A onda de protestos estudantis que tomou conta da França nos últimos dias chegou também à Bélgica, especialmente à região de Liège, no sul do país. Centenas de estudantes participaram de manifestações em frente a escolas e instituições de ensino, algumas delas marcadas por atos de vandalismo, incêndios e confrontos com a polícia.
Na França, a mobilização alcançou uma dimensão ainda maior. Mais de 5 mil pessoas foram detidas desde segunda-feira, segundo o ministro do Interior, Laurent Nuñez. Somente na sexta-feira, 2 de outubro, foram registradas 1.747 detenções, enquanto 735 estabelecimentos de ensino foram afetados pelo movimento. Em 158 deles, as autoridades registraram episódios classificados como violência urbana.
O movimento francês começou em setembro, inicialmente concentrado na região de Paris, e rapidamente se espalhou por outras cidades. Os estudantes protestam contra problemas que vão desde a falta de professores e salas superlotadas até a precariedade da infraestrutura escolar, as condições de estudo e questões relacionadas à organização do sistema educacional.
Protestos chegam à Bélgica
Na Bélgica, a situação ganhou força especialmente na província de Liège, onde centenas de estudantes saíram às ruas na quinta e na sexta-feira, 1º e 2 de outubro.
Na manhã de sexta-feira, cerca de 400 jovens se reuniram diante do estabelecimento Liège Atlas e seguiram posteriormente em direção ao centro da cidade. Outras manifestações foram registradas em localidades como Huy, Ans, Waremme e Herstal. Algumas ocorreram de forma pacífica, mas também foram registrados danos a escolas, lançamento de objetos e confrontos com policiais.
Em Liège, entre 500 e 600 jovens chegaram a se reunir durante a manhã de sexta-feira, segundo informações da imprensa local. Houve tentativas de entrada forçada em escolas, danos ao mobiliário urbano, incêndios e lançamento de pedras contra policiais nas proximidades do Athénée de Fragnée. A polícia também registrou danos em estabelecimentos comerciais.
A tensão levou as autoridades locais a adotar medidas de segurança. Na sexta-feira, escolas secundárias da rede municipal e da rede livre de Liège foram fechadas preventivamente depois dos incidentes registrados no dia anterior. A cidade anunciou posteriormente que os estabelecimentos deveriam reabrir na segunda-feira, 5 de outubro, com reforço da presença policial e de educadores de rua.
Por que os estudantes belgas estão protestando?
Embora a mobilização estudantil em Liège tenha sido influenciada pelo movimento francês, as reivindicações na Bélgica estão diretamente relacionadas às reformas do sistema de ensino da Federação Valônia-Bruxelas.
Professores e estudantes vêm protestando há meses contra medidas de austeridade e mudanças na educação. Entre as principais críticas está o aumento de 10% da carga horária dos professores do ensino secundário superior sem uma compensação salarial correspondente. O coletivo de professores Mars Attacks!, que reúne profissionais de Bruxelas e da Valônia, transformou essa questão em uma de suas principais bandeiras.
Outra medida contestada é o aumento das taxas de matrícula no ensino superior. Para parte dos estudantes, o valor deverá subir de 835 para 1.194 euros, enquanto estudantes bolsistas terão regras diferentes. A mudança é apontada pelos movimentos estudantis como uma ameaça à acessibilidade ao ensino superior.
A reforma também inclui mudanças relacionadas à gratuidade escolar, ao financiamento das instituições e às condições de trabalho dos professores. O coletivo Mars Attacks! afirma que a precariedade das instalações, o tamanho das turmas e a falta de recursos para acompanhar estudantes com dificuldades estão entre os problemas que exigem maior investimento público.
Uma mobilização que já vinha crescendo na Bélgica
A chegada dos protestos estudantis ocorre em um contexto de mobilização que já vinha se desenvolvendo na Bélgica desde o primeiro semestre.
O coletivo Mars Attacks! foi criado em março de 2026 por professores de diferentes escolas e rapidamente ampliou sua atuação. Em setembro, o grupo afirmava reunir cerca de 400 escolas em Bruxelas e na Valônia e defendia uma convergência das mobilizações com outros setores.
Em 10 de setembro, uma manifestação realizada em Liège reuniu milhares de professores, estudantes e familiares contra as medidas de austeridade na educação. Segundo o sindicato, foram cerca de 13 mil participantes, enquanto a polícia estimou o público em aproximadamente 10 mil pessoas.
Por isso, os acontecimentos de Liège não representam simplesmente uma transferência dos protestos franceses para o território belga. Existe uma mobilização própria contra as reformas educacionais, mas a onda de manifestações na França ajudou a impulsionar a participação dos estudantes e deu uma nova dimensão às ações.
Na França, governo tenta conter a escalada
Enquanto a mobilização avançava na Bélgica, o governo francês buscava reduzir a tensão depois de uma semana marcada por bloqueios, confrontos e danos materiais.
O ministro da Educação, Édouard Geffray, reuniu-se na sexta-feira com representantes de organizações estudantis para discutir as reivindicações. Segundo o governo, entre os principais problemas estão a falta de professores substitutos, a situação dos prédios escolares, o tamanho das turmas e a organização dos horários escolares.
Geffray anunciou um plano para acelerar a substituição de professores ausentes e prometeu iniciar trabalhos sobre a participação dos estudantes nas decisões relacionadas ao sistema educacional. Os representantes estudantis, porém, consideraram que a reunião não apresentou medidas concretas suficientes e defenderam a continuidade das mobilizações.
A escalada da violência também aumentou a pressão sobre o governo. Na sexta-feira, 78 profissionais da educação haviam sido feridos desde o início da mobilização, enquanto 24 estabelecimentos foram vandalizados ou incendiados, segundo dados apresentados pelo governo. Mais de 400 escolas estavam previstas para permanecer fechadas na segunda-feira por causa dos protestos e dos danos registrados.
O movimento também ganhou uma dimensão política. O governo francês acusou setores da esquerda radical de contribuir para a mobilização, enquanto os opositores afirmam que a resposta policial está agravando a crise. O ministro do Interior, Laurent Nuñez, disse que 85% das pessoas detidas na sexta-feira eram menores de idade.
Uma nova semana de tensão na Europa
A mobilização deverá continuar nos próximos dias. Na França, novas manifestações estão previstas, enquanto sindicatos e organizações estudantis estudam ampliar a pressão sobre o governo.
Na Bélgica, a situação em Liège permanece sob atenção das autoridades depois dos episódios de violência registrados durante a semana. Ao mesmo tempo, professores e estudantes continuam pressionando o governo da Federação Valônia-Bruxelas contra as reformas educacionais.
O que começou como uma onda de protestos por melhores condições nas escolas francesas transformou-se, portanto, em um movimento que já encontra eco em outros pontos da Europa.
Mas, no caso belga, a realidade é mais complexa: a insatisfação com as políticas educacionais já existia antes da chegada dos protestos franceses. A novidade é a entrada dos estudantes nas ruas com manifestações que, em alguns pontos, assumiram um caráter mais confrontacional.
A evolução dos protestos nos próximos dias deverá determinar se a mobilização permanecerá concentrada em algumas cidades ou se ganhará uma dimensão nacional tanto na França quanto na Bélgica.