Sadiq Khan defende implementação rápida de uma cobrança sobre hospedagens, enquanto empresários pedem uma taxa fixa de £2 a £3 por noite
Londres se prepara para avançar com a criação de uma taxa turística sobre hospedagens, uma medida defendida pelo prefeito Sadiq Khan como uma nova fonte de recursos para fortalecer o turismo, a cultura e a infraestrutura da capital britânica. A proposta, porém, já provoca resistência entre representantes do setor hoteleiro, que temem que uma cobrança calculada como porcentagem do valor da diária torne Londres menos competitiva diante de outras grandes cidades europeias.
O governo britânico anunciou nesta semana que autoridades regionais e prefeitos da Inglaterra receberão poderes para estabelecer uma cobrança sobre estadias durante a noite. A medida faz parte de um processo mais amplo de descentralização fiscal e deverá permitir que cada região defina como o mecanismo será aplicado.
Em Londres, Khan quer que a implementação avance rapidamente. O prefeito afirmou que a chamada taxa de visitação noturna deve ser criada “mais cedo ou mais tarde” e defendeu a utilização dos recursos exclusivamente para fortalecer a economia de visitantes da capital.
“Dou forte apoio ao fato de o Governo dar a Londres o poder de introduzir uma taxa de visitação noturna. Isso precisa acontecer mais cedo ou mais tarde”, afirmou Khan.
Segundo o prefeito, a economia ligada ao turismo é responsável por empregos, empresas e investimentos em Londres e em outras partes do Reino Unido. Para ele, a capital deveria ter a mesma flexibilidade fiscal de outras grandes cidades internacionais que já cobram valores adicionais de visitantes.
Como funcionaria a taxa turística em Londres?
A proposta em discussão em Londres prevê uma cobrança sobre pessoas que passem a noite em hotéis e outros tipos de hospedagem de curta duração, incluindo imóveis oferecidos por plataformas semelhantes ao Airbnb.
City Hall vinha trabalhando com a possibilidade de uma taxa proporcional ao preço da acomodação, com um limite de até 5% do valor do quarto. Entretanto, o desenho definitivo ainda precisa ser estabelecido e dependerá do modelo aprovado pelo Governo e das decisões posteriores em Londres.
A diferença pode ser significativa para os visitantes porque os preços de hospedagem na capital britânica são, em média, mais elevados do que em muitas outras cidades europeias.
Com uma diária média de cerca de £230, uma cobrança de 5% representaria aproximadamente £11,50 adicionais por noite. O valor real, naturalmente, dependeria do preço da acomodação e das regras finais estabelecidas para o sistema.
É justamente esse modelo percentual que preocupa empresários do setor.
Hotéis defendem cobrança fixa de £2 a £3
Organizações empresariais argumentam que uma taxa fixa seria mais previsível e evitaria que os visitantes que escolhem hotéis mais caros pagassem valores muito superiores.
A BusinessLDN, que representa empresas e organizações da economia londrina, defende uma cobrança de aproximadamente £2 a £3 por noite, acompanhada de um limite para o número de noites sobre as quais a taxa seria aplicada.
A entidade afirma que hotéis e empresas de hospedagem já enfrentam uma combinação de custos elevados, incluindo aumento das contribuições trabalhistas, do salário mínimo e das despesas relacionadas aos imóveis comerciais.
“Os hotéis e fornecedores de hospedagem estão enfrentando uma tempestade perfeita devido a aumentos significativos de impostos e aos custos crescentes com mão de obra”, afirmou Muniya Barua, vice-presidente-executiva da BusinessLDN.
Segundo a organização, uma nova cobrança neste momento precisaria ser cuidadosamente planejada para não reduzir a atratividade de Londres como destino internacional.
O grupo também defende que todo o dinheiro arrecadado seja destinado a medidas capazes de aumentar o número de visitantes e melhorar a experiência turística, em vez de ser utilizado para compensar déficits em outras áreas do orçamento público.
Westminster teme perda de competitividade
A discussão ganhou importância especial em Westminster, uma das áreas mais visitadas de Londres e que concentra grande quantidade de hotéis, restaurantes, teatros, lojas e atrações turísticas.
Representantes locais demonstraram preocupação com a possibilidade de a capital perder competitividade para outras cidades europeias que já adotam taxas de visitação.
O argumento é que uma comparação simples entre percentuais pode ser enganosa. Em vários países europeus, a carga tributária sobre hotéis é diferente da britânica, o que pode fazer com que uma cobrança adicional tenha um impacto proporcionalmente maior sobre o preço final de uma estadia em Londres.
O setor hoteleiro também teme que a medida seja especialmente problemática em um momento de pressão sobre o custo de vida e de aumento das despesas operacionais.
Quanto dinheiro Londres poderia arrecadar?
A taxa tem potencial para gerar centenas de milhões de libras ao ano, dependendo do percentual escolhido, do número de hospedagens incluídas e das regras de cobrança.
Estimativas anteriores analisadas por City Hall apontaram que uma taxa relativamente modesta poderia gerar cerca de £250 milhões anuais para Londres.
A expectativa de Khan é que os recursos sejam reinvestidos na própria economia turística.
O prefeito defende que o dinheiro possa financiar melhorias em espaços públicos, infraestrutura, cultura, atrações, eventos e outras iniciativas destinadas a tornar a capital mais atraente para visitantes.
“Uma taxa modesta e bem planejada tem potencial para fornecer uma importante fonte adicional de financiamento para apoiar o crescimento, fortalecer a oferta de Londres aos visitantes e ajudar a cidade a permanecer competitiva globalmente”, afirmou Khan.
A ideia é que a cobrança ajude também a lidar com os custos associados à recepção de dezenas de milhões de visitantes todos os anos.
Governo amplia poder de prefeitos e autoridades locais
A discussão londrina ganhou novo impulso com a decisão do Governo britânico de permitir que autoridades regionais da Inglaterra adotem uma taxa sobre hospedagens.
A medida faz parte da agenda de descentralização defendida pelo primeiro-ministro Andy Burnham e transfere maior poder de arrecadação e decisão para governos locais.
O novo sistema deverá permitir que diferentes regiões estabeleçam suas próprias regras, em vez de depender exclusivamente do Governo central.
A decisão também aproxima a Inglaterra de outros destinos que já utilizam mecanismos semelhantes.
Edimburgo, na Escócia, começou a aplicar uma taxa de 5% sobre hospedagens em julho de 2026, limitada inicialmente às cinco primeiras noites da estadia.
Em outras cidades europeias, o modelo é geralmente diferente.
Paris, por exemplo, utiliza valores fixos que variam de acordo com a categoria da hospedagem. Lisboa também adota uma cobrança fixa, atualmente de €4 por pessoa por noite, limitada a sete noites.
A diferença é importante porque uma taxa percentual pode produzir valores muito maiores em cidades onde o preço médio dos hotéis é elevado.
Setor hoteleiro cita risco de empregos e redução do turismo
A resistência não se limita a Londres.
A UKHospitality, principal organização empresarial do setor de hospitalidade no Reino Unido, encomendou à Oxford Economics uma análise sobre os possíveis efeitos de uma taxa de 5% em toda a Inglaterra.
O estudo estima que, caso o impacto seja totalmente concretizado até 2030, uma cobrança de 5% poderia reduzir o Produto Interno Bruto em cerca de £2,24 bilhões, diminuir os gastos turísticos em £1,78 bilhão e resultar na perda de aproximadamente 33 mil empregos.
A entidade ressalta que essas são projeções econômicas e não uma previsão específica para Londres.
A organização também argumenta que o Reino Unido já aplica uma taxa de 20% de IVA sobre hospedagens, acima da praticada por diversos concorrentes europeus, e que uma nova cobrança poderia aumentar ainda mais a diferença de preços.
Por outro lado, defensores da medida argumentam que taxas turísticas já são comuns em grandes destinos internacionais e que uma cobrança relativamente pequena pode ser absorvida pelo visitante se os recursos forem utilizados para melhorar a experiência turística.
O dinheiro terá de voltar para o turismo?
Esse será um dos principais pontos da disputa.
Empresários londrinos defendem que os recursos arrecadados sejam vinculados a investimentos capazes de aumentar o número de visitantes e fortalecer o setor.
A BusinessLDN argumenta que o dinheiro deveria financiar promoção internacional, atrações culturais, eventos e melhorias que beneficiem diretamente a economia turística.
London Councils, que representa os governos dos distritos da capital, também vem pressionando para que uma parcela significativa da arrecadação permaneça nas áreas onde o dinheiro é gerado.
A organização defende que os distritos possam ficar, por padrão, com pelo menos 50% da receita arrecadada em seus territórios. O objetivo seria financiar serviços diretamente relacionados ao impacto do turismo, como limpeza urbana, manutenção de espaços públicos, licenciamento, segurança comunitária e apoio a empresas locais.
Londres pode ficar mais cara para quem visita?
O impacto final para o turista dependerá da fórmula escolhida.
Se Londres adotar uma taxa de 5% sobre o preço da hospedagem, uma diária de £100 acrescentaria £5 à conta, enquanto uma acomodação de £230 teria uma cobrança de aproximadamente £11,50.
Em um hotel de £400 por noite, a mesma porcentagem significaria £20 adicionais.
É essa diferença que leva o setor a defender uma taxa fixa. Para os empresários, cobrar £2 ou £3 por noite tornaria o sistema mais previsível e reduziria o impacto sobre hotéis de categoria superior.
O Governo, por sua vez, argumenta que um modelo proporcional pode ser mais justo porque protege visitantes que escolhem hospedagens de menor preço.
Sadiq Khan promete consultar o setor antes da decisão final
Apesar da pressão para uma implementação rápida, Khan afirmou que pretende consultar hotéis, empresas de hospedagem, organizações turísticas e os distritos londrinos antes de definir os detalhes.
A Prefeitura de Londres já criou uma equipe específica para estudar e desenvolver o projeto. Em março de 2026, City Hall aprovou até £492 mil para financiar postos de trabalho relacionados ao projeto e mais £300 mil para consultoria, pesquisas, contratação temporária e outras necessidades.
A própria documentação oficial ressalta que o modelo londrino ainda dependeria da evolução da política nacional.
Por isso, embora a possibilidade de uma taxa de até 5% esteja no centro do debate atual, o percentual definitivo, a forma de cobrança, as categorias de hospedagem abrangidas e a data de entrada em vigor ainda não estão fechados.
O debate coloca Londres diante de uma escolha delicada: aumentar os recursos disponíveis para investir em turismo e infraestrutura ou evitar qualquer medida que possa elevar ainda mais o custo de uma estadia em uma das cidades mais caras da Europa.
Para Khan, uma taxa bem planejada pode ajudar Londres a permanecer entre os principais destinos turísticos do mundo. Para o setor hoteleiro, porém, o desafio será garantir que a cobrança não acabe produzindo o efeito contrário e faça com que parte dos visitantes escolha outros destinos.