A UK Lawyers for Israel pediu à ministra do Interior, Shabana Mahmood, que avalie a possibilidade de proscrever a organização sob a legislação antiterrorista. Médicos Sem Fronteiras rejeita as acusações e afirma ser alvo de uma campanha de desinformação.

Um grupo de lobby pró-Israel pediu ao governo britânico que investigue e considere a proibição da organização humanitária Médicos Sem Fronteiras (MSF) no Reino Unido, alegando que antigos funcionários da entidade teriam mantido vínculos com organizações palestinas consideradas terroristas pelas autoridades britânicas.

A UK Lawyers for Israel (UKLFI) apresentou suas acusações ao Ministério do Interior, à Charity Commission, órgão responsável pela supervisão das instituições de caridade na Inglaterra e no País de Gales, e ao Fundraising Regulator, entidade que supervisiona a arrecadação de recursos por organizações beneficentes.

O grupo também pediu à ministra do Interior, Shabana Mahmood, que analise o caso à luz da legislação antiterrorista, em uma medida que poderia levar a uma eventual proscrição da organização. As acusações foram divulgadas inicialmente pelo jornal The Telegraph.

A MSF rejeitou categoricamente as alegações e afirmou que nunca contrataria conscientemente pessoas envolvidas em atividades militares. A organização também acusou seus críticos de promoverem uma campanha de desinformação.

UKLFI questiona vínculos de funcionários da MSF

O relatório apresentado pela UKLFI concentra-se principalmente em dois antigos funcionários da Médicos Sem Fronteiras que foram mortos em Gaza e que, segundo o grupo, teriam vínculos com organizações armadas palestinas.

Um dos casos citados é o de Fadi Jihad Mohammed al-Wadiya, fisioterapeuta palestino que trabalhou para a MSF entre 2018 e 2022 e voltou a atuar para a organização depois de 7 de outubro de 2023.

Al-Wadiya morreu em 25 de junho de 2024, em um ataque aéreo israelense na Cidade de Gaza, quando se dirigia para trabalhar em uma clínica da MSF. Na época, a organização condenou o ataque e afirmou que ele era seu sexto funcionário morto em Gaza desde o início da guerra.

Após sua morte, autoridades israelenses alegaram que Al-Wadiya tinha ligação com a Jihad Islâmica Palestina. A MSF afirmou inicialmente não ter conhecimento de qualquer participação do funcionário em atividades militares.

A situação ganhou novos contornos em 24 de fevereiro de 2026, quando a própria Jihad Islâmica Palestina publicou material identificando Al-Wadiya como integrante da organização. Segundo a publicação do grupo, ele teria ocupado uma posição relacionada à sua estrutura de produção militar.

A MSF posteriormente atualizou sua declaração sobre o caso. A organização reconheceu que a Jihad Islâmica Palestina havia afirmado publicamente que Al-Wadiya era membro do grupo, mas reiterou que não tinha qualquer indicação anterior de que ele estivesse envolvido em atividades militares. Também afirmou que as autoridades israelenses não haviam compartilhado informações confiáveis sobre essa suposta participação antes da morte do funcionário.

Segundo funcionário é citado nas acusações

O relatório da UKLFI também menciona Nasser Hamdi Abdelatif Al Shalfouh, que trabalhou como motorista para a Médicos Sem Fronteiras.

Segundo a organização pró-Israel, Israel acusa Al Shalfouh de ter atuado como atirador de elite do batalhão de Jabaliya, ligado ao Hamas.

A UKLFI afirma que a MSF não respondeu publicamente às acusações específicas contra Al Shalfouh.

É importante destacar que as alegações apresentadas pela UKLFI não equivalem, por si só, a uma condenação judicial ou a uma determinação independente de que os funcionários tenham cometido atividades terroristas.

O Hamas é uma organização proscrita pelo Reino Unido desde novembro de 2021, quando o governo britânico ampliou a proibição para incluir a organização em sua totalidade, e não apenas sua ala militar. A Jihad Islâmica Palestina também figura na lista britânica de organizações proscritas.

UKLFI questiona o destino de milhões de libras

Além dos funcionários, a UKLFI levantou dúvidas sobre os mecanismos de controle utilizados pela MSF para impedir que recursos arrecadados no Reino Unido possam beneficiar, direta ou indiretamente, pessoas ou organizações ligadas a grupos proscritos.

Segundo dados apresentados pelo grupo, a MSF UK arrecadou £11,3 milhões em 2023, dos quais aproximadamente £1 milhão teria sido destinado a projetos nos territórios palestinos. Em 2024, o valor destinado a esses projetos teria aumentado para £2,7 milhões.

As contas oficiais da MSF UK mostram, entretanto, que a organização teve uma receita total de £95,3 milhões em 2024, contra £85,3 milhões em 2023. A maior parte dos recursos veio de doações e legados.

A UKLFI argumenta que o volume de dinheiro enviado para operações em territórios palestinos torna especialmente importante a existência de mecanismos rigorosos de verificação e controle financeiro.

O grupo afirma que os doadores britânicos têm o direito de esperar padrões elevados de diligência na utilização dos recursos, especialmente quando o dinheiro é empregado em áreas sob controle do Hamas.

A organização também pediu que os órgãos reguladores avaliem se os mecanismos de supervisão adotados pela MSF são suficientes para reduzir esse risco.

MSF rejeita acusações e fala em campanha de desinformação

Em resposta, a Médicos Sem Fronteiras afirmou que rejeita de maneira inequívoca as acusações de que teria contratado conscientemente pessoas ligadas ao terrorismo.

A organização ressaltou que seus princípios e regras internas proíbem a participação de seus funcionários em atividades militares e que qualquer trabalhador envolvido nesse tipo de atividade representaria um risco para colegas e pacientes.

A MSF também afirmou que as alegações sobre os funcionários mencionados por Israel só chegaram ao conhecimento da organização depois que eles já haviam sido mortos.

Segundo a entidade, se as autoridades israelenses possuíam informações confiáveis sobre uma eventual participação dos funcionários em atividades militares, elas não as compartilharam com a MSF antes das mortes.

A organização declarou ainda que vem sendo alvo de uma campanha de desinformação há meses e acusou seus críticos de disseminarem deliberadamente alegações falsas.

Órgãos britânicos começam a avaliar as denúncias

A Charity Commission confirmou que recebeu as preocupações relacionadas à MSF UK e afirmou que leva muito a sério qualquer alegação de vínculos entre instituições de caridade, terrorismo ou extremismo ilegal.

O órgão disse estar avaliando as questões levantadas para determinar quais medidas, se houver, deverão ser tomadas.

A comissão também mencionou preocupações relacionadas à supervisão, por parte dos administradores da MSF UK, de relações com organizações parceiras que são acusadas de ter vínculos com grupos proscritos.

O Fundraising Regulator, por sua vez, confirmou ter recebido uma reclamação sobre a Médicos Sem Fronteiras e informou que o caso está sendo analisado de acordo com o Código de Práticas de Arrecadação de Recursos.

Até o momento, portanto, não há anúncio de uma decisão do governo britânico para proscrever a MSF.

O que significaria uma eventual proscrição?

A legislação britânica permite que a ministra do Interior proíba uma organização quando considera que ela está envolvida com terrorismo e que a medida é proporcional. Entre os critérios previstos estão cometer ou participar de atos terroristas, preparar-se para o terrorismo, promover ou incentivar o terrorismo ou estar de outra forma envolvida com esse tipo de atividade.

O precedente mais recente citado pela UKLFI é o da Palestine Action, proscrita pelo governo britânico em julho de 2025. A decisão transformou em crime pertencer ao grupo ou convidar outras pessoas a apoiá-lo, com possibilidade de pena de até 14 anos de prisão.

O caso da MSF, contudo, é substancialmente diferente no ponto central da alegação: as acusações apresentadas pela UKLFI se concentram em supostos vínculos de indivíduos e em questões de supervisão e controle financeiro, enquanto uma proscrição exige que o governo conclua, nos termos da legislação, que a própria organização está envolvida com terrorismo e que a medida é proporcional.

A avaliação agora cabe às autoridades britânicas, que deverão determinar se as denúncias apresentadas justificam uma investigação mais aprofundada e quais medidas, se alguma, devem ser adotadas.

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