Robert Sabat, de 59 anos, havia recebido uma pena de 12 meses e foi libertado sob o regime de liberação antecipada; meses depois, matou Dickiesa Nurse, de 42 anos, em Tulse Hill
O caso de um homem condenado anteriormente por porte de faca e assédio voltou a provocar questionamentos sobre o sistema de liberação antecipada de presos na Inglaterra e sobre a supervisão de pessoas colocadas em liberdade na comunidade.
Robert Sabat, de 59 anos, será sentenciado nesta quarta-feira, 7 de outubro, pelo assassinato de Dickiesa Nurse, de 42 anos, encontrada morta em seu apartamento em Tulse Hill, no sul de Londres, em outubro de 2025.
Sabat havia sido condenado meses antes por posse de uma faca e assédio sem violência. Ele recebeu uma pena de 12 meses de prisão, mas foi libertado antes de cumprir metade desse período. Onze dias depois de deixar a prisão, segundo as informações apresentadas no caso, matou Nurse.
O homem se declarou culpado pelo assassinato em uma audiência realizada em 17 de setembro e agora aguarda a definição da pena pelo Tribunal Criminal Central de Londres.
Condenação anterior envolvia faca e assédio
Sabat havia sido condenado em maio de 2025, no Tribunal da Coroa de Kingston upon Thames, por posse de uma faca e assédio sem violência.
Em 16 de outubro, recebeu uma sentença de 12 meses de prisão, descontando-se o período que já havia permanecido detido enquanto aguardava o julgamento.
Sabat acabou sendo libertado em 16 de outubro de 2025, de acordo com as informações divulgadas sobre o caso. Onze dias depois, em 27 de outubro, Dickiesa Nurse foi encontrada morta em sua residência em Tulse Hill.
A relação entre a liberação e o novo crime tornou-se um dos principais pontos de questionamento do caso.
É importante, porém, distinguir a natureza do mecanismo utilizado. O SDS40, regime de sentença determinada com liberação após 40% da pena, entrou em vigor em setembro de 2024 e permite que determinados presos com penas de duração determinada sejam libertados sob licença antes do momento que anteriormente corresponderia à liberação condicional.
O governo afirma que os presos libertados nessas condições permanecem sujeitos à supervisão do Serviço de Liberdade Condicional e podem receber medidas como monitoramento eletrônico, toque de recolher e outras condições.
Assassinato de Dickiesa Nurse
Dickiesa Nurse, conhecida por familiares e amigos como Kiesha, tinha 42 anos e era mãe de dois filhos.
A Polícia Metropolitana foi chamada ao apartamento em McCormick House, em Tulse Hill, na tarde de 27 de outubro de 2025. A ocorrência inicialmente foi registrada após um chamado relacionado a uma perturbação no imóvel.
Quando os agentes chegaram, Nurse foi encontrada com vários ferimentos provocados por uma faca. Sabat foi preso no local depois que policiais utilizaram uma arma de eletrochoque durante a intervenção.
O caso também envolveu acusações relacionadas a ameaças contra dois paramédicos que haviam chegado ao endereço para prestar atendimento.
Sabat posteriormente admitiu o assassinato em tribunal. A sentença será anunciada no Tribunal Criminal Central de Londres.
Família descreve Nurse como uma mulher alegre e amorosa
Após a morte de Dickiesa, familiares organizaram uma campanha para arrecadar recursos destinados às despesas do funeral e prestaram uma homenagem à vítima.
A família descreveu Kiesha como uma pessoa gentil e alegre, cuja presença trazia alegria, carinho e união aos familiares e amigos.
Ela deixou dois filhos pequenos.
A família também destacou o impacto da morte sobre a mãe de Dickiesa, afirmando que nenhuma mãe deveria ter de enfrentar a perda de um filho.
A homenagem ressaltou ainda que a ausência de Kiesha deixou um vazio permanente na vida dos familiares.
Caso provoca questionamentos sobre a liberação antecipada
A morte de Nurse trouxe novamente para o centro do debate o funcionamento do sistema de liberação antecipada e a capacidade do Serviço de Liberdade Condicional de acompanhar pessoas consideradas de risco depois que deixam a prisão.
O governo britânico adotou o SDS40 em meio à crise de superlotação do sistema penitenciário. O mecanismo passou a permitir a liberação sob licença de determinados presos depois que cumprissem 40% de suas penas, em vez do ponto anterior de 50%.
Segundo o Ministério da Justiça, a mudança deveria ser acompanhada por uma supervisão mais estruturada na comunidade, com condições específicas impostas aos presos quando necessário.
O próprio governo reconheceu, quando o sistema foi implementado, que a medida aumentaria a demanda sobre o Serviço de Liberdade Condicional e sobre os serviços de monitoramento eletrônico.
Dados oficiais também mostram que o número de pessoas submetidas a medidas de retorno à prisão depois de violações das condições de liberdade permaneceu elevado. Entre julho e setembro de 2025, foram registrados 12.836 retornos à prisão por descumprimento das condições, número 29% superior ao mesmo período do ano anterior. O governo relacionou parte desse aumento às mudanças introduzidas com o SDS40 e outras alterações no sistema de liberdade condicional.
Comissária das Vítimas critica proteção oferecida pelo sistema
A Comissária das Vítimas da Inglaterra e do País de Gales, Claire Waxman, questionou a distância entre as garantias apresentadas pelo governo e a realidade enfrentada pelos serviços responsáveis pela supervisão dos presos libertados.
Waxman afirmou que medidas como monitoramento eletrônico, restrições de circulação e condições específicas de liberdade só podem proteger efetivamente as vítimas quando são aplicadas, acompanhadas e fiscalizadas de maneira adequada.
Segundo ela, a falta de recursos e as dificuldades enfrentadas pelo Serviço de Liberdade Condicional podem comprometer a eficácia dessas medidas.
A declaração foi feita no contexto mais amplo dos problemas provocados pela pressão sobre o sistema penitenciário e pela necessidade de administrar um número crescente de pessoas em liberdade sob supervisão.
Governo afirma que investigação está em andamento
O Ministério da Justiça informou que o Serviço de Liberdade Condicional abriu uma investigação para determinar exatamente o que aconteceu no caso de Sabat e como ele foi administrado antes e depois de sua libertação.
Em declaração sobre o caso, o governo afirmou que seus pensamentos estão com os familiares e amigos de Dickiesa Nurse e classificou o assassinato como um crime terrível.
O ministério também afirmou que pretende garantir vagas suficientes nas prisões para manter presos perigosos sob custódia e destacou os investimentos previstos para ampliar a capacidade penitenciária.
O governo acrescentou que o monitoramento eletrônico de pessoas em liberdade atingiu níveis recordes, como parte das medidas destinadas a acompanhar e administrar condenados na comunidade.
O que acontece agora
Sabat se declarou culpado pelo assassinato em 17 de setembro. A sentença está marcada para 7 de outubro, quando o tribunal deverá determinar a pena pelo homicídio de Dickiesa Nurse.
Enquanto isso, a investigação administrativa sobre sua passagem pelo sistema penitenciário e pelo Serviço de Liberdade Condicional deverá procurar esclarecer se os procedimentos previstos foram cumpridos antes e depois de sua libertação.
O caso coloca novamente em discussão um dos maiores desafios enfrentados pelo sistema de Justiça da Inglaterra e do País de Gales: como reduzir a superlotação das prisões e, ao mesmo tempo, garantir que pessoas libertadas antecipadamente sejam supervisionadas de maneira adequada e que eventuais riscos para a população sejam identificados e administrados.
Para a família de Dickiesa Nurse, porém, o centro da história permanece sendo a perda de uma mãe de dois filhos. A sentença de Sabat deverá representar a próxima etapa judicial de um caso que também desencadeou uma análise sobre o funcionamento do sistema que permitiu que ele estivesse em liberdade no momento do assassinato.