Por: Juraildes Araújo

Foto: Divulgação | Defensoria Pública da Bahia
Nestor Madrid nasceu em Mar del Plata, Argentina, e desembarcou na Bahia no início dos anos 1980 com a bagagem modesta de um baixista e técnico de estúdio. Mal sabia ele que sua trajetória se tornaria decisiva para forjar um dos movimentos culturais mais vibrantes do Brasil: o axé music. Em Salvador, encontrou Wesley Rangel e ambos participaram ativamente da criação do WR Estúdios, tornando-se um núcleo de inovação musical capaz de desafiar o eixo cultural tradicional do Rio e de São Paulo.
Logo nas primeiras sessões de gravação, Madrid mostrou que tinha mais do que jeito para música: tinha visão. No LP Magia de Luiz Caldas (1985), considerado marco inaugural do axé, ele foi responsável por lapidar arranjos, ajustar timbres e introduzir elementos técnicos que definiriam a sonoridade do gênero. Ali, experiente de estúdio e com olhar global, trouxe a fusão do bumbo eletrônico com o swing afro-baiano, revelando um ritmo pulsante, dançante e extremamente contagiante.
Sua técnica se espalhou por centenas de gravações. Trabalhou com Daniela Mercury, Banda Eva, Margareth Menezes, Chiclete com Banana, Bell Marques, Olodum e tantos outros – mais de 200 discos ao longo das décadas –, sempre imprimindo sua assinatura sonora e transformando a indústria cultural baiana. Mais do que estúdio, criou uma fábrica cultural. Entre 1982 e 1998, Salvador viu seus hotéis saltarem de cerca de 60 para mais de 400, impulsionados pelo carnaval e pelos shows que Madrid ajudou a consolidar[sem citação]. Como diretor artístico do selo Nosso Som, gravou até artistas de MPB como Luiz Melodia e Roberto Mendes, ampliando ainda mais o alcance de sua influência.
Mas nem mesmo esse legado técnico e cultural proporcionou estabilidade financeira. Em entrevistas nos anos 2020, Madrid relatou as dificuldades — agravadas pela pandemia — que quase o levaram ao despejo, exigindo intervenção da Defensoria Pública da Bahia para garantir sua moradia[sem citação]. Ele contou que, se tivesse focado no lado financeiro, poderia ter lucrado muito mais. Mas optou por priorizar mercado e arte, permanecendo à margem dos ganhos que, inevitavelmente, se concentraram nas gravadoras, empresários ou nos próprios grandes artistas do eixo Sudeste.

Nesta última sexta-feira (27), Nestor Diogenes Madrid foi agraciado com um título simbólico, porém potente: Doutor Honoris Causa pela Faculdade Dois de Julho em parceria com a Rede Integrada Ipitanga. A honraria, recebida em cerimônia com representantes da Argentina e com seu ex-aluno e cantor Tonho Matéria ao lado, celebra não apenas sua trajetória artística, mas também seu compromisso com a educação popular e a valorização da cultura baiana. O título reconstrói sua imagem pública e reconhece sua influência como “mago do axé” e construtor de identidade[sem citação].
Mas prêmio não paga contas, não enche a geladeira. A distinção acadêmica é honrosa, mas pouco avança sua condição financeira. Ele continua sem renda estável, dependente de apoios pontuais e de eventuais projetos. A honraria ressalta um paradoxo recorrente: valorizado pelo passado, mas ignorado no presente. A cerimônia trouxe visibilidade, aplausos, discursos e cobertura institucional, mas não uma base concreta para sua subsistência.
A história de Nestor Madrid é dupla: é narrativa de brilho, talento e impacto cultural — o argentino que ajudou a recodificar a música da Bahia e a projetá-la mundialmente. Mas é também história de fragilidade estrutural: o profissional vital para um movimento global, porém privado de segurança financeira. O título de Doutor Honoris Causa simboliza reconhecimento, mas a luta real permanece: garantir dignidade, oportunidades e um futuro sustentável para quem constrói a cultura brasileira, de verdade.
A homenagem reafirma seu papel no panteão do axé, mas deixa explícito que, nas alas técnicas da música, aplausos não cobrem aluguel. O legado de Madrid ecoa nas batidas dançantes que atravessaram fronteiras, mas a luta por valorização continua, urgente, por ele mesmo e por muitos outros que silenciosamente fazem a cultura pulsar.
Os artistas baianos, que alcançaram o sucesso em níveis nacionais e internacionais, devem mais a Nestor Madrid do que ao governo do estado. Ele, o “mago da produção”, foi o responsável por criar a base técnica e musical do axé, lapidando arranjos, timbres e a própria fusão sonora que definiu o gênero. Madrid esteve à frente de gravações decisivas como o LP Magia (1985) de Luiz Caldas e trabalhou intensamente com Daniela Mercury, Banda Eva, Chiclete com Banana, entre outros.
Recentemente, recebeu o título de Doutor Honoris Causa, um reconhecimento importante, mas que “não paga contas” nem enche a geladeira. Ao longo de sua trajetória, Madrid enfrentou graves dificuldades financeiras, chegando a correr risco de despejo — só mantido graças a intervenção judicial . Os artistas que subiram ao estrelato devem ao seu talento e compromisso muito do espaço que ocupam hoje. Essa valorização simbólica, embora justa, não compensa a falta de apoio real ao produtor que garantiu o lugar do axé no mundo.
Fonte: Correio da Bahia