Campanha de preparação inclui água potável, alimentos não perecíveis, lanternas e baterias; autoridades consideram riscos como eventos climáticos extremos, apagões, ataques cibernéticos e ameaças externas
O governo do Reino Unido está incentivando a população a se preparar para possíveis emergências, incluindo tempestades, inundações, interrupções no fornecimento de energia e água, ataques cibernéticos e ameaças à segurança nacional. A orientação é que as famílias mantenham em casa alguns suprimentos essenciais para enfrentar períodos de interrupção dos serviços e reduzir a dependência imediata da ajuda externa.
A iniciativa faz parte da estratégia britânica de resiliência nacional, que prevê uma campanha de informação pública para explicar como cidadãos e comunidades podem se preparar para situações de crise. O governo anunciou em 2 de outubro que a campanha nacional seria lançada ainda neste outono europeu, enquanto o portal oficial Prepare já reúne orientações práticas para a população.
A proposta não é que os moradores acumulem grandes quantidades de produtos ou entrem em pânico, mas que adotem medidas simples antes que uma emergência aconteça. Em determinadas situações, como uma interrupção prolongada de energia ou água, o comércio pode fechar temporariamente e o acesso a serviços essenciais pode ficar limitado.
O que o governo recomenda guardar em casa?
A orientação oficial é montar gradualmente um kit de emergência com itens adequados às necessidades de cada residência. Entre as recomendações estão água potável, alimentos não perecíveis que possam ser consumidos sem cozimento, equipamentos de iluminação, baterias, materiais de primeiros socorros e produtos de higiene.
A lista sugerida pelo portal oficial inclui:
- Água potável: o governo cita a recomendação da Organização Mundial da Saúde de 2,5 a 3 litros por pessoa por dia como quantidade mínima para beber. Cerca de 10 litros diários por pessoa oferecem mais conforto, pois também permitem atender a necessidades básicas de preparo de alimentos e higiene.
- Alimentos prontos para consumo: carnes enlatadas, frutas e vegetais em conserva e outros produtos que não precisem ser cozidos. É importante ter um abridor de latas manual.
- Lanterna: modelos a pilha ou de funcionamento manual são recomendados, pois podem ser mais seguros do que velas durante uma queda de energia.
- Carregador portátil: uma bateria externa ajuda a manter o celular funcionando quando não há eletricidade.
- Rádio a pilha ou de funcionamento manual: pode permitir o acesso a informações e comunicados oficiais durante apagões ou falhas nas redes de comunicação.
- Pilhas extras: para lanternas, rádios e equipamentos que dependam de baterias.
- Kit de primeiros socorros: com curativos, bandagens, antissépticos e outros materiais básicos.
- Produtos de higiene: álcool em gel e lenços umedecidos podem ser úteis quando o abastecimento de água é interrompido.
- Medicamentos e equipamentos essenciais: especialmente aqueles utilizados regularmente ou necessários para tratar condições médicas.
- Itens para bebês e animais de estimação: como fraldas, fórmula infantil pronta para consumo e alimentos para animais.
A quantidade de suprimentos deve levar em conta o tamanho da família, as necessidades de crianças e pessoas com deficiência, os medicamentos utilizados e a presença de animais domésticos. O governo recomenda que as reservas sejam montadas aos poucos, sem a necessidade de comprar tudo de uma só vez.
Alimentos como arroz, macarrão e aveia também podem fazer parte da despensa habitual, mas exigem atenção especial: muitos precisam de água e energia para serem preparados. Por isso, em uma emergência que envolva a interrupção desses serviços, produtos prontos para consumo são particularmente importantes.
Por que o governo está reforçando a preparação para crises?
A campanha faz parte de uma estratégia mais ampla para melhorar a capacidade do Reino Unido de enfrentar riscos naturais, tecnológicos e geopolíticos.
Em julho de 2026, o governo publicou uma nova edição do Registro Nacional de Riscos, documento que reúne as principais ameaças identificadas pelas autoridades e avalia seus possíveis impactos. A lista inclui riscos climáticos, falhas em serviços essenciais, ataques cibernéticos e interferência nos processos democráticos.
Entre as preocupações estão possíveis interrupções no fornecimento de eletricidade e água, problemas nas redes de comunicação e dificuldades nas cadeias de abastecimento. Um ataque cibernético contra uma infraestrutura essencial, por exemplo, pode afetar serviços mesmo sem causar danos físicos visíveis.
O governo também considera ameaças externas e o agravamento das tensões internacionais, incluindo a possibilidade de ações hostis contra o Reino Unido e seus aliados. O objetivo da preparação doméstica é permitir que as pessoas mantenham suas necessidades básicas durante as primeiras etapas de uma crise, enquanto os serviços de emergência concentram esforços em quem mais precisa de assistência.
As autoridades apresentam as recomendações como medidas preventivas de bom senso, e não como uma previsão de que um desastre específico esteja prestes a acontecer.
El Niño, calor extremo e preocupação com o abastecimento de alimentos
A preparação para emergências ocorre depois de um verão excepcionalmente quente no Reino Unido. Segundo o Met Office, o verão de 2026 foi provisoriamente o mais quente já registrado no país. O calor contribuiu para agravar a seca em diversas regiões e aumentou a preocupação com a disponibilidade de água e os impactos sobre a agricultura.
Outro fator acompanhado pelos meteorologistas é o El Niño, fenômeno climático natural caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Pacífico equatorial. O episódio em desenvolvimento em 2026 pode estar entre os mais intensos já registrados, embora seus efeitos específicos sobre o clima britânico continuem sujeitos a incertezas.
Uma análise do Escritório de Ciência do governo britânico aponta que o fenômeno pode afetar as cadeias globais de abastecimento e pressionar os preços de determinados produtos, como arroz, café e cacau. Os efeitos dependem, porém, da evolução do fenômeno e das condições climáticas nas regiões produtoras. Não há certeza de que o Reino Unido enfrentará escassez generalizada de alimentos.
A preocupação com a segurança alimentar também foi reforçada por representantes do setor agrícola. Durante o verão, a falta de chuva prejudicou pastagens em algumas áreas, levando produtores de leite a utilizar reservas de forragem normalmente destinadas ao inverno.
O problema não se limita à produção nacional. Se eventos climáticos extremos afetarem simultaneamente diferentes regiões do mundo, o Reino Unido poderá enfrentar pressões sobre os preços e a disponibilidade de alguns produtos importados.
Em outubro, mais de 150 especialistas, acadêmicos, empresários e representantes de organizações comunitárias também alertaram para vulnerabilidades do sistema alimentar britânico. Em uma carta aberta, eles defenderam medidas para aumentar a capacidade de resposta a crises e reduzir a dependência de cadeias de abastecimento pouco preparadas para interrupções prolongadas.
Essas preocupações não significam que uma crise alimentar seja inevitável. Elas apontam, contudo, para a importância de fortalecer a produção, a distribuição e a capacidade de manter o acesso a alimentos em situações adversas.
Ameaças cibernéticas e tensões com a Rússia
A preparação da população também está relacionada à avaliação de riscos à segurança nacional. O Registro Nacional de Riscos de 2026 passou a incluir explicitamente a possibilidade de interferência no processo democrático britânico, além de destacar ameaças cibernéticas.
As autoridades consideram que ataques digitais contra serviços públicos, empresas de energia, redes de comunicação ou sistemas de abastecimento podem provocar consequências práticas para a população. Em determinadas circunstâncias, uma falha prolongada pode dificultar pagamentos eletrônicos, limitar o acesso a informações e afetar o funcionamento de estabelecimentos comerciais.
As tensões com a Rússia também fazem parte do contexto de segurança. Moscou advertiu que instalações britânicas em território ucraniano que contribuam para ataques de longo alcance contra alvos russos poderiam ser consideradas alvos legítimos. O governo russo ainda convocou uma representante diplomática britânica para protestar contra o apoio militar de Londres à Ucrânia e mencionou possíveis medidas de retaliação.
Essas declarações aumentam as preocupações diplomáticas, mas não constituem, por si só, uma indicação de que um ataque ao território britânico seja iminente. A preparação doméstica é apresentada como parte de uma política preventiva mais ampla, que também abrange desastres naturais e falhas técnicas.
Como se preparar sem gastar muito
O governo recomenda que as famílias não esperem uma emergência para começar a organizar seus suprimentos. Uma maneira de fazer isso é acrescentar gradualmente alguns produtos à compra habitual e verificar quais itens já estão disponíveis em casa.
Também é importante manter os medicamentos essenciais acessíveis, saber como obter informações oficiais durante um apagão e combinar formas de contato com familiares. Pessoas que dependem de equipamentos médicos ou precisam de assistência adicional devem planejar antecipadamente como lidar com uma interrupção de energia ou água.
O portal oficial Prepare reúne orientações sobre diferentes situações, incluindo inundações, incêndios florestais e interrupções no abastecimento de água. A recomendação é adaptar os preparativos aos riscos locais e às necessidades de cada residência, sem recorrer à compra excessiva de produtos.
A mensagem central das autoridades britânicas é que pequenas medidas preventivas podem ajudar as famílias a atravessar os primeiros momentos de uma crise e permitir que os serviços de emergência priorizem as pessoas em situação de maior vulnerabilidade.