Quase 19.800 estrangeiros condenados por crimes e considerados passíveis de deportação estavam vivendo na comunidade no início de 2026, segundo análise da Universidade de Oxford. Número aumentou quase 10% desde a chegada do Partido Trabalhista ao poder.
O número de estrangeiros condenados por crimes no Reino Unido que já cumpriram suas penas, mas continuam vivendo no país enquanto aguardam a deportação, atingiu um recorde próximo de 20 mil pessoas. A cifra chegou a 19.780 no primeiro trimestre de 2026, segundo uma análise do Migration Observatory, da Universidade de Oxford, citada em um estudo divulgado nesta semana.
O número representa um aumento de quase 10% em relação aos 18.070 estrangeiros nessa situação em julho de 2024, quando o Partido Trabalhista chegou ao poder. O levantamento aponta para uma diferença crescente entre o ritmo de libertação de condenados estrangeiros e a capacidade das autoridades britânicas de efetivar sua retirada do país.
Os dados oficiais mais recentes do Ministério do Interior britânico mostram que 5.858 criminosos estrangeiros foram devolvidos ao exterior nos 12 meses encerrados em março de 2026, o maior número observado desde 2017 e 13% superior ao registrado no período anterior. Ainda assim, o volume de deportações permanece muito abaixo do contingente de pessoas que aguardam a remoção.
Criminosos aguardam deportação vivendo na comunidade
A situação é mais complexa do que a expressão “criminosos estrangeiros livres” pode sugerir. Muitos desses indivíduos já cumpriram suas respectivas penas de prisão, mas continuam sujeitos a medidas de imigração enquanto o governo tenta organizar a deportação.
Em diversos casos, eles deixam o sistema prisional e passam a permanecer na comunidade sob fiança migratória, enquanto processos judiciais, questões administrativas ou dificuldades para obter a cooperação do país de origem impedem a remoção imediata. O próprio Ministério do Interior reconhece que pessoas podem deixar a detenção e permanecer sob esse regime enquanto seus casos são analisados.
O pesquisador Ben Brindle, do Migration Observatory e autor da análise, destacou que o aumento ocorreu apesar do crescimento das deportações.
Segundo ele, isso sugere que as remoções não estão acompanhando o número de criminosos estrangeiros que deixam as prisões. Outro obstáculo é a falta de cooperação de alguns países para receber de volta seus próprios cidadãos.
Um exemplo citado pelo pesquisador é o Irã: apenas 10 criminosos iranianos foram removidos no ano encerrado em março de 2026, apesar de iranianos estarem entre as nacionalidades estrangeiras mais numerosas nas prisões da Inglaterra e do País de Gales.
Programa de libertação antecipada aumenta pressão sobre o sistema
A situação também ocorre em meio à pressão sobre o sistema penitenciário britânico.
Em setembro de 2024, o governo implementou o SDS40, mecanismo que permite que determinados presos condenados a penas de duração definida sejam liberados sob licença depois de cumprir 40% da pena, em vez dos 50% previstos anteriormente, desde que atendam aos critérios de elegibilidade.
O programa foi criado para aliviar a superlotação das prisões. O Ministério da Justiça britânico confirmou que a medida começou a ser aplicada em 10 de setembro de 2024, com diferentes grupos de presos entrando no programa posteriormente.
Críticos argumentam que a libertação antecipada pode ampliar a quantidade de criminosos estrangeiros que deixam as prisões antes que os procedimentos de deportação tenham sido concluídos. O estudo, porém, não demonstra que o SDS40 seja, por si só, responsável pelo aumento para 19.780 pessoas.
Além disso, existe um mecanismo específico para a retirada antecipada de criminosos estrangeiros: o Programa de Remoção Antecipada, que permite, sob determinadas condições, deportar alguns condenados estrangeiros antes do término normal da pena. Dados do governo mostram que 5.995 criminosos estrangeiros foram devolvidos por esse mecanismo entre julho de 2024 e julho de 2026.
Albânia aparece entre os principais grupos nas deportações
Os dados oficiais também revelam diferenças importantes entre nacionalidades e tipos de crime.
No ano encerrado em dezembro de 2025, os delitos relacionados a drogas foram a categoria de condenação mais comum entre os criminosos estrangeiros deportados, representando 41% dos casos. Entre os deportados, mais da metade havia recebido penas de prisão de pelo menos dois anos.
Os albaneses foram a nacionalidade mais comum entre os criminosos estrangeiros deportados pelo Reino Unido nos últimos cinco anos. Segundo o Ministério do Interior, 80% dos albaneses deportados por condenações no período analisado haviam sido condenados por crimes relacionados a drogas.
Entretanto, é importante não confundir esses números com o universo dos quase 20 mil estrangeiros que aguardam deportação. O governo não divulga, nesse levantamento, a nacionalidade nem o tipo de crime cometido por todas as pessoas que compõem esse contingente.
Governo enfrenta pressão sobre deportações
A oposição conservadora utilizou os números para acusar o governo de perder o controle sobre a política de deportação.
O deputado Chris Philp, responsável pela área de imigração no Partido Conservador, afirmou que quase 20 mil criminosos estrangeiros estão vivendo na comunidade e criticou o programa de libertação antecipada.
O grupo de campanha Migration Watch UK também argumentou que o governo ainda não demonstrou capacidade suficiente para acelerar as deportações, enquanto organizações políticas de direita defendem medidas ainda mais duras, incluindo mudanças nas obrigações jurídicas que atualmente podem limitar algumas remoções.
O governo, por sua vez, destaca que as deportações de criminosos estrangeiros aumentaram. Os 5.858 retornos registrados no ano encerrado em março de 2026 foram 13% superiores aos do período anterior e constituíram o maior número desde 2017.
Dados provisórios mais recentes indicam que a tendência continuou: entre agosto de 2025 e julho de 2026, 5.928 criminosos estrangeiros foram devolvidos, 11% a mais que nos 12 meses anteriores.
O problema, portanto, não é simplesmente a ausência de deportações, mas a dificuldade de fazer com que o ritmo das remoções acompanhe o número de condenados que deixam o sistema prisional.
Um problema que expõe os limites da política migratória britânica
Os números colocam o governo diante de um dos desafios mais delicados de sua política migratória: conciliar a deportação de estrangeiros condenados, a capacidade limitada do sistema prisional e os obstáculos jurídicos e diplomáticos envolvidos nas remoções.
Embora o número de deportações esteja crescendo, o contingente de estrangeiros condenados que permanecem na comunidade enquanto aguardam sua retirada também aumentou.
E essa é justamente a contradição que os novos dados evidenciam: o Reino Unido está deportando mais criminosos estrangeiros do que nos últimos anos, mas ainda não consegue retirar do país todos aqueles que entram no sistema de deportação.