Flávio Bolsonaro terminou a primeira rodada à frente de Lula, mas sem maioria absoluta; resultados para Câmara e Senado apontam para um Congresso mais conservador a partir de 2027
O Brasil terá um segundo turno entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) para decidir quem comandará o país pelos próximos quatro anos. A votação está marcada para 25 de outubro, depois que nenhum dos dois candidatos conseguiu alcançar mais de 50% dos votos válidos na primeira rodada das eleições, realizada neste domingo, 4 de outubro.
Flávio Bolsonaro terminou a primeira etapa na liderança da apuração. Quando cerca de 85% dos votos haviam sido contabilizados, o candidato do PL tinha 48,47% dos votos válidos, contra 43,49% de Lula, segundo os dados acompanhados pela Reuters. A diferença, entretanto, não representa uma vantagem suficiente para definir a eleição, e os números continuaram sendo atualizados à medida que a Justiça Eleitoral concluía a totalização.
O resultado abre uma nova campanha de três semanas, em uma disputa que deverá concentrar as atenções sobre economia, segurança pública, programas sociais, política externa e, sobretudo, sobre a capacidade de cada candidato de construir maioria no Congresso Nacional.
Direita avança no Congresso e pode ter força inédita
Além da Presidência, as eleições deste domingo produziram uma mudança significativa no cenário legislativo.
Os brasileiros elegeram os 513 deputados federais que formarão a Câmara a partir de fevereiro de 2027 e renovaram 54 das 81 cadeiras do Senado Federal. A eleição para o Senado, em particular, produziu resultados que apontam para uma expansão das forças de direita e centro-direita.
O PL, partido de Flávio Bolsonaro, aparece entre os principais beneficiados. A legenda já havia chegado à eleição como a maior bancada partidária da Câmara e conseguiu ampliar sua presença em diferentes disputas. No Senado, os primeiros resultados confirmados indicam que o partido deverá terminar como a maior bancada individual da Casa, com reforço de outras legendas alinhadas ao campo conservador.
No Rio Grande do Sul, por exemplo, Marcel Van Hattem, do Novo, e Ubiratan Sanderson, do PL, foram eleitos para as duas vagas em disputa. Em Santa Catarina, Carol de Toni e Carlos Bolsonaro, ambos do PL, conquistaram as duas cadeiras. No Paraná, Filipe Barros, do PL, e Deltan Dallagnol, do Novo, também foram eleitos.
Em São Paulo, o maior colégio eleitoral do país, Guilherme Derrite, do PP, e André do Prado, do PL, venceram a disputa pelas duas vagas disponíveis. Os dois fizeram parte do grupo político que apoiou Flávio Bolsonaro e o governador Tarcísio de Freitas.
A tendência já vinha sendo identificada antes da votação. Um modelo divulgado pelo JOTA na véspera da eleição estimava 29 das 54 novas cadeiras do Senado para candidatos classificados como de direita, contra 14 para a esquerda e 11 para o centro. Com os resultados efetivamente registrados neste domingo, a possibilidade de um Senado mais conservador ganhou ainda mais força.
Por isso, embora a composição ideológica final ainda dependa da consolidação de todos os resultados e da definição das alianças partidárias, o novo Congresso deverá ser um dos principais fatores da disputa presidencial do segundo turno.
Uma segunda volta com o Congresso como peça central
O resultado legislativo terá consequências diretas para o próximo presidente.
No sistema político brasileiro, a capacidade do governo de aprovar projetos depende da construção de maiorias na Câmara e no Senado. Um presidente eleito sem uma base parlamentar consistente pode enfrentar maiores dificuldades para aprovar reformas, projetos econômicos e mudanças legislativas.
A nova composição também será relevante para temas institucionais. A eleição de senadores alinhados à direita foi considerada estratégica pelo campo bolsonarista, especialmente por causa do poder do Senado em processos envolvendo ministros do Supremo Tribunal Federal e outras autoridades.
A Câmara, por sua vez, continuará sendo fundamental para a aprovação de projetos de lei, alterações constitucionais, orçamento e eventuais processos de responsabilização do presidente da República.
Assim, a eleição presidencial de 25 de outubro não ocorrerá em um Congresso definido apenas pelo resultado da disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro. O vencedor terá de negociar com uma composição parlamentar que, pelos resultados preliminares, tende a ser mais conservadora.
Flávio chega à segunda volta em primeiro, mas a disputa continua aberta
A liderança de Flávio Bolsonaro no primeiro turno representa um avanço importante para o candidato do PL, mas não garante sua vitória.
O segundo turno é uma nova disputa eleitoral, na qual os votos dos candidatos eliminados na primeira etapa passam a ser o principal foco das campanhas. Candidatos como Ronaldo Caiado, Augusto Cury e Renan Santos, que ficaram fora da segunda rodada, terão seus eleitorados observados pelas duas campanhas.
O desafio para Lula será recuperar parte dos votos que não foram destinados a ele no primeiro turno e ampliar sua capacidade de mobilização entre setores que tradicionalmente formam sua base eleitoral.
Para Flávio, o desafio será transformar a liderança inicial em maioria absoluta, mantendo o apoio obtido no primeiro turno e buscando eleitores que votaram em outros candidatos.
A diferença registrada na primeira apuração também deve ser interpretada com cautela. Pesquisas divulgadas antes da votação apresentavam cenários diferentes e, em alguns casos, indicavam vantagem de Lula ou empate técnico entre os dois. O resultado das urnas mostrou uma fotografia diferente daquela apontada por parte dos levantamentos pré-eleitorais.
Economia e mercados acompanham a disputa
O segundo turno também deverá aumentar a volatilidade nos mercados financeiros brasileiros.
Investidores acompanham principalmente as propostas de cada candidato para as contas públicas, a trajetória da dívida, os gastos do governo, as políticas de juros e a relação entre Executivo e Congresso.
Uma eventual mudança de governo poderá produzir alterações nas expectativas sobre política fiscal, câmbio, juros e Bolsa de Valores. No caso de uma continuidade do governo Lula, os agentes financeiros deverão concentrar a atenção na capacidade do Executivo de controlar as despesas e avançar em medidas para melhorar a situação fiscal.
No caso de uma vitória de Flávio Bolsonaro, o mercado deverá avaliar a composição de sua equipe econômica, as prioridades fiscais e a capacidade de implementar as reformas prometidas, além do grau de apoio que o novo presidente terá no Congresso.
Por isso, mais do que o resultado presidencial isoladamente, investidores terão de observar a combinação entre Presidência, Câmara e Senado.
Campanhas terão novo impulso financeiro
A segunda rodada também representa uma nova etapa na disputa financeira das campanhas.
O Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) destinado às eleições de 2026 soma R$ 4,96 bilhões, distribuídos entre os partidos conforme os critérios previstos na legislação eleitoral. O valor foi mantido no mesmo patamar das eleições anteriores pelo Tribunal Superior Eleitoral.
O TSE também manteve para 2026 os limites de gastos utilizados em 2022. Pela regulamentação eleitoral, em caso de segundo turno, o limite de gastos das candidaturas majoritárias recebe um acréscimo de 50% em relação ao teto estabelecido para o primeiro turno.
Isso significa que Lula e Flávio terão mais três semanas para intensificar viagens, propaganda, comunicação digital, mobilização de apoiadores e articulações políticas em torno da nova votação.
Uma eleição que vai além da Presidência
O resultado de 4 de outubro deixou uma eleição presidencial ainda indefinida, mas produziu um cenário legislativo que já começa a desenhar o ambiente político de 2027.
Flávio Bolsonaro chega ao segundo turno na frente, enquanto Lula busca uma reação para tentar conquistar um novo mandato. Ao mesmo tempo, o avanço de candidatos de direita e centro-direita no Congresso indica que o próximo presidente poderá enfrentar um Legislativo com forte presença de forças conservadoras.
A combinação entre uma disputa presidencial apertada e um Congresso mais à direita transforma o segundo turno em uma decisão que vai além da escolha do próximo presidente.
No dia 25 de outubro, os brasileiros voltarão às urnas para decidir entre Lula e Flávio Bolsonaro. O resultado definirá não apenas quem ocupará o Palácio do Planalto, mas também como o novo governo terá de negociar com um Congresso que começa a apresentar uma correlação de forças diferente daquela dos últimos anos.