Uma década depois de assumir o comando de Londres, Sadiq Khan enfrenta um cenário de opinião pública dividido. Uma nova pesquisa do YouGov mostra que 55% dos londrinos consideram que a capital se tornou um lugar pior para viver nos últimos dez anos, enquanto apenas 19% acreditam que a cidade melhorou.
O levantamento foi divulgado nesta quinta-feira, 20 de agosto, poucos meses depois de Khan completar dez anos como prefeito. Ele chegou ao cargo em 2016, derrotando o conservador Zac Goldsmith, foi reeleito em 2021 e conquistou um terceiro mandato em 2024.
Agora, enquanto avalia seu futuro político, Khan enfrenta uma pergunta cada vez mais relevante: os londrinos querem que ele permaneça no cargo por mais quatro anos?
A resposta da pesquisa é majoritariamente negativa.
Maioria quer outro candidato trabalhista em 2028
Segundo o YouGov, 56% dos moradores de Londres acreditam que Khan deveria deixar o cargo e permitir que outro candidato do Partido Trabalhista dispute a eleição para prefeito de 2028. Apenas 24% consideram que ele deveria buscar um quarto mandato.
O dado chama atenção porque a rejeição não está restrita aos adversários políticos do prefeito: 31% das pessoas que votaram em Khan na eleição de 2024 também defendem que ele não concorra novamente.
Khan ainda não confirmou oficialmente se pretende disputar um quarto mandato. Em fevereiro, porém, deu sinais de que considera continuar na disputa.
O resultado também mostra que sua avaliação pessoal é menos negativa do que a percepção sobre alguns aspectos de sua gestão. Atualmente, 39% dos londrinos têm uma opinião favorável sobre o prefeito, enquanto 48% têm uma opinião desfavorável, deixando seu índice de aprovação líquida em -9 pontos.
Transporte é o principal ponto positivo
Entre as principais áreas sob responsabilidade do prefeito, o transporte público aparece como o melhor avaliado.
48% dos londrinos dizem que Khan administra bem o setor, enquanto 43% consideram sua atuação ruim. A avaliação positiva aumentou oito pontos desde 2022.
A percepção sobre o transporte também aparece entre os poucos indicadores em que a cidade é vista de maneira mais favorável quando comparada a uma década atrás.
37% dos entrevistados afirmam que o transporte público melhorou nos últimos dez anos, contra 30% que dizem que piorou e 27% que consideram que permaneceu praticamente igual.
A rede continua enfrentando problemas e desafios, mas os números oficiais mostram que o sistema transporta milhões de passageiros diariamente e que o risco individual de sofrer ou testemunhar um crime no transporte público permanece relativamente baixo. Em 2025, a taxa registrada nos serviços da Transport for London foi de 13,6 crimes por milhão de viagens.
Segurança: números melhoram, mas percepção continua negativa
A segurança pública apresenta um quadro mais complexo.
A pesquisa mostra que 57% dos londrinos consideram ruim a atuação de Khan no combate ao crime, contra 31% que a avaliam positivamente.
Ao mesmo tempo, os dados oficiais mais recentes apontam para uma redução significativa em várias categorias de criminalidade.
No ano fiscal de 2025-2026, o crime registrado em Londres caiu 3%. Os roubos contra pessoas diminuíram 22%, os roubos com violência caíram 13%, os crimes contra veículos recuaram 14% e os homicídios tiveram redução de 7%.
Mais recentemente, dados da Polícia Metropolitana mostraram que os crimes classificados como delitos de bairro caíram 14% nos 12 meses até junho de 2026, representando mais de 35 mil ocorrências a menos. Os furtos contra pessoas diminuíram 23% e os roubos pessoais, 11%.
A capital também registrou em 2025 sua menor taxa de homicídios por habitante desde o início da série histórica, segundo dados citados pela prefeitura.
Mesmo diante desses números, a percepção dos moradores continua sendo um desafio para Khan.
Habitação é o maior problema da gestão
É, porém, na habitação que a pesquisa apresenta os números mais negativos.
Apenas 17% dos londrinos afirmam que Khan está administrando bem a questão habitacional, enquanto 66% dizem que sua atuação é ruim.
A percepção sobre a disponibilidade de moradias acessíveis é ainda mais severa: somente 5% acreditam que a situação melhorou nos últimos dez anos, enquanto 76% afirmam que piorou. Entre os eleitores que apoiaram Khan em 2024, 74% também consideram que a disponibilidade de moradias acessíveis piorou.
O resultado é particularmente problemático para o prefeito porque a construção de moradias foi apresentada por Khan, desde sua primeira campanha em 2016, como uma de suas principais prioridades.
A crise habitacional continua sendo um dos maiores desafios estruturais de Londres, onde o alto custo dos imóveis e dos aluguéis pesa fortemente sobre famílias de baixa e média renda.
Economia, moradores de rua e segurança das mulheres também pioraram
A percepção negativa não se limita à habitação.
Segundo o levantamento, os londrinos também são mais propensos a afirmar que a situação piorou nos últimos dez anos em relação a:
- economia e empregos: 69%;
- moradores de rua e falta de moradia: 62%;
- ruas comerciais e espaços públicos: 62%;
- criminalidade: 58%;
- segurança das mulheres: 50%;
- coesão comunitária: 49%;
- desigualdade: 47%;
- reputação internacional de Londres: 46%.
O quadro ajuda a explicar por que a avaliação geral da cidade permanece negativa, mesmo quando alguns indicadores objetivos apresentam melhora.
E a qualidade do ar?
A qualidade do ar também divide os londrinos.
Khan investiu grande parte de seu capital político na expansão da Zona de Emissões Ultrabaixas (ULEZ), uma das medidas mais controversas de seus mandatos.
Apesar da defesa da política pela prefeitura e dos argumentos relacionados à redução da poluição, a população não apresenta consenso sobre os resultados.
29% acreditam que a qualidade do ar melhorou na última década, enquanto 34% consideram que piorou e 24% dizem que permaneceu praticamente igual.
Khan é melhor ou pior que Boris Johnson?
Apesar das críticas, a avaliação de Khan não é inteiramente negativa.
40% dos londrinos afirmam que ele fez um bom trabalho durante seus dez anos como prefeito, enquanto 47% consideram que seu desempenho foi ruim.
Quando a comparação é feita diretamente com seu antecessor, o conservador Boris Johnson, o resultado é mais favorável a Khan: 42% dizem que Khan foi um prefeito melhor, contra 31% que consideram Johnson superior. Outros 17% acreditam que os dois tiveram desempenhos semelhantes.
A diferença diminui entre os londrinos que vivem na capital há mais tempo, indicando que a avaliação da gestão também varia de acordo com a experiência dos moradores.
Há ainda uma divisão geográfica importante.
Nos bairros da chamada Londres externa, onde a população tende a ser mais velha e tradicionalmente mais favorável aos conservadores, 51% consideram ruim o desempenho de Khan, contra 37% que o avaliam positivamente.
Na Londres interna, o cenário se inverte: 52% consideram que ele está fazendo um bom trabalho, enquanto 39% avaliam negativamente.
Dez anos depois, o futuro político de Khan está em aberto
A pesquisa do YouGov não significa necessariamente que Khan esteja condenado a perder uma eventual quarta eleição.
Outro levantamento recente, realizado pela Savanta para o Mile End Institute da Queen Mary University of London, indicou que o Partido Trabalhista continua à frente na disputa pela prefeitura e que Khan poderia vencer novamente caso decidisse concorrer.
Mas os números mostram que sua permanência no cargo não é consenso nem mesmo entre parte de seus próprios eleitores.
Khan completou uma década à frente da capital britânica, tornou-se o prefeito mais longevo da história de Londres e venceu três eleições consecutivas. Agora, porém, enfrenta uma combinação difícil: uma população que avalia negativamente a direção tomada pela cidade, uma crise habitacional persistente e uma maioria que prefere outro candidato trabalhista em 2028.
A próxima eleição para prefeito de Londres está prevista para maio de 2028. Até lá, Khan terá tempo para tentar transformar os indicadores de sua gestão — especialmente nas áreas de segurança, transporte e habitação — em uma percepção mais favorável entre os eleitores.