Dados oficiais mostram diferenças entre grupos demográficos e destacam a importância da testagem; entre os recém-diagnosticados que chegaram ao país em 2023, 77% nasceram na África

A Inglaterra registrou 2.773 novos diagnósticos de HIV em 2024, uma redução de 2% em relação aos 2.838 casos contabilizados no ano anterior. Apesar da queda, os dados revelam diferenças importantes entre grupos populacionais e reforçam a necessidade de ampliar o acesso à prevenção, à testagem e ao tratamento.

Segundo o relatório anual da Agência de Segurança Sanitária do Reino Unido (UKHSA), 60% das pessoas diagnosticadas em 2024 haviam nascido fora do Reino Unido. Entre esse grupo, a África aparece com destaque: dos pacientes nascidos no exterior que receberam o diagnóstico em 2024 e chegaram à Inglaterra em 2023, 77% eram originários do continente africano.

Os números fazem parte do monitoramento epidemiológico do HIV no país e ajudam a identificar quais populações precisam de maior acesso aos serviços de saúde. Entretanto, a origem dos pacientes deve ser interpretada com cautela: o local de nascimento não determina onde ocorreu a infecção, e os dados de novos diagnósticos não devem ser confundidos com o número de transmissões recentes dentro da Inglaterra.

Diagnósticos apresentam diferenças entre grupos

O relatório da UKHSA aponta tendências distintas conforme o grupo demográfico e a provável via de exposição ao vírus.

Entre homens heterossexuais negros africanos, os novos diagnósticos passaram de 109, em 2020, para 265, em 2024, um aumento de aproximadamente 143%. Entre mulheres heterossexuais negras africanas, o total subiu de 181 para 418 no mesmo período, uma elevação de cerca de 131%.

A evolução mais recente, porém, não foi igual para homens e mulheres. Na comparação entre 2023 e 2024, os diagnósticos aumentaram 15% entre os homens negros africanos heterossexuais, de 231 para 265. Entre as mulheres do mesmo grupo, houve uma redução de 5%, de 441 para 418.

Outros grupos apresentaram tendências diferentes. Entre homens gays e bissexuais, por exemplo, os novos diagnósticos caíram de 859, em 2023, para 810, em 2024. A redução foi de 6% entre homens brancos, de 488 para 461, e de 2% entre homens de minorias étnicas, de 290 para 285.

Essas diferenças mostram que a evolução da epidemia não é uniforme. Por isso, as autoridades de saúde defendem estratégias de prevenção e testagem adaptadas às necessidades de diferentes comunidades, sem perder de vista as barreiras sociais e econômicas que podem dificultar o acesso aos serviços.

Pessoas nascidas no exterior e o contexto dos diagnósticos

A proporção de pessoas nascidas fora do Reino Unido entre os novos diagnósticos é um dos principais pontos do levantamento. Em 2024, foram 1.669 pessoas nessa situação, equivalentes a 60% do total. Outras 772 haviam nascido no Reino Unido, enquanto o país de nascimento não estava disponível para 332 pessoas, ou 12% dos registros.

Esses números, isoladamente, não permitem concluir que o HIV esteja sendo transmitido com maior frequência por migrantes ou que as infecções tenham ocorrido após a chegada à Inglaterra.

A própria metodologia da vigilância britânica distingue pessoas que receberam um diagnóstico pela primeira vez daqueles que já conheciam sua condição em outro país e passaram a receber atendimento no sistema de saúde inglês. Essa separação é importante para evitar que a entrada de pacientes já diagnosticados nos serviços britânicos seja interpretada como uma nova infecção.

A UKHSA também ressalta que a quantidade de diagnósticos registrada depende de fatores como a disponibilidade de testes, a procura por serviços de saúde e a identificação de pessoas que desconheciam sua condição. Assim, uma mudança nos números pode refletir tanto alterações na transmissão quanto melhorias na detecção dos casos.

No caso dos pacientes nascidos no exterior que receberam um novo diagnóstico na Inglaterra em 2024 e chegaram ao país em 2023, 333 dos 434 casos — 77% — correspondiam a pessoas nascidas na África. Entre aqueles que chegaram em 2024, a proporção foi de 62%, ou 213 de 346 pessoas.

Os dados reforçam a importância de oferecer informações acessíveis, serviços de testagem e acompanhamento médico a pessoas de diferentes origens, sem associar a infecção a uma nacionalidade ou comunidade específica.

Testes em serviços de emergência ajudam a identificar casos

A ampliação da testagem é uma das principais estratégias do sistema de saúde inglês para identificar infecções precocemente e facilitar o início do tratamento.

Desde abril de 2022, hospitais de áreas com prevalência elevada de HIV passaram a oferecer testes para vírus transmitidos pelo sangue, incluindo o HIV, a hepatite B e a hepatite C, a adultos que realizam exames de sangue nos serviços de emergência. O paciente pode recusar o teste, mas a oferta faz parte da rotina desses locais.

Em 2024, o programa de testagem com possibilidade de recusa nos serviços de emergência contribuiu para 8% dos novos diagnósticos de HIV na Inglaterra. Entre abril de 2022 e dezembro de 2024, o programa identificou 605 pessoas com novos diagnósticos de HIV nos serviços participantes. Também ajudou a reconectar pacientes já diagnosticados que não estavam recebendo acompanhamento médico.

A iniciativa permite alcançar pessoas que talvez não procurem espontaneamente um serviço de saúde sexual ou que desconheçam a necessidade de realizar o exame. A identificação precoce também reduz o risco de complicações e facilita o encaminhamento para tratamento.

Tratamento e prevenção são essenciais para reduzir transmissões

O diagnóstico de HIV não significa que uma pessoa desenvolverá necessariamente a síndrome da imunodeficiência adquirida (Aids). Com acompanhamento médico e tratamento antirretroviral, é possível controlar o vírus e preservar a saúde por muitos anos.

Quando o tratamento consegue manter a carga viral em níveis indetectáveis, o HIV não é transmitido por via sexual. Esse princípio, conhecido como “indetectável = intransmissível”, é um dos fundamentos das campanhas contemporâneas de prevenção e combate ao estigma.

A prevenção também inclui a profilaxia pré-exposição (PrEP), medicamento utilizado por pessoas HIV negativas para reduzir o risco de adquirir o vírus, além da testagem regular, do acesso a preservativos e da profilaxia pós-exposição (PEP) em situações de possível contato com o HIV.

Em dezembro de 2025, o governo britânico apresentou seu plano de ação para o HIV de 2025 a 2030, com a meta de eliminar novas transmissões no país até o fim da década. A estratégia prevê ampliar a prevenção e a testagem, facilitar o acesso ao tratamento e enfrentar o estigma que ainda impede algumas pessoas de procurar os serviços de saúde.

Os dados de 2024 mostram que a Inglaterra registrou uma pequena redução no total de novos diagnósticos, mas também apontam desigualdades persistentes entre grupos. Para as autoridades sanitárias, manter a expansão da testagem e garantir que todas as pessoas tenham acesso à prevenção e ao tratamento será fundamental para avançar em direção à meta de 2030.

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