Candidato do PL recebe apoio de escritor que terminou em terceiro lugar no primeiro turno e ganha reforço político no Rio de Janeiro; pesquisas, porém, indicam que a transferência de votos está longe de ser automática
A disputa entre Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) entra em uma nova fase com a intensificação das alianças políticas para o segundo turno das eleições presidenciais de 2026. O senador recebeu o apoio do escritor Augusto Cury, terceiro colocado na votação de domingo, 4 de outubro, enquanto a decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre os votos de Anthony Garotinho abriu caminho para a eleição de Douglas Ruas, também do PL, ao governo do Rio de Janeiro.
Os dois movimentos representam reforços políticos para o campo bolsonarista em um momento decisivo da campanha. De um lado, Flávio tenta ampliar sua base para além dos eleitores que já o escolheram no primeiro turno. De outro, a perspectiva de um governo estadual alinhado ao PL no Rio de Janeiro pode fortalecer a articulação do partido em um dos maiores colégios eleitorais do país.
A questão central, entretanto, é saber até que ponto essas alianças conseguirão se transformar em votos. O apoio de uma liderança política ou de um candidato derrotado não significa necessariamente que seus eleitores seguirão a mesma orientação nas urnas.
Augusto Cury declara apoio a Flávio Bolsonaro
Augusto Cury, escritor e psiquiatra que concorreu à Presidência pelo Avante, anunciou apoio a Flávio Bolsonaro na quinta-feira, 8 de outubro. No primeiro turno, ele recebeu 3.448.569 votos, equivalentes a 2,89% dos votos válidos, e terminou na terceira posição, atrás de Flávio e Lula.
A adesão tem importância estratégica porque a campanha presidencial busca conquistar eleitores que escolheram alternativas aos dois candidatos classificados para a segunda etapa.
Durante a campanha do primeiro turno, Cury procurou se apresentar como uma alternativa à polarização entre os campos políticos liderados por Lula e pela família Bolsonaro. Seu apoio ao senador, portanto, representa uma mudança relevante no posicionamento para a etapa decisiva da eleição.
Para Flávio, a declaração oferece a oportunidade de dialogar com uma parcela do eleitorado que não havia escolhido diretamente o PL no primeiro turno. O desafio será convencer essas pessoas de que o candidato representa uma opção adequada para governar o país.
A transferência de votos, porém, não está garantida.
Uma pesquisa AtlasIntel/Bloomberg realizada entre 3 e 8 de outubro e divulgada nesta sexta-feira, 9 de outubro, mostrou que, entre os eleitores que haviam votado em Cury no primeiro turno, 50,4% declararam apoio a Lula, enquanto 38,9% disseram preferir Flávio Bolsonaro. O resultado indica que a posição do eleitorado de Cury, naquele levantamento, não acompanhava a orientação política anunciada pelo escritor.
Isso não significa que o cenário permanecerá igual até o dia da votação, mas mostra por que a conquista de apoios políticos não pode ser confundida com a transferência automática de votos.
Douglas Ruas fortalece o PL no Rio de Janeiro
Outro acontecimento importante para o campo bolsonarista envolve a disputa pelo governo do Rio de Janeiro.
Na quinta-feira, 8 de outubro, o TSE confirmou a rejeição do registro de candidatura de Anthony Garotinho (Republicanos) e determinou a anulação dos votos recebidos por ele no primeiro turno. A decisão foi tomada por cinco votos a dois quanto à anulação dos votos e também rejeitou, por unanimidade, o pedido de desistência do recurso apresentado por Garotinho.
Com a exclusão dos votos de Garotinho da base de cálculo dos votos válidos, Douglas Ruas ultrapassa a marca de 50% necessária para vencer a eleição estadual no primeiro turno.
Na apuração inicial, antes da decisão judicial, Ruas havia recebido 4.271.199 votos, correspondentes a 49,27% dos votos válidos. Eduardo Paes (PSD), segundo colocado, obteve 3.706.984 votos, ou 42,76%. Garotinho havia recebido 274.411 votos, equivalentes a 3,71%. A nova totalização deverá excluir esses votos do cálculo.
A Justiça Eleitoral ainda precisa concluir os procedimentos necessários para oficializar o resultado. Por isso, Ruas deve ser tratado como virtualmente eleito, e não como governador já empossado.
A perspectiva de um governo estadual do PL representa um reforço político para Flávio Bolsonaro. O Rio de Janeiro é um dos principais centros eleitorais do Brasil e tem relevância nacional para a mobilização partidária, a organização de campanhas e a articulação com lideranças regionais.
Ainda assim, a vitória estadual não determina o comportamento dos eleitores fluminenses na disputa presidencial. Os resultados das duas eleições são distintos, e o efeito político dessa mudança dependerá da capacidade dos partidos de mobilizar suas bases.
Flávio tenta ampliar vantagem sobre Lula
O resultado do primeiro turno deixou Flávio Bolsonaro à frente de Lula, mas sem a maioria absoluta dos votos válidos necessária para encerrar a disputa.
O senador recebeu 56.104.503 votos, correspondentes a 47,03% dos votos válidos. Lula obteve 53.879.538 votos, ou 45,16%. A diferença entre os dois foi de aproximadamente 2,22 milhões de votos.
Com o segundo turno marcado para 25 de outubro, as campanhas precisam conquistar eleitores que votaram em outros candidatos, além de mobilizar quem não compareceu às urnas na primeira etapa.
Além de Cury, Flávio recebeu manifestações de apoio de outras lideranças que disputaram o primeiro turno, incluindo Ronaldo Caiado (PSD). Essas adesões fazem parte de uma estratégia mais ampla para reunir setores da direita e do centro em torno de sua candidatura.
Lula, por sua vez, busca manter sua base eleitoral e atrair eleitores que rejeitam o projeto político do PL. A disputa deve envolver temas como economia, segurança pública, programas sociais, relações internacionais e os rumos da democracia brasileira.
A definição de alianças é importante, mas o resultado dependerá também das propostas apresentadas, da avaliação dos governos e da disposição dos eleitores de mudar ou manter suas escolhas.
Apoios políticos serão suficientes para decidir a eleição?
A combinação entre o apoio de Augusto Cury e a perspectiva de vitória de Douglas Ruas no Rio de Janeiro oferece a Flávio Bolsonaro novos instrumentos para ampliar sua presença política na reta final da campanha.
O apoio de Cury permite ao senador tentar dialogar com eleitores que buscaram uma alternativa à polarização no primeiro turno. Já a perspectiva de um governo estadual do PL pode fortalecer a estrutura partidária e a articulação política no Rio de Janeiro.
Mas os números disponíveis mostram que a disputa continua aberta a mudanças. A pesquisa AtlasIntel/Bloomberg indica que o eleitorado de Cury não se alinhou majoritariamente a Flávio no levantamento divulgado em 9 de outubro, apesar do apoio declarado pelo escritor.
Até que ponto os eleitores acompanharão as alianças anunciadas por seus antigos candidatos? Essa é uma das questões que podem influenciar a reta final da eleição presidencial.
A votação de 25 de outubro definirá se Flávio Bolsonaro conseguirá transformar os apoios recebidos em votos suficientes para derrotar Lula ou se o presidente conquistará apoio adicional para reverter a vantagem do primeiro turno.