
Fotografia de Simão Costa / @simaocsta
António Zambujo é indubitável um dos artistas mais expressivos da música contemporânea de Portugal, reconhecido não só no seu país, mas também no Brasil e em muitas outras partes do mundo. Nascido em Beja a 19 de setembro de 1975, desde criança esteve imerso no cante alentejano e cedo se apaixonou pelo fado, inspirando-se em vozes como Amália Rodrigues e Alfredo Marceneiro. Aos oito anos iniciou os estudos de clarinete, o que lhe deu uma sólida formação musical que se fundiria, ao longo do tempo, com a sua paixão pela interpretação vocal.
O seu álbum de estreia, O Mesmo Fado (2002), lançou-o no panorama da música portuguesa com um estilo que ultrapassava os géneros tradicionais. Em 2007, Outro Sentido consolidou esse percurso ao fundir fado, música alentejana e influências brasileiras, tornando-se um sucesso nacional e internacional Foi nessa fase que Caetano Veloso o elogiou, dizendo que ouvir Zambujo o fazia querer ouvir “de novo e de novo” e comparando-o a João Gilberto, associando-o ao espírito da bossa nova — daí muitos o apelidarem de “o João Gilberto português” .
O álbum Guia, lançado em setembro de 2010 pela editora World Village / Harmonia Mundi, é o quarto da sua carreira. Com uma sonoridade sofisticada, minimalista e apurada, o disco parte sempre do fado mas atravessa outras paisagens musicais com grande sensibilidade. É composto por 14 faixas, das quais 11 são originais, e António Zambujo assinou três dessas composições.

Créditos: Mariana C. Silva
O alinhamento de Guia inclui temas como “Guia”, “Apelo”, “Reader’s Digest”, “Barroco Tropical”, “Poema dos Olhos da Amada” e “Em Quatro Luas”. Há colaborações e composições de autores portugueses e brasileiros, como Vinicius de Moraes, Márcio Faraco, Rodrigo Maranhão, João Gil, João Monge, Ricardo Cruz, Aldina Duarte e Maria do Rosário Pedreira, mostrando o cruzamento de géneros e culturas presente no disco. Guia representa uma etapa madura na sua discografia: sem renunciar às raízes do fado, apresenta uma estética sonora minimalista, com arranjos contidos, que privilegia a voz envolvente de Zambujo e uma interpretação carregada de emoção e subtileza .
A forma como Zambujo interpreta temas clássicos brasileiros — de João Gilberto, Vinicius e Tom Jobim — tem conquistado públicos no Brasil. Álbuns posteriores como Até Pensei que Fosse Minha (2016), homenagem a Chico Buarque, valeram-lhe nomeações ao Grammy Latino . Com grande extensão vocal, timbre caloroso e interpretação emocional, levou a música portuguesa a grandes palcos nas capitais brasileiras e em cidades de diversos países.
Ouvir Zambujo cantar desde pérolas da música portuguesa até “Quando Tu Passas por Mim” de Vinicius (nos versos do eterno “Poetinha”) ou “Rancho Fundo” de Ary Barroso, é como escutar uma orquestra de estrelas cadentes em câmara lenta. A fusão do espírito luso com a suavidade da bossa nova cria uma paisagem sonora elegante, serena e profundamente emotiva. Com uma voz potente e sensível, António Zambujo tem mostrado que “nem só de fado vive Portugal” — ele abriu ao mundo a dimensão universal da música portuguesa. Quando o seu timbre se eleva com emoção, parece que o mundo inteiro para para o escutar. Portugal viu a sua alma lavada pela sua música, enquanto o Brasil e muitos países se deixaram envolver pela sua arte transformadora.
Portugal continua a seguir os seus passos com álbuns como Do Avesso (2018), Voz e Violão (2021) e Cidade (2023). António Zambujo é, sem dúvida, um embaixador moderno da música portuguesa, com uma voz que transcende fronteiras e tempos.
O Union Chapel, com seus cerca de 900 lugares, esgotou completamente para receber António Zambujo e Miguel Araújo em seu debute conjunto no Reino Unido, no dia 12 de julho de 2025. O espetáculo foi verdadeiramente emocionante, reunindo duas das grandes vozes da música portuguesa num ambiente íntimo e acolhedor. Zambujo, DNA do cante alentejano e fado, e Araújo, mestre da composição e da canção, surpreenderam o público com arranjos minimalistas de voz e guitarra. Resultado: emoção em dose dupla, repertório surpreendente e uma noite que provou, mais uma vez, a força e o alcance da música portuguesa .