A Polícia Judiciária identificou 54 endereços na internet associados à divulgação de conteúdos extremistas em Portugal. Entre os materiais sinalizados estão simulações de ataques em videojogos, avatares com temática islamista militante e comunidades digitais que podem ser utilizadas para disseminar propaganda e promover a radicalização de jovens e menores.

A Polícia Judiciária (PJ) identificou 54 endereços na internet associados a conteúdos extremistas em Portugal, incluindo simulações de ataques terroristas contra escolas e uma mesquita, materiais que glorificam autores de atentados e comunidades digitais com referências a ideologias extremistas. A investigação faz parte de uma operação internacional coordenada pela Europol, que identificou mais de nove mil ligações com conteúdo violento ou terrorista em plataformas digitais de 16 países.

Os resultados foram divulgados nesta terça-feira, 3 de novembro, pela Polícia Judiciária, por meio da Unidade Nacional de Contraterrorismo. A operação decorreu entre 14 de setembro e 9 de outubro e teve como objetivo identificar materiais utilizados para disseminar propaganda extremista, promover a radicalização e atrair novos simpatizantes, especialmente entre crianças, adolescentes e jovens.

No conjunto da operação europeia, os investigadores sinalizaram conteúdos distribuídos por 47 plataformas de redes sociais e serviços de jogos online. O material abrangia diferentes correntes ideológicas, incluindo extremismo de inspiração jihadista, de extrema-direita, de extrema-esquerda e anarquista.

Simulações de ataques em videojogos

Entre os conteúdos identificados em Portugal estão materiais associados à chamada True Crime Community (TCC), um conjunto de comunidades digitais relacionadas com o interesse por crimes reais e que, em determinados espaços, também promove a glorificação de autores de ataques violentos.

Segundo a PJ, foram encontrados ambientes de jogo que reproduziam ataques terroristas contra escolas e uma mesquita. Também foram identificados mapas descarregáveis para o videojogo de realidade virtual Bonelab, desenvolvidos para recriar cenários associados a esses episódios.

Outro elemento que chamou a atenção dos investigadores foi a presença de avatares com temática islamista militante na plataforma Roblox. A polícia identificou ainda um convite divulgado pelo Discord que incentivava utilizadores do TikTok a migrar para uma comunidade específica.

A preocupação das autoridades está relacionada com a maneira como esses ambientes podem transformar referências extremistas em experiências interativas. Em determinadas comunidades, os participantes assumem virtualmente papéis de integrantes de organizações terroristas, reproduzem seus símbolos e narrativas e encenam acontecimentos violentos.

A Polícia Judiciária alerta que essas práticas podem ultrapassar o entretenimento e evoluir para iniciativas coordenadas de produção e divulgação de propaganda, além do recrutamento de novos membros e simpatizantes, incluindo menores de idade.

Como funciona a radicalização no ambiente digital

A utilização de videojogos e redes sociais para disseminar ideologias extremistas representa um desafio crescente para as autoridades de segurança europeias. Diferentemente dos canais tradicionais de propaganda, os ambientes digitais interativos permitem que os utilizadores participem de comunidades, estabeleçam relações com outros integrantes e reproduzam narrativas extremistas por meio de atividades aparentemente recreativas.

Esse processo pode começar com conteúdos que glorificam autores de atentados ou apresentam organizações terroristas de maneira positiva. Em seguida, os participantes podem ser direcionados para grupos fechados, nos quais encontram materiais ideológicos, discursos de incentivo à violência e oportunidades de interação com pessoas que compartilham as mesmas referências.

A identificação de um conteúdo extremista, entretanto, não significa automaticamente que todos os utilizadores de determinada plataforma estejam radicalizados ou envolvidos em atividades criminosas. O alerta da PJ está relacionado ao potencial de determinados espaços digitais serem utilizados para normalizar a violência, disseminar propaganda e facilitar processos de recrutamento.

Conteúdos foram comunicados às plataformas

Em Portugal, os 54 endereços identificados foram registados na plataforma PERCI, utilizada para encaminhar denúncias de conteúdos ilegais na internet, e comunicados aos respetivos prestadores de serviços digitais.

Esse procedimento permite que as empresas responsáveis pelas plataformas sejam informadas sobre os materiais sinalizados e adotem as medidas previstas nos mecanismos de moderação e nas regras aplicáveis.

A operação integra uma estratégia mais ampla da União Europeia para combater a exploração de redes sociais e ambientes de jogos online por organizações terroristas e grupos extremistas. A iniciativa também dá continuidade aos esforços de cooperação entre autoridades policiais de diferentes países para identificar conteúdos que circulam além das fronteiras nacionais.

Em janeiro de 2026, a Polícia Judiciária lançou a campanha de comunicação “Hate online, Kills offline”, dedicada à prevenção da radicalização de crianças e jovens na internet.

A instituição considera o fenómeno um dos grandes desafios atuais da segurança pública e defende uma resposta coordenada entre as estruturas do Estado, as famílias, as escolas, as plataformas digitais e a sociedade civil.

A identificação das 54 ligações em Portugal reforça o alerta de que a radicalização não acontece apenas em fóruns clandestinos ou canais dedicados à propaganda terrorista. Ela também pode encontrar espaço em ambientes digitais frequentados diariamente por crianças e adolescentes, inclusive em plataformas criadas originalmente para entretenimento e interação social.

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