Partes da Inglaterra e do País de Gales receberam alertas de tempestades nesta quarta-feira (19), justamente quando a chegada de chuva mais significativa em semanas oferece um breve alívio para uma das secas mais severas enfrentadas pelo Reino Unido nos últimos meses.
O cenário, porém, é contraditório: enquanto algumas regiões finalmente registram volumes relevantes de chuva, as autoridades alertam que as precipitações desta semana não serão suficientes para encerrar a seca, que já provoca impactos sobre rios, reservatórios, agricultores e ecossistemas.
O Met Office classificou a chuva prevista para algumas áreas como a “primeira chuva significativa em muito tempo”, depois de um verão marcado por ondas de calor e períodos excepcionalmente secos.
Alertas de tempestades entram em vigor
O Met Office emitiu alertas amarelos para tempestades em partes do norte da Inglaterra e do País de Gales, com previsão de vigência entre a noite de quarta-feira e a manhã de quinta-feira.
Também foram previstos períodos de chuva forte e trovoadas em outras partes do Reino Unido.
As primeiras precipitações já chegaram durante a madrugada. Em Wisley, Surrey, foram registrados 1,6 milímetro de chuva, encerrando uma sequência de 62 dias sem precipitação significativa, a mais longa registrada em uma área do Reino Unido.
Em Billinge Hill, Merseyside, chegaram a ser registrados 23 milímetros nas 12 horas até as 6h de quarta-feira. Partes da Irlanda do Norte receberam até 13 milímetros, enquanto algumas regiões do sudoeste da Inglaterra registraram entre 6 e 10 milímetros.
Apesar desses volumes, a expectativa é de que a chuva seja bastante irregular.
Chuva não é suficiente para acabar com a seca
O problema é que meses de tempo seco reduziram significativamente os níveis de rios e reservatórios.
O País de Gales continua oficialmente em situação de seca, enquanto grande parte da Inglaterra também enfrenta condições de escassez de água. A agência de recursos naturais do País de Gales informou em 17 de agosto que a região permanecia em situação de seca devido aos impactos acumulados sobre o meio ambiente, a agricultura e a gestão do território.
Dados oficiais já mostravam a dimensão do problema. Em julho, a Inglaterra recebeu apenas cerca de 3% da precipitação média de longo prazo, enquanto os fluxos dos rios continuavam abaixo do normal em grande parte do território.
Por isso, uma sequência de chuvas será necessária para recuperar os níveis de água. Uma tempestade isolada, mesmo com volumes elevados, não consegue repor rapidamente meses de déficit.
Rio Severn enfrenta situação crítica
Enquanto a chuva chega, as autoridades avançam com medidas para evitar que a situação se agrave no rio Severn, o mais longo rio da Grã-Bretanha.
A Agência Ambiental da Inglaterra e a Natural Resources Wales solicitaram aos governos dos dois territórios uma ordem de emergência para administrar os recursos hídricos do rio.
Se aprovada, a medida obrigará quatro empresas de abastecimento — Severn Trent Water, South Staffordshire Water, Bristol Water e Hafren Dyfrdwy — a reduzir em 5% a quantidade de água retirada do Severn.
Segundo as autoridades, a redução não deverá afetar o abastecimento público.
A medida também limitaria a quantidade de água que o Canal & River Trust pode retirar do rio para abastecer o canal Gloucester e Sharpness.
Reservatório chega a 48% da capacidade
Uma das principais preocupações está no reservatório Llyn Clywedog, no País de Gales, que ajuda a manter artificialmente os níveis de água do Severn.
O reservatório está com cerca de 48% de sua capacidade e continua em queda. A ordem de emergência pretende reduzir o ritmo de liberação de água para preservar os estoques disponíveis por mais tempo.
Sem a medida, as autoridades alertam que os níveis podem cair a tal ponto que as liberações do reservatório precisem ser interrompidas, aumentando o risco de que trechos da parte superior do Severn apresentem níveis extremamente baixos ou até sequem.
Seria a primeira ordem de emergência por seca aplicada ao rio Severn desde 1989.
Risco para agricultores e vida selvagem
A preocupação não se limita ao abastecimento de água.
Os baixos níveis do Severn representam uma ameaça para os habitats naturais do rio, peixes e outras espécies, além de aumentar a pressão sobre agricultores que dependem da água para suas atividades.
A Agência Ambiental afirma que preservar cada quantidade possível de água é fundamental para manter recursos disponíveis para agricultores, vida selvagem e comunidades locais.
O órgão também espera que as empresas de abastecimento sigam seus planos de emergência e considerem medidas adicionais para reduzir o consumo caso a situação continue se deteriorando.
Reino Unido entre seca, calor e risco de enchentes
A mudança repentina para um cenário mais chuvoso também evidencia um dos desafios associados aos extremos climáticos enfrentados pelo Reino Unido.
Depois de semanas de calor intenso e solo extremamente seco, chuvas fortes podem provocar alagamentos repentinos, porque o terreno ressecado tem maior dificuldade para absorver grandes volumes de água em pouco tempo.
Ao mesmo tempo, períodos prolongados sem chuva aumentam a pressão sobre rios, reservatórios e sistemas de abastecimento.
O Met Office tem destacado justamente essa combinação de extremos: ondas de calor, secas e episódios de chuva intensa podem ocorrer no mesmo período, criando riscos diferentes para as comunidades.
A chuva desta semana, portanto, é uma boa notícia para um país que precisa desesperadamente de água — mas ainda está longe de representar o fim da seca.