Kiran Kaur foi condenada a três anos de prisão por retirar a arma usada pelo filho para matar Henry Nowak, de 18 anos. A possível saída antecipada, prevista para dezembro, provoca críticas de uma autoridade policial; a mulher também pode ser deportada para a Índia.
A possível libertação antecipada de Kiran Kaur, condenada por ajudar o filho após o assassinato do estudante Henry Nowak, provocou críticas no Reino Unido. A mulher, sentenciada a três anos de prisão por retirar do local do crime a faca usada na morte do jovem, poderá deixar a prisão em dezembro de 2026, próximo ao primeiro aniversário do homicídio, ocorrido em 3 de dezembro de 2025, em Southampton, na Inglaterra. A informação foi divulgada por veículos britânicos nesta semana.
Donna Jones, comissária de Polícia e Criminalidade de Hampshire e da Ilha de Wight, classificou a possibilidade de saída antecipada como preocupante. Em entrevista ao programa Today, da BBC, ela afirmou que não considera correta a libertação antes do cumprimento integral da pena e disse que o caso levanta questões importantes sobre a consistência do sistema de Justiça criminal britânico.
Jones anunciou que escreverá ao secretário de Justiça, Alex Norris, para pedir esclarecimentos sobre a situação. Segundo ela, a decisão poderá representar um golpe significativo para a família de Nowak, que ainda enfrenta as consequências da morte do jovem.
A comissária também questionou a justificativa de que a liberação antecipada seria necessária para aliviar a superlotação das prisões. Em sua avaliação, a pressão sobre o sistema penitenciário afeta principalmente a população carcerária masculina adulta, e não necessariamente o segmento ao qual Kaur pertence.
Como ocorreu o assassinato de Henry Nowak
Henry Nowak tinha 18 anos e estudava finanças na Universidade de Southampton. Ele foi morto a facadas em 3 de dezembro de 2025, enquanto voltava para casa depois de uma saída com integrantes de sua equipe de futebol.
Vickrum Digwa, então com 23 anos, foi condenado pelo assassinato e recebeu prisão perpétua em 1º de junho de 2026. A pena estabelece um período mínimo de 21 anos antes que sua libertação possa ser considerada. Durante o episódio, Digwa alegou falsamente que Nowak havia cometido uma agressão racista contra ele, versão rejeitada pelo júri.
O caso ganhou repercussão também pela atuação dos policiais que chegaram ao local. Nowak foi algemado enquanto agonizava, depois de Digwa afirmar que havia sido vítima de uma agressão. A condução inicial da ocorrência provocou críticas e levou à abertura de uma investigação independente sobre a atuação policial.
A mãe de Digwa, Kiran Kaur, foi condenada por ajudar o filho depois do crime. Na noite do assassinato, ela retirou a faca do local e a levou para a residência da família, em uma tentativa de dificultar a investigação.
O objeto foi colocado no quarto do filho, junto a outras armas cerimoniais e lâminas. A polícia conseguiu identificar a arma do crime após analisar imagens de câmeras de segurança, e o objeto foi recuperado aproximadamente uma semana depois do homicídio.
Em 17 de julho de 2026, Kaur recebeu uma pena de três anos de prisão pelo crime de auxílio a um autor de delito. Ao proferir a sentença, o juiz William Mousley KC afirmou que ela havia contribuído para ocultar provas e ajudar o filho a evitar ser responsabilizado. O magistrado reconheceu que a mulher agiu para proteger o filho, e não por ganho pessoal, mas considerou necessária a punição diante da gravidade da conduta.
Regras de libertação antecipada e superlotação prisional
A possível saída de Kaur está relacionada às regras de cumprimento de penas no sistema penitenciário da Inglaterra e do País de Gales. A legislação britânica passou por mudanças em 2026, incluindo um novo modelo de progressão para determinadas penas com prazo definido. Em regra, o modelo prevê que parte dos condenados elegíveis cumpra ao menos um terço da pena em prisão, embora existam exceções para crimes específicos e outras condições legais. A aplicação depende das características da condenação e das regras pertinentes a cada caso.
Kaur está presa desde o período posterior ao assassinato e, segundo reportagens, já passou mais de sete meses sob custódia quando foi condenada em julho. O tempo cumprido antes da sentença pode ser considerado no cálculo do período de encarceramento. A previsão de libertação em dezembro, no entanto, deve ser entendida como uma possibilidade reportada pela imprensa, e não como confirmação de que a mulher já tenha sido efetivamente solta.
Donna Jones argumenta que a situação merece atenção justamente porque, segundo sua avaliação, Kaur não representa o tipo de caso que justificaria uma medida voltada a reduzir a pressão sobre as prisões. A comissária afirmou que a possibilidade de libertação causa preocupação pelo impacto sobre os familiares da vítima e pela percepção pública de justiça.
A discussão ocorre em meio à pressão sobre a capacidade do sistema penitenciário britânico. O governo vem adotando mudanças na gestão das penas e nas condições de saída de determinados presos para lidar com a falta de vagas. As regras, contudo, variam conforme o tipo de condenação, a data da sentença e a situação jurídica do detento.
Kaur também pode ser deportada para a Índia
Além da possível libertação antecipada, Kiran Kaur poderá enfrentar um processo de deportação. A mulher é cidadã indiana, e o Ministério do Interior britânico sinalizou que o caso pode ser analisado à luz das regras aplicáveis a estrangeiros condenados por crimes no país.
Questionada sobre a possibilidade de deportação, Donna Jones afirmou apoiar a medida. Para ela, pessoas estrangeiras condenadas por crimes graves devem estar sujeitas a critérios consistentes, sem tratamento diferenciado em razão de sua identidade ou de seus vínculos familiares.
O Ministério do Interior não comentou especificamente o caso, mas declarou que seus pensamentos permanecem com os familiares e amigos de Henry Nowak, cuja vida foi interrompida por um ato de violência. A pasta não confirmou publicamente uma data definitiva para eventual deportação de Kaur.
A situação jurídica da mulher ainda pode sofrer alterações. Kaur está recorrendo da sentença de três anos de prisão, e uma audiência no Tribunal de Apelação está prevista para 5 de novembro de 2026. O resultado poderá influenciar os próximos desdobramentos do caso.
Por enquanto, a possível libertação em dezembro e a eventual deportação permanecem questões distintas: a primeira diz respeito ao cumprimento da pena, enquanto a segunda depende dos procedimentos migratórios aplicáveis. Para a família de Henry Nowak, a perspectiva de que Kaur deixe a prisão antes do primeiro aniversário da morte do estudante reacendeu o debate sobre a punição e as consequências do crime.