Um tribunal especial da Irlanda condenou Abdullah Khan, de 24 anos, a seis anos e meio de prisão por dois ataques ocorridos em Dublin, em julho de 2025: o incêndio criminoso contra um pub pertencente ao ex-lutador de MMA Conor McGregor e o ataque com faca a dois policiais. O jovem, que se descrevia como jihadista e declarou apoio ao grupo extremista Estado Islâmico (ISIS), admitiu os oito crimes pelos quais foi acusado.
A sentença foi anunciada na segunda-feira, 2 de novembro, pelo Tribunal Criminal Especial, formado por três juízes e responsável por julgar determinados crimes graves, incluindo casos relacionados ao terrorismo. A juíza Karen O’Connor estabeleceu uma pena de sete anos e seis meses pelo crime mais grave, mas suspendeu o último ano da condenação, resultando em seis anos e meio de prisão efetiva. Todas as penas impostas pelos oito delitos serão cumpridas simultaneamente.
O tribunal determinou ainda que Khan ficará sujeito a quatro anos de acompanhamento pelo Serviço de Liberdade Condicional após deixar a prisão. A medida tem como objetivo reduzir o risco de reincidência e afastá-lo de pessoas envolvidas com comportamentos e ideologias extremistas.
Ataques ocorreram com quatro dias de diferença
O primeiro episódio aconteceu em 25 de julho de 2025, quando Khan foi até o Black Forge Inn, pub localizado em Drimnagh, no sul de Dublin, e despejou gasolina na porta da entrada antes de atear fogo com um fósforo. O estabelecimento pertence a Conor McGregor, ex-campeão do UFC e figura conhecida por suas posições políticas e declarações públicas.
Quatro dias depois, em 29 de julho, Khan atacou dois integrantes da An Garda Síochána — a polícia nacional irlandesa — durante uma patrulha na Capel Street, no centro de Dublin. Ele se aproximou dos agentes por trás e utilizou uma faca contra Garda Gary Lynch, que sofreu dois ferimentos no braço direito e precisou passar por cirurgia.
O policial ainda enfrenta dores e consequências físicas e psicológicas do ataque, além de realizar acompanhamento terapêutico. Durante o processo, foi relatado que ele não sabe se terá condições de retornar ao policiamento nas ruas. Seu colega, Garda Patrick Nevin, também foi alvo da ação e sofreu uma tentativa de agressão.
Segundo os relatos apresentados ao tribunal, Khan ignorou repetidas ordens para largar a faca e tentou atingir novamente os policiais. Os agentes conseguiram contê-lo com o uso de equipamentos de proteção, bastões e spray de pimenta. Um homem que passava pelo local também interveio e ajudou a retirar a arma das mãos do agressor.
A juíza O’Connor classificou os ataques como premeditados e destacou que a violência contra um integrante das forças de segurança era um agravante significativo. Ela elogiou a atuação dos dois policiais, ressaltando a coragem demonstrada durante a ocorrência e a preocupação em proteger outras pessoas que estavam na região.
Motivação extremista e apoio ao Estado Islâmico
Durante os interrogatórios, Khan declarou que apoiava a ideologia do Estado Islâmico e que havia desenvolvido interesse pelo jihadismo ainda jovem, após consumir conteúdos de figuras associadas ao extremismo islâmico na internet. Ele também afirmou ter sido influenciado por Musab al-Zarqawi, um dos principais nomes ligados à formação da organização que posteriormente se tornou conhecida como Estado Islâmico.
De acordo com as informações apresentadas pela investigação, Khan justificou os ataques como uma forma de protesto contra o que considerava insultos ao profeta Maomé. Ele responsabilizou McGregor por supostamente contribuir para o crescimento da extrema direita na Irlanda e afirmou que queria enviar uma mensagem ao empresário e ao governo irlandês.
Em relação ao ataque aos policiais, declarou que pretendia ferir um dos agentes para demonstrar sua revolta, mas disse que não esperava matá-lo. Também afirmou que considerava inaceitável que o Estado permitisse manifestações que, em sua avaliação, ofendessem sua religião.
Um relatório apresentado ao tribunal pelo professor Paul Gill, especialista em terrorismo e estudos de segurança, apontou que Khan agiu em nome de uma causa jihadista salafista. A avaliação indicou que sua ideologia atribuía à luta armada um papel central e incentivava a atuação individual em nome dessa causa.
A investigação também apontou que Khan fazia parte de um grupo mais amplo de pessoas com ideias extremistas. A unidade especializada da polícia irlandesa continua apurando possíveis atividades de outros indivíduos relacionados ao caso.
Condições rigorosas após a libertação
Além da pena de prisão, Khan deverá cumprir uma série de restrições durante os quatro anos de acompanhamento após sua libertação. Entre as determinações estão a obrigação de manter residência em endereço previamente aprovado, receber visitas do agente responsável pela supervisão e comparecer a todos os compromissos estabelecidos pelo serviço de liberdade condicional.
Ele também não poderá viajar para fora da Irlanda sem autorização prévia da polícia, manter contato com pessoas envolvidas em atividades extremistas, participar de manifestações ou reuniões públicas sem aprovação e frequentar locais de culto que não tenham sido previamente autorizados pelo serviço responsável.
Outras restrições proíbem o porte de facas ou armas fora de sua residência, a posse de materiais incendiários e aceleradores de fogo, além de qualquer envolvimento em atividades terroristas, divulgação pública de declarações de apoio ao terrorismo ou arrecadação de recursos para esse fim. O descumprimento das condições poderá resultar em novo período de encarceramento.
O tribunal havia solicitado avaliações psicológicas e psiquiátricas para determinar o risco de Khan voltar a cometer crimes. No entanto, segundo a juíza, ele se recusou a colaborar com os profissionais responsáveis, o que impediu a conclusão de uma avaliação de risco.
Polícia avalia possível recurso contra a sentença
A duração da pena também passou a ser questionada após a decisão. Nesta terça-feira, 3 de novembro, o jornal Irish Examiner informou que a direção da An Garda Síochána poderá avaliar a possibilidade de contestar a condenação por considerar a punição excessivamente branda.
Uma das alternativas seria solicitar ao Ministério Público irlandês que apresente recurso com base no argumento de indulgência excessiva na sentença. Até o momento, porém, não há confirmação de que essa medida tenha sido formalmente adotada.
A condenação de Khan é considerada um caso relevante no sistema judicial irlandês: segundo a imprensa local, ele é o primeiro indivíduo condenado no país por um ataque de motivação jihadista com aplicação da legislação antiterrorismo.
Ao justificar a decisão, a juíza considerou tanto a gravidade e o planejamento dos crimes quanto fatores atenuantes, como a confissão antecipada, a colaboração do réu com os investigadores e a ausência de condenações anteriores.
O caso reacendeu o debate sobre radicalização, prevenção de ameaças extremistas e segurança pública na Irlanda, especialmente diante das investigações em andamento sobre possíveis pessoas ligadas ao mesmo círculo de influência de Khan.