Dois cidadãos iranianos que chegaram ao Reino Unido em pequenas embarcações foram acusados de preparar um possível atentado contra a comunidade judaica de Manchester. Entre os locais que, segundo os investigadores, teriam sido alvo de reconhecimento estão a sinagoga de Heaton Park, cenário de um ataque terrorista fatal em 2025, e o Museu Judaico de Manchester.

Salam Ahmadyan, de 36 anos, residente em Liverpool, e Rahman Salehi, de 34 anos, residente em Salford, compareceram neste sábado, 3 de outubro, perante o Tribunal de Magistrados de Westminster, em Londres. Os dois foram acusados de praticar atos preparatórios para ações terroristas, segundo a legislação britânica.

Nenhum dos dois apresentou uma declaração de culpa durante a audiência. A juíza Nina Tempia determinou que ambos permanecessem sob custódia e marcou uma nova audiência para 23 de outubro, no Tribunal Criminal Central, conhecido como Old Bailey, em Londres.

As acusações ainda precisam ser comprovadas judicialmente. O Ministério Público britânico ressaltou que o processo está em andamento e que os dois acusados têm direito a um julgamento justo.

Investigação aponta para possível contato com alguém no Irã

De acordo com a Polícia Metropolitana e a unidade britânica de combate ao terrorismo, os dois homens foram presos em Manchester em 20 de setembro, pouco antes do início do Yom Kippur, a data mais sagrada do calendário judaico.

As autoridades afirmam que os suspeitos teriam realizado reconhecimento de possíveis alvos e buscado materiais e instruções relacionados à preparação de um dispositivo explosivo improvisado.

A investigação também aponta para um possível contato com uma terceira pessoa localizada no exterior. Segundo a polícia, esse indivíduo pode estar no Irã e teria mantido comunicação com os dois homens em relação ao suposto plano. As autoridades ainda não afirmaram que o governo iraniano tenha ordenado ou coordenado diretamente a operação.

A polícia britânica realizou buscas em imóveis na Epworth Street, em Liverpool, e na Lancaster Road, em Salford, como parte da investigação.

A vice-comissária assistente Vicki Evans, coordenadora nacional sênior da Polícia de Combate ao Terrorismo, afirmou que a investigação resultou na interrupção do que as autoridades acreditam ter sido um plano contra a comunidade judaica de Manchester.

Segundo Evans, não há atualmente uma ameaça contínua ao público relacionada a esse caso. A polícia, no entanto, reforçou a necessidade de vigilância e continua trabalhando com outras forças policiais e órgãos de segurança para proteger comunidades judaicas em todo o Reino Unido.

Sinagoga de Heaton Park foi novamente citada como possível alvo

O caso ganhou uma dimensão ainda mais sensível porque um dos locais supostamente reconhecidos pelos acusados foi a sinagoga de Heaton Park, no norte de Manchester.

Em 2 de outubro de 2025, durante o Yom Kippur, a sinagoga foi alvo de um ataque terrorista. Jihad Al-Shamie realizou um ataque com veículo e faca contra pessoas que estavam no local. Dois fiéis, Adrian Daulby, de 53 anos, e Melvin Cravitz, de 66, morreram, enquanto outras três pessoas ficaram feridas. O agressor foi morto pela polícia armada.

A prisão dos dois iranianos ocorreu exatamente um ano depois do ataque, durante um período de grande sensibilidade para a comunidade judaica britânica.

O momento também coincidiu com as celebrações das Grandes Festas Judaicas, incluindo Rosh Hashaná e Yom Kippur. A Polícia de Combate ao Terrorismo afirmou que estava trabalhando com as forças locais para reforçar a segurança em áreas onde vivem comunidades judaicas.

Os dois homens chegaram ao Reino Unido de barco

O caso também reacendeu o debate sobre a entrada irregular de migrantes no Reino Unido pelo Canal da Mancha.

Segundo informações apresentadas pelas autoridades, Rahman Salehi chegou ao país em uma pequena embarcação em 2020 e recebeu asilo em 2023. Salam Ahmadyan teria chegado em 2023 e ainda possui um pedido de asilo em andamento.

A secretária do Interior, Shabana Mahmood, afirmou que o fato de os dois suspeitos terem chegado ao Reino Unido por pequenas embarcações reforça, na avaliação do governo, a necessidade de manter controles rigorosos sobre a entrada irregular no país.

Mahmood também destacou que o episódio ocorre em um momento de preocupação com ameaças provenientes de grupos terroristas e de possíveis atores estatais estrangeiros.

A ministra afirmou que o Reino Unido enfrenta ameaças relacionadas ao Irã e acusou autoridades iranianas de tentar atingir comunidades judaicas e críticos do regime por meio de intermediários e redes criminosas. Essas afirmações fazem parte da avaliação de segurança do governo britânico e não significam que o envolvimento direto de Teerã no caso de Manchester esteja comprovado.

Caso ocorre em meio a outras investigações envolvendo o Irã

A prisão dos dois iranianos ocorreu em uma semana particularmente delicada para a segurança britânica.

Dias antes, cinco homens haviam sido presos nas proximidades da base militar de RAF Fairford, em Gloucestershire, em uma investigação sobre uma possível preparação para um ataque terrorista. Posteriormente, eles foram liberados sob fiança enquanto as investigações continuam.

As autoridades britânicas passaram a investigar uma possível conexão iraniana com o episódio. O primeiro-ministro Andy Burnham afirmou haver “fortes indicações” de que o Irã teve algum papel no caso. Teerã, por sua vez, negou envolvimento. Um cidadão britânico-iraniano de 25 anos também foi posteriormente preso em Londres no âmbito da investigação sobre Fairford e acabou liberado sob fiança.

A Polícia de Combate ao Terrorismo, entretanto, deixou claro que as investigações de Manchester e RAF Fairford não estão relacionadas.

A distinção é importante. Embora os dois casos tenham levantado preocupações sobre possíveis atividades vinculadas ao Irã no Reino Unido, as autoridades não apresentaram evidências de que façam parte de uma mesma operação.

Pressão sobre o governo britânico aumenta

A ligação dos suspeitos com travessias pelo Canal da Mancha também deverá aumentar a pressão sobre o governo britânico em relação ao sistema de imigração e aos mecanismos de segurança utilizados para verificar pessoas que chegam ao país em pequenas embarcações.

O líder do Reform UK, Nigel Farage, aproveitou o caso para voltar a defender uma política migratória mais rígida. Farage afirmou que o governo estaria permitindo que ameaças chegassem às comunidades britânicas e pediu mudanças na política de controle das fronteiras.

As declarações fazem parte do debate político sobre a imigração no Reino Unido, mas o caso também evidencia uma questão mais específica: a necessidade de distinguir entre o controle das fronteiras e a avaliação individual de risco de pessoas que solicitam proteção internacional.

O governo britânico, por sua vez, afirma que o número de pessoas que chegam ao país em pequenas embarcações diminuiu, mas reconhece que ainda existem desafios importantes para impedir travessias clandestinas e processar os pedidos de asilo.

Comunidade judaica permanece sob atenção

Para a comunidade judaica de Manchester, o episódio ocorre em um momento particularmente delicado, apenas um ano após o ataque contra a sinagoga de Heaton Park.

A polícia afirmou que está oferecendo apoio e orientação de segurança a comunidades judaicas em diferentes partes do país. As autoridades também reforçaram que não acreditam existir, neste momento, uma ameaça imediata relacionada ao suposto plano investigado em Manchester.

O caso, porém, chama atenção pela combinação de fatores: dois cidadãos iranianos acusados de preparar um possível ataque, o reconhecimento de locais associados à comunidade judaica, a proximidade com o aniversário do atentado de 2025 e a suspeita de contato com uma pessoa que pode estar no Irã.

Por enquanto, a conexão direta com o governo iraniano não foi comprovada, e os dois acusados permanecem sob custódia enquanto o processo judicial avança.

A próxima etapa importante será a audiência marcada para 23 de outubro, quando o caso deverá avançar no Tribunal Criminal Central de Londres.

Adicionar comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *