Uma série de ataques cibernéticos contra sistemas de refrigeração de supermercados e empresas do setor alimentar provocou prejuízos em diferentes países europeus e acendeu um alerta de segurança no Reino Unido. Os invasores conseguiram alterar remotamente os controles de temperatura de frigoríficos e congeladores comerciais, comprometendo a conservação de alimentos e obrigando estabelecimentos a descartar produtos perecíveis.
A nova onda de incidentes foi identificada na madrugada de segunda-feira, 2 de novembro, e atingiu estabelecimentos na Bélgica, Suécia, Irlanda, Países Baixos, Estônia, Luxemburgo e Finlândia. Mais de cem lojas e empresas foram afetadas, segundo levantamentos publicados pela imprensa internacional.
No Reino Unido, o Centro Nacional de Segurança Cibernética (NCSC) confirmou que algumas organizações da cadeia de abastecimento alimentar tiveram sistemas vulneráveis explorados. O diretor da instituição, Richard Horne, afirmou que as autoridades identificaram alguns casos de impacto no país e trabalharam durante a noite para alertar empresas que utilizavam tecnologias expostas a esse tipo de invasão.
O órgão, entretanto, não confirmou ataques diretos a grandes redes britânicas de supermercados. Segundo informações divulgadas pelo jornal The Guardian, algumas empresas fornecedoras de carne foram atingidas de forma indireta. Em determinados estabelecimentos, equipamentos de refrigeração começaram a descongelar ou registraram temperaturas anormais, mas não houve perda de mercadorias nesses casos.
Sistemas de refrigeração foram controlados remotamente
Os ataques exploraram vulnerabilidades em sistemas informatizados utilizados para controlar equipamentos industriais de refrigeração. Essas tecnologias permitem que técnicos e fornecedores monitorem temperaturas, ajustem configurações e realizem operações de manutenção à distância.
Ao obter acesso aos sistemas, os invasores conseguiram modificar os parâmetros de funcionamento dos equipamentos e, em alguns casos, ativar o modo de descongelamento. O resultado foi a elevação das temperaturas em câmaras frigoríficas e congeladores que deveriam manter os alimentos em condições adequadas de conservação.
Na Suécia, uma unidade da rede ICA, em Estocolmo, relatou que seus congeladores chegaram a aproximadamente 50°C. A situação foi percebida somente algumas horas depois, quando funcionários chegaram ao estabelecimento e encontraram os equipamentos comprometidos. Parte dos produtos precisou ser descartada.
Também foram registrados problemas em lojas da rede Coop. Na Bélgica, a Carrefour informou que 15 de suas aproximadamente 700 unidades foram afetadas. A Delhaize relatou problemas em várias dezenas de estabelecimentos, enquanto outras redes, como Intermarché e Spar, também identificaram ocorrências.
Na Irlanda, 13 lojas da rede SuperValu foram afetadas. Nos Países Baixos, pelo menos 17 empresas tiveram problemas com seus sistemas de refrigeração, segundo informações divulgadas por representantes do setor. Também foram identificados incidentes na Estônia, em Luxemburgo e na Finlândia.
Nova onda de ataques após incidente na França
Os acontecimentos de novembro seguem um episódio semelhante registrado na França em 12 de outubro. Na ocasião, sistemas de refrigeração de centenas de supermercados das redes Intermarché e Coopérative U foram comprometidos, provocando o aumento das temperaturas e a perda de grandes quantidades de alimentos.
A repetição dos incidentes em diferentes países levantou preocupações sobre a segurança de equipamentos industriais conectados à internet. Em muitos estabelecimentos, os sistemas de controle foram instalados há vários anos e não receberam as atualizações de segurança necessárias.
A empresa dinamarquesa Danfoss, fornecedora de tecnologias utilizadas em sistemas de refrigeração afetados, informou que trabalha com os clientes para corrigir vulnerabilidades. Segundo representantes do setor, a atualização dos programas é importante, mas pode não ser suficiente em todos os casos: algumas instalações também precisam de mudanças na forma como os equipamentos se conectam à internet.
As autoridades ainda não identificaram os responsáveis pelas operações. Não há confirmação de que os ataques tenham sido coordenados por um governo estrangeiro, grupo criminoso ou organização específica. Também não foi estabelecida oficialmente uma ligação entre todos os incidentes registrados na Europa.
Reino Unido reforça alerta sobre segurança digital
O diretor do NCSC, Richard Horne, afirmou que os ataques demonstram como falhas em equipamentos antigos podem representar riscos para setores essenciais da economia. Segundo ele, muitas organizações continuam utilizando sistemas que ultrapassaram sua vida útil, não recebem atualizações regulares ou permanecem conectados à internet sem proteção adequada.
Em entrevista à BBC Radio 4, Horne alertou que a inteligência artificial poderá ampliar significativamente a capacidade de atuação dos invasores. Com ferramentas mais avançadas, grupos criminosos e agentes hostis poderão identificar vulnerabilidades em sistemas antigos e explorá-las com maior rapidez e escala.
O alerta faz parte de uma preocupação mais ampla com a proteção de infraestruturas essenciais, que incluem redes de energia, abastecimento de água, hospitais, transportes e cadeias de distribuição de alimentos.
O NCSC também advertiu que um ataque cibernético com utilização de ferramentas de inteligência artificial contra infraestruturas críticas britânicas é altamente provável até 2028. Isso não significa, porém, que a tecnologia tenha sido utilizada nos ataques aos sistemas de refrigeração registrados nesta semana.
Governo anuncia investimentos em proteção cibernética
A segurança digital também ganhou espaço na agenda do governo britânico. Em 26 de outubro, antes da divulgação da nova onda de ataques, o Executivo anunciou investimentos em iniciativas destinadas a fortalecer a proteção tecnológica do país.
Entre as medidas estão 60 milhões de libras para o desenvolvimento do National Cyber Shield, programa que inclui um fundo de 25 milhões de libras para apoiar empresas inovadoras nas áreas de inteligência artificial e segurança cibernética.
O governo também anunciou 70 milhões de libras para a criação de um centro nacional dedicado à identificação de vulnerabilidades em tempo real, além de 24 milhões de libras para reforçar a segurança dos sistemas tecnológicos do setor público. Outra iniciativa prevê a criação de um Centro de Excelência em Segurança Cibernética e Inteligência Artificial, em Manchester.
Os investimentos fazem parte de uma estratégia mais ampla de proteção da infraestrutura britânica diante do crescimento das ameaças digitais. Não foram apresentados como uma resposta emergencial específica aos ataques contra os congeladores.
Para Richard Horne, o episódio demonstra que falhas tecnológicas negligenciadas durante anos podem se transformar em problemas de grande dimensão. Embora o impacto identificado no Reino Unido ainda seja limitado, o alerta é para que empresas de toda a cadeia alimentar revisem seus sistemas de proteção e reduzam a exposição de equipamentos industriais à internet.