A advogada Marluci Cabrera Bellini Henares, de 49 anos, e Djalma Antônio Henares Júnior, de 56, foram presos em Portugal após serem condenados a 17 anos e seis meses de prisão por tortura contra internos de uma clínica de reabilitação que mantinham em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo. O caso começou a ser investigado em 2014 e levou 12 anos até a condenação se tornar definitiva.
As prisões ocorreram em julho de 2026, depois que o processo transitou em julgado e os dois passaram a ser considerados foragidos pela Justiça brasileira. Os nomes do casal foram incluídos na Difusão Vermelha da Interpol, mecanismo utilizado para localizar pessoas procuradas internacionalmente.
Segundo informações do Ministério Público de São Paulo, Djalma foi preso em 9 de julho e Marluci em 17 de julho, ambos em território português. O Ministério Público de Ribeirão Preto já solicitou a extradição dos dois para que eles sejam transferidos ao Brasil e cumpram a pena no sistema penitenciário brasileiro.
A defesa dos condenados informou que não se manifestaria sobre as prisões e a condenação.
Torturas foram denunciadas em 2014
As investigações contra a clínica, localizada no bairro Recreio das Acácias, começaram em agosto de 2014, após denúncias de ex-internos. Durante uma operação realizada naquele período, autoridades apreenderam cordas e pedaços de madeira que, segundo a investigação, eram utilizados nos maus-tratos.
Os relatos reunidos pelo Ministério Público descrevem um cenário de violência física e psicológica. Ex-internos afirmaram ter sido agredidos com socos e pedaços de madeira, submetidos a castigos humilhantes e, em alguns casos, vítimas de violência sexual.
Um dos relatos mais graves foi feito por um ex-interno que afirmou ter sido obrigado a cavar o próprio buraco e permanecer enterrado até a cintura como forma de punição. Ele também relatou ter sido obrigado a caminhar nu diante de outros pacientes.
De acordo com o promotor de Justiça Aroldo Costa Filho, que acompanha o caso desde o início, foram ouvidos 24 ex-internos que relataram diferentes formas de violência. Entre as práticas descritas também estavam o uso forçado de medicamentos controlados, agressões e métodos de humilhação utilizados para controlar os pacientes.
Casal deixou o Brasil e passou a viver em Portugal
Segundo o Ministério Público, Marluci e Djalma deixaram o Brasil ainda no início do processo, antes da expedição dos mandados de prisão, e passaram a viver em Portugal.
Durante o período em que permaneceu no país europeu, Marluci chegou a trabalhar como professora de zumba nos Açores. A localização do casal foi posteriormente identificada por meio da cooperação entre as autoridades brasileiras.
Com a confirmação definitiva da condenação, em junho de 2026, a Justiça brasileira expediu os mandados de prisão e os nomes dos dois foram incluídos na lista internacional de procurados da Interpol. As prisões ocorreram no mês seguinte.
Extradição pode levar o casal de volta ao Brasil
O Ministério Público de Ribeirão Preto solicitou formalmente a extradição dos dois condenados. O promotor Aroldo Costa Filho explicou que, por se tratar de condenação por crime considerado hediondo, o início do cumprimento da pena deverá ocorrer em regime fechado.
Segundo o representante do Ministério Público, eles não poderão iniciar o cumprimento da pena em regime aberto ou semiaberto e deverão permanecer inicialmente em regime fechado, conforme as regras aplicáveis à condenação. O período de detenção cumprido em Portugal também deverá ser considerado no cálculo da pena.
O caso encerra, ao menos por enquanto, uma investigação que começou há mais de uma década e que expôs denúncias de graves violações contra pessoas que estavam internadas em busca de tratamento para dependência química.
Para o promotor responsável pelo caso, a prisão dos condenados demonstra que a demora de um processo judicial não significa necessariamente ausência de punição: a condenação se tornou definitiva e agora as autoridades brasileiras buscam trazer os dois de volta ao país para o cumprimento da pena.