A conferência anual do Reform UK terminou neste sábado, 5 de setembro, em Birmingham, marcada por uma crise envolvendo as regras de financiamento político do Reino Unido e pela crescente pressão sobre o líder do partido, Nigel Farage.
O encontro, que deveria servir para apresentar propostas e reforçar a imagem do Reform UK como uma força política em ascensão, acabou dominado por uma investigação jornalística que colocou dois integrantes importantes da direção no centro de uma controvérsia sobre possíveis tentativas de contornar as regras britânicas sobre doações estrangeiras.
Farage tentou reduzir o impacto político do episódio em seu discurso de encerramento. O líder do Reform UK afirmou que o partido não violou nenhuma lei e não recebeu dinheiro irregular, classificando as declarações feitas por seus assessores durante encontros gravados secretamente como conversas informais e exageradas.
Enquanto isso, a Polícia Metropolitana de Londres informou que está avaliando as informações divulgadas sobre uma possível violação da legislação eleitoral. Até o momento, porém, a polícia não havia confirmado a abertura de uma investigação criminal formal.
Dois assessores deixam o partido após investigação
A crise começou na quinta-feira, 3 de setembro, quando o programa jornalístico da emissora britânica Channel 4 exibiu uma investigação realizada em parceria com o grupo de jornalismo investigativo Verbatim.
As imagens mostram Dan Jukes, um dos principais assessores de Farage, e James Orr, então responsável pela área de políticas do Reform UK, conversando com pessoas que se apresentavam como potenciais financiadores americanos.
Os dois posteriormente deixaram suas funções no partido enquanto é realizada uma investigação interna.
O material gravado levantou suspeitas de que integrantes da legenda teriam discutido mecanismos para receber recursos provenientes do exterior por meio de intermediários no Reino Unido, o que poderia violar as regras eleitorais britânicas.
O Reform UK nega qualquer irregularidade e classificou a investigação como uma armadilha produzida por ativistas que se passaram por possíveis doadores.
O que as gravações revelaram?
Um dos episódios mais controversos envolve uma possível doação de £500 mil — aproximadamente R$ 3,8 milhões — apresentada por um homem que dizia ser um empresário americano interessado em apoiar o Reform UK.
Segundo a investigação, Jukes discutiu uma estrutura na qual o dinheiro poderia chegar ao partido por meio do suposto filho do financiador, apresentado como residente no Reino Unido.
O problema é que, de acordo com a legislação britânica, partidos políticos não podem receber doações de fontes estrangeiras que não sejam consideradas doadores autorizados pela legislação eleitoral.
O suposto filho era, na realidade, um jornalista infiltrado. O homem que se apresentava como seu pai também fazia parte da operação jornalística.
A investigação não demonstrou que os £500 mil tenham sido efetivamente transferidos ao Reform UK. O episódio diz respeito a uma conversa sobre uma possível doação e às formas discutidas para viabilizá-la.
As £32.500 em pesquisas eleitorais
Outro ponto considerado especialmente sensível pelas autoridades é o financiamento de três pesquisas de opinião.
Segundo a investigação, uma empresa ligada ao suposto financiador americano pagou £32.500 para custear três pesquisas realizadas para o Reform UK.
O partido teria se beneficiado dos levantamentos, que posteriormente foram divulgados publicamente e ganharam repercussão na imprensa britânica.
A legislação eleitoral do Reino Unido considera que uma doação política pode incluir não apenas uma transferência direta de dinheiro, mas também recursos ou serviços fornecidos para ajudar um partido a cobrir custos de pesquisas, estudos ou outras atividades.
A Comissão Eleitoral britânica informou que partidos precisam declarar determinadas doações recebidas e que qualquer tentativa de contornar os controles sobre financiamento político deve ser analisada pelas autoridades policiais.
Segundo a investigação jornalística, os pagamentos das três pesquisas não foram declarados pelo Reform UK à Comissão Eleitoral.
Farage tenta conter os danos
A controvérsia atingiu diretamente Nigel Farage porque o líder do Reform UK também aparece nas gravações realizadas pelos jornalistas.
Em determinado encontro, Farage teria elogiado os resultados das pesquisas e afirmado que elas haviam produzido um resultado muito positivo para o partido.
Apesar disso, Farage rejeitou a acusação de que o Reform UK tenha aceitado dinheiro estrangeiro ilegalmente.
Em entrevistas e durante a conferência em Birmingham, ele afirmou que as conversas registradas representavam apenas comentários informais e que algumas das declarações feitas pelos assessores simplesmente não correspondiam à realidade.
O líder também acusou seus adversários de tentar explorar o episódio para impedir o crescimento do partido.
“Reform UK não infringiu nenhuma lei”, foi a posição reiterada por Farage, que também afirmou que a legenda não recebeu “dinheiro duvidoso”.
Polícia e Comissão Eleitoral sob pressão
A repercussão política aumentou depois que os Liberais Democratas denunciaram o caso à Polícia Metropolitana e à Comissão Eleitoral.
O Partido Trabalhista também indicou que pretendia encaminhar o episódio às autoridades, enquanto os Verdes defenderam uma investigação.
A Polícia Metropolitana confirmou que tinha conhecimento das reportagens e que avaliaria as informações recebidas para determinar se havia elementos suficientes para outras medidas.
A Comissão Eleitoral, por sua vez, ressaltou que a legislação estabelece regras específicas para doações recebidas por partidos políticos e que possíveis tentativas de burlar essas normas são uma questão que pode ser encaminhada à polícia.
Portanto, neste momento, é importante diferenciar alegações, investigação interna e eventual investigação criminal. A existência das gravações e o afastamento dos dois dirigentes são fatos confirmados; já uma eventual violação da lei ainda precisa ser determinada pelas autoridades competentes.
Uma nova crise financeira para Farage
O episódio chega em um momento particularmente delicado para Nigel Farage.
O líder do Reform UK já enfrenta escrutínio da Comissão Eleitoral relacionado a um presente de £5 milhões recebido do empresário de criptomoedas Christopher Harborne em 2024.
Farage afirma que não houve irregularidade e sustenta que o dinheiro foi destinado a despesas relacionadas à sua segurança pessoal.
A investigação sobre esse caso permanece separada da nova controvérsia envolvendo os assessores do Reform UK. A sucessão de episódios, porém, aumenta a pressão sobre a imagem de Farage como líder de um partido que pretende romper com os padrões tradicionais da política britânica.
Uma conferência marcada por protestos
O escândalo financeiro não foi o único problema enfrentado pelo Reform UK durante o encontro em Birmingham.
A conferência também foi interrompida em diferentes momentos por protestos. Farage foi alvo de manifestações durante seu discurso, enquanto equipes de segurança retiraram pessoas que interromperam as atividades.
Um protesto chegou a interromper o discurso do vice-líder Richard Tice, quando uma faixa foi colocada no palco por manifestantes ligados ao Greenpeace UK.
Apesar da turbulência, Farage tentou apresentar a conferência como um sinal da força crescente do partido e afirmou que o Reform UK está preparado para disputar as próximas eleições gerais.
O impacto político pode ser maior do que o caso financeiro
O problema para Farage vai além da possível consequência jurídica.
O Reform UK construiu parte importante de sua imagem política sobre a promessa de romper com aquilo que seus dirigentes classificam como práticas tradicionais e desgastadas dos grandes partidos britânicos.
Por isso, acusações envolvendo financiamento político e possíveis tentativas de contornar regras eleitorais têm potencial para atingir diretamente a credibilidade da legenda.
A controvérsia também ocorre em um momento no qual o partido tenta transformar seu crescimento eleitoral em uma alternativa real ao Partido Trabalhista e ao Partido Conservador.
Para os adversários de Farage, o episódio representa uma oportunidade de questionar a capacidade do Reform UK de administrar um partido nacional e cumprir as mesmas regras que seus dirigentes afirmam querer aplicar aos demais.
Para o Reform UK, entretanto, o caso é apresentado como uma tentativa de desestabilizar uma legenda que ganhou força justamente por desafiar o sistema político tradicional.
Farage termina conferência na defensiva
O encerramento da conferência em Birmingham deixa Nigel Farage diante de uma situação politicamente incômoda.
Dois de seus principais assessores deixaram os cargos após aparecerem nas gravações, a Polícia Metropolitana está avaliando as informações apresentadas e a Comissão Eleitoral está sob pressão para analisar possíveis violações das regras de financiamento.
Ao mesmo tempo, Farage insiste que o partido não recebeu doações ilegais e que as declarações registradas pelos jornalistas não representam uma tentativa real de burlar a legislação.
A disputa agora deve sair dos corredores da conferência e chegar às instituições responsáveis pela fiscalização eleitoral e, caso sejam identificados elementos suficientes, à polícia.
Enquanto isso, o escândalo coloca uma nova questão no centro da ascensão do Reform UK: o partido que promete transformar a política britânica conseguirá convencer o eleitorado de que também está preparado para obedecer às regras que regulam o sistema político?