Riley Lubas sofreu falência de múltiplos órgãos depois de tomar dois medicamentos para um resfriado sem perceber que ambos continham paracetamol; ele passou semanas em terapia intensiva e chegou a ser colocado na lista para um possível transplante de fígado
Uma gripe ou resfriado comum acabou se transformando em uma emergência médica que quase custou a vida de um estudante britânico de 20 anos. Riley Lubas, aluno de Mídia Criativa da Universidade de Bath, tomou dois medicamentos de venda livre para tratar os sintomas sem perceber que ambos continham paracetamol.
A combinação provocou uma overdose acidental da substância e levou a uma grave falência do fígado, seguida pela falência de outros órgãos. Riley precisou de suporte de vida, diálise e tratamento em uma unidade especializada de terapia intensiva em Londres.
Depois de sobreviver ao quadro, o jovem ainda enfrentou outro desafio: após semanas internado, precisou reaprender habilidades básicas, incluindo caminhar e falar.
O caso, ocorrido em março de 2025 e divulgado agora pela BBC, chama atenção para um risco pouco conhecido: diferentes medicamentos para dor, febre e sintomas de resfriado podem conter o mesmo princípio ativo.
Tudo começou com um resfriado
Riley estava no primeiro ano da universidade quando apresentou um resfriado que, inicialmente, parecia algo sem gravidade.
Como muitos estudantes, ele procurou medicamentos para aliviar os sintomas. O problema foi que os produtos escolhidos continham paracetamol em sua composição, algo que ele não percebeu no momento da compra.
“Não percebi na época que os dois tinham paracetamol”, contou Riley à BBC.
O jovem continuou tomando os medicamentos e, depois de alguns dias, começou a apresentar fortes dores abdominais e dificuldade para se alimentar. Como acreditava que os sintomas poderiam estar relacionados ao próprio resfriado, inicialmente não identificou a gravidade da situação.
Quando a dor piorou, ele procurou atendimento médico.
O fígado começou a falhar
Riley foi atendido no Royal United Hospital, em Bath, onde os exames mostraram que seu fígado estava apresentando uma falha grave.
A situação se deteriorou rapidamente. Seus pais, Chris e Kate Lubas, viajaram de Newport para acompanhar o filho e receberam, durante a madrugada, uma ligação da equipe da terapia intensiva informando que precisavam chegar ao hospital imediatamente.
Segundo Chris, os médicos inicialmente chegaram a considerar outras causas para o problema, incluindo hepatite. A família ainda não compreendia como o estado de saúde de Riley havia piorado tão rapidamente.
O quadro evoluiu para falência de múltiplos órgãos. Riley foi sedado, colocado em suporte de vida e submetido a diálise. Seus pulmões e rins também deixaram de funcionar adequadamente, enquanto havia preocupação com o acúmulo de líquido no cérebro.
Diante da gravidade da lesão hepática, ele foi transferido para o King’s College Hospital, em Londres, que possui uma unidade especializada em terapia intensiva para pacientes com doenças graves do fígado.
Médicos precisaram descobrir o que havia acontecido
No hospital londrino, a equipe médica perguntou detalhadamente à família quais medicamentos Riley havia tomado.
Os pais localizaram as embalagens dos produtos utilizados pelo filho e conseguiram identificar que os dois continham paracetamol. A descoberta ajudou os médicos a estabelecer a causa provável da falência hepática.
O jovem chegou a ficar no topo da lista para um possível transplante de fígado, enquanto os médicos avaliavam a gravidade da lesão.
A situação, entretanto, começou a mudar.
Depois de cerca de uma semana, os médicos observaram sinais de recuperação do fígado. Riley conseguiu abandonar a diálise e o suporte de vida, embora ainda precisasse permanecer internado durante um longo período.
Seis semanas em Londres e uma longa recuperação
Riley passou seis semanas no King’s College Hospital, antes de retornar para uma unidade de terapia intensiva em Newport.
A permanência prolongada no hospital e a gravidade de seu estado fizeram com que ele precisasse reconstruir parte de suas capacidades físicas e de comunicação.
O jovem teve de reaprender a caminhar e falar após o período crítico, incluindo uma traqueostomia durante o tratamento.
Para a família, vê-lo novamente de pé representou um momento marcante depois de semanas de incerteza.
“Ver novamente que ele estava de pé e vivo foi incrível”, relatou seu pai.
Riley acabou se recuperando e voltou à vida cotidiana. Atualmente, também trabalha como garçom.
Por que combinar medicamentos pode ser perigoso?
O paracetamol é um dos analgésicos e antitérmicos mais utilizados no Reino Unido e está presente em uma grande variedade de medicamentos.
Além dos comprimidos vendidos especificamente como paracetamol, a substância pode estar presente em produtos destinados ao tratamento de resfriados e gripes e em combinações com outros medicamentos.
Isso cria uma situação perigosa: uma pessoa pode acreditar que está tomando dois produtos diferentes para tratar sintomas distintos, quando, na realidade, está ingerindo o mesmo princípio ativo mais de uma vez.
O NHS alerta expressamente que adultos não devem tomar paracetamol simultaneamente com outros medicamentos que também contenham a substância, incluindo vários produtos para resfriado e gripe.
Para comprimidos comuns de 500 miligramas, a orientação para adultos é de uma ou duas unidades por dose, com pelo menos quatro horas entre as doses e um máximo de oito comprimidos em 24 horas. Pessoas com peso inferior a 50 quilos podem precisar de uma dose menor e devem buscar orientação profissional.
O mais importante, porém, é que o limite diário considera a quantidade total de paracetamol ingerida, independentemente de quantos medicamentos diferentes fornecem essa substância.
Uma overdose pode causar lesões graves
Em doses adequadas, o paracetamol é considerado seguro para a maioria dos adultos. O problema ocorre quando a quantidade ingerida ultrapassa os limites recomendados.
Uma overdose pode produzir subprodutos tóxicos que o organismo não consegue processar adequadamente, provocando danos graves ao fígado. Em casos severos, a lesão pode evoluir para insuficiência hepática, necessidade de transplante e até morte. Os rins também podem ser afetados.
Um dos aspectos preocupantes é que os sintomas iniciais podem ser relativamente inespecíficos. Náuseas, vômitos e dor abdominal podem aparecer e ser confundidos com os próprios sintomas de uma infecção ou de uma indisposição.
Por isso, uma possível ingestão acima da quantidade indicada não deve ser ignorada simplesmente porque a pessoa ainda se sente bem.
O NHS orienta procurar ajuda médica pelo serviço 111 caso alguém tenha tomado mais paracetamol do que o indicado na embalagem ou na bula. Em situações de emergência, o paciente deve procurar atendimento hospitalar.
O alerta dos médicos
O caso de Riley levou profissionais de saúde do País de Gales a reforçarem a importância de verificar cuidadosamente a composição dos medicamentos.
O clínico geral Will Mackintosh, presidente do Royal College of General Practitioners Cymru Wales, afirmou que overdoses acidentais de paracetamol entre jovens são relativamente raras, mas podem acontecer quando uma pessoa utiliza inadvertidamente dois produtos que contêm a mesma substância.
Ele recomendou que os consumidores leiam atentamente os rótulos e procurem orientação de farmacêuticos ou médicos quando tiverem dúvidas sobre a combinação de medicamentos.
Mackintosh também chamou atenção para um comportamento comum durante doenças leves: tentar continuar trabalhando ou estudando normalmente recorrendo a diferentes medicamentos para aliviar os sintomas.
Segundo o médico, o descanso também é importante durante infecções virais e não deve ser substituído pela tentativa de eliminar rapidamente todos os sintomas com medicamentos.
Um problema que pode passar despercebido
Dados do Escritório Nacional de Estatísticas mostram que 27 mortes registradas no País de Gales em 2024 mencionaram paracetamol no atestado de óbito. Esse número, no entanto, não significa que todas essas mortes tenham sido causadas por uma overdose acidental da substância: a simples menção ao paracetamol no documento não estabelece, por si só, a causa da morte.
O caso de Riley é diferente porque os médicos conseguiram reconstruir a exposição aos medicamentos e relacioná-la ao quadro de falência hepática.
Sua história também mostra por que os nomes comerciais dos medicamentos não são suficientes para determinar se dois produtos podem ser utilizados juntos. É necessário verificar os princípios ativos e as respectivas quantidades.
A principal lição de Riley
O estudante começou tratando um problema aparentemente banal e terminou lutando pela própria vida em uma unidade especializada de terapia intensiva.
O que aconteceu não foi resultado de uma tentativa deliberada de ultrapassar a dose recomendada. O problema surgiu porque dois medicamentos diferentes continham a mesma substância e Riley não sabia disso.
Hoje, recuperado, ele e sua família transformaram a experiência em um alerta sobre segurança no uso de medicamentos.
A recomendação das autoridades de saúde é simples: antes de combinar produtos para dor, febre, resfriado ou gripe, é importante verificar a composição de cada um. Se ambos contiverem paracetamol, eles não devem ser utilizados juntos sem orientação profissional.
No caso de Riley, descobrir o problema a tempo fez a diferença entre uma recuperação longa e uma possível tragédia. Sua experiência reforça que “medicamento diferente” não significa necessariamente “princípio ativo diferente” — e essa é uma informação que pode evitar uma overdose acidental.