleveleys, em Lancashire, no noroeste da Inglaterra, receberam resultados de exames de sangue que aumentaram a preocupação com a exposição a substâncias químicas persistentes associadas à atividade industrial da região. Dos 49 residentes submetidos aos testes, 69,4% apresentaram concentrações de ácido perfluorooctanoico (PFOA) superiores a 20 nanogramas por mililitro, faixa considerada de maior risco nas orientações utilizadas pelos pesquisadores.
Os exames foram realizados durante o verão de 2026 por especialistas da Universidade Metropolitana de Manchester, em uma iniciativa organizada no contexto de uma investigação conduzida por advogados que representam moradores da região. Os resultados foram entregues aos participantes em 23 de setembro.
O caso está relacionado ao complexo industrial de Hillhouse, onde funcionou durante décadas uma fábrica química que utilizou PFOA em seus processos de produção. A Agência do Meio Ambiente britânica investiga desde 2024 a possibilidade de contaminação histórica do solo e de outras áreas próximas ao local.
Embora os resultados indiquem exposição elevada entre parte dos participantes, eles não permitem determinar, individualmente, a origem da exposição nem prever se uma pessoa desenvolverá determinada doença.
O que os exames encontraram
Segundo os resultados divulgados pela organização jurídica Leigh Day, que acompanha a investigação, a concentração média de PFOA entre os 49 participantes foi de 26 nanogramas por mililitro.
Além dos 69,4% classificados acima de 20 ng/ml, os outros 30,6% apresentaram concentrações entre 2 e 20 ng/ml. Nenhum dos participantes ficou abaixo de 2 ng/ml.
Os valores foram interpretados com base nas orientações da Academia Nacional de Ciências, Engenharia e Medicina dos Estados Unidos. O documento estabelece que concentrações totais de PFAS inferiores a 2 ng/ml não são esperadas como associadas a efeitos adversos, enquanto resultados entre 2 e 20 ng/ml podem justificar medidas para reduzir a exposição. Acima de 20 ng/ml, a orientação considera haver aumento do risco de efeitos adversos e recomenda acompanhamento clínico apropriado.
Esses parâmetros, porém, não são um limite legal britânico para a população. O próprio Conselho de Wyre ressalta que os exames de sangue para PFAS refletem a exposição acumulada a diferentes fontes e não conseguem determinar de onde veio a substância nem prever futuros problemas de saúde.
Os resultados também indicaram concentrações mais elevadas entre participantes que moravam mais perto da instalação industrial. Entre os residentes que disseram consumir com frequência frutas e verduras cultivadas em casa, 75% estavam na categoria acima de 20 ng/ml. Todos os participantes que relataram consumir frequentemente ovos produzidos em suas propriedades apresentaram resultados nessa mesma categoria.
Por que o PFOA preocupa?
O PFOA faz parte do grupo das substâncias perfluoroalquiladas e polifluoroalquiladas, conhecidas pela sigla PFAS. Elas são frequentemente chamadas de “substâncias químicas eternas” porque algumas apresentam grande persistência no ambiente e podem permanecer no organismo durante longos períodos.
A Agência Internacional para Pesquisa sobre o Câncer, ligada à Organização Mundial da Saúde, classificou o PFOA como cancerígeno para seres humanos, no Grupo 1, em uma avaliação publicada em 2023. A decisão foi baseada em evidências experimentais e mecanísticas, além de evidências limitadas em humanos relacionadas a câncer renal e testicular.
Pesquisas também associaram a exposição a PFAS a alterações nos níveis de colesterol, efeitos sobre a tireoide, alguns problemas relacionados à gestação e outros efeitos sobre a saúde. A Academia Nacional de Ciências ressalta, entretanto, que muitas dessas condições são comuns na população e possuem múltiplos fatores de risco, o que significa que a presença de PFAS no sangue não permite atribuir uma doença específica à exposição.
Uma investigação ambiental que já dura anos
A preocupação em Thornton-Cleveleys não começou com os exames de sangue. A investigação oficial sobre o complexo de Hillhouse começou depois que a Agência do Meio Ambiente encontrou evidências de emissões históricas de PFOA relacionadas à instalação.
O produto químico foi utilizado no local desde a década de 1950 até 2012. A área era anteriormente administrada pela Imperial Chemical Industries, conhecida como ICI, antes de passar para a AGC Chemicals Europe.
Análises realizadas no âmbito da investigação oficial encontraram PFOA em amostras de solo de propriedades residenciais e em áreas de cultivo próximas à instalação. Na terceira fase da investigação, foram analisadas mais de mil amostras de solo em áreas residenciais situadas em um raio de até um quilômetro da fábrica. O relatório técnico apontou a possibilidade de uma relação entre emissões históricas para o ar e a deposição de PFOA em solos próximos.
Também foram encontrados PFAS em alimentos produzidos localmente. Em amostras de ovos coletadas em propriedades da região, as quatro substâncias analisadas estavam presentes nas 19 amostras examinadas.
Diante dos resultados, autoridades locais passaram a recomendar medidas de precaução para moradores que cultivam alimentos em suas propriedades. A orientação inclui lavar e descascar frutas e verduras cultivadas no solo e adotar cuidados de higiene após o contato com terra.
Um dos terrenos destinados a hortas comunitárias, o Occupation Road Allotments, chegou a cumprir os critérios para classificação formal como área contaminada segundo a legislação britânica, após a análise dos resultados de solo e de alimentos produzidos no local.
Moradores relatam preocupação com os resultados
Entre os participantes dos exames está Sam Hammond, moradora de Thornton-Cleveleys há mais de duas décadas. Ela contou à imprensa britânica que ela, o marido e o filho apresentaram níveis elevados de PFOA.
A preocupação aumentou especialmente pela possibilidade de exposição acumulada ao longo dos anos e pelo contato da família com alimentos cultivados na própria propriedade.
Os resultados também surpreenderam outros moradores que acreditavam que o problema estaria restrito às pessoas que consumiam produtos cultivados localmente. Entre os participantes havia pessoas que viviam em diferentes distâncias da fábrica, e concentrações elevadas foram encontradas mesmo entre alguns residentes que moravam a mais de dois quilômetros do complexo.
Mais de 100 moradores avaliam ação judicial
Paralelamente à investigação ambiental, mais de 100 moradores avaliam participar de uma possível ação coletiva contra a AGC Chemicals, atual responsável pela instalação.
O escritório Leigh Day vem acompanhando o caso e afirma que possíveis reivindicações poderiam envolver impactos sobre a saúde, perdas relacionadas ao valor dos imóveis e limitações impostas ao uso de jardins e terrenos.
Por enquanto, trata-se de uma avaliação de possíveis medidas judiciais, e não de uma decisão judicial que tenha estabelecido responsabilidade da empresa pela exposição ou por eventuais doenças dos moradores.
A AGC, por sua vez, afirma que está colaborando com a investigação conduzida pelas autoridades. A empresa também mantém uma investigação própria sobre o local, incluindo análises de solo, águas subterrâneas e águas superficiais, em coordenação com a Agência do Meio Ambiente e o Conselho de Wyre.
Fábrica deixará de produzir até o fim de 2026
O futuro da instalação também mudou durante o andamento da investigação.
Em julho, a AGC havia anunciado uma consulta aos funcionários sobre a possibilidade de encerrar as operações em Hillhouse. Em setembro, após o processo de consulta, a empresa confirmou que a produção será encerrada até 31 de dezembro de 2026. O grupo afirmou que a decisão está relacionada às condições financeiras e operacionais da unidade e à situação competitiva do mercado.
A empresa informou ainda que continuará trabalhando com o Conselho de Wyre, a Agência do Meio Ambiente e outras autoridades durante o processo de encerramento, inclusive em questões relacionadas à desmontagem das instalações, às obrigações ambientais e ao monitoramento do local.
O encerramento da produção, porém, não encerra automaticamente a questão ambiental. O PFOA é uma substância persistente, e a investigação sobre sua presença histórica no solo e no ambiente continuará independentemente da fabricação no local.
O que os resultados ainda não respondem
Os novos exames acrescentam uma dimensão humana à investigação que já identificou PFOA no ambiente, mas ainda existem perguntas importantes sem resposta.
Os exames mostram a presença da substância no sangue dos participantes, mas não determinam quando ou exatamente como ocorreu a exposição. PFAS também podem chegar ao organismo por diferentes fontes, incluindo alimentos, água, ar e produtos de uso cotidiano.
Além disso, os 49 participantes foram selecionados considerando fatores como proximidade da fábrica, tempo de residência e consumo de produtos cultivados localmente. Portanto, os resultados não podem ser considerados uma representação automática de toda a população de Thornton-Cleveleys.
As autoridades britânicas continuam conduzindo a investigação ambiental. Ao mesmo tempo, os moradores aguardam respostas sobre a extensão da exposição, os possíveis impactos a longo prazo e a eventual responsabilidade pelas contaminações identificadas.
A situação também ilustra uma dificuldade recorrente no debate sobre PFAS: detectar a substância no ambiente ou no organismo é diferente de estabelecer cientificamente que uma determinada fonte provocou uma doença específica. No caso de Thornton-Cleveleys, essa distinção será fundamental tanto para a avaliação de saúde pública quanto para qualquer eventual disputa judicial.