Apresentação sobre preconceito contra muçulmanos ocorreu durante uma conferência sobre crimes de ódio em North Yorkshire; polícia afirma que o evento fazia parte da programação, mas não era treinamento oficial da corporação.
Policiais de North Yorkshire participaram de uma palestra sobre preconceito contra muçulmanos na qual declarações de Nigel Farage, líder do Reform UK, foram apresentadas em comparação com um caso de crime racialmente agravado.
A apresentação ocorreu durante uma conferência sobre crimes de ódio realizada em York, em 2025, e foi conduzida por Abbas Najib, diretor-executivo da organização beneficente Better Communities Bradford. O conteúdo, revelado pelo jornal The Telegraph, incluía uma discussão sobre declarações de políticos e sobre a maneira como discursos públicos podem influenciar percepções e atitudes em relação a minorias religiosas.
A Polícia de North Yorkshire confirmou que a apresentação ocorreu, mas fez uma distinção importante: segundo a corporação, o evento integrava a programação da conferência e não constituía treinamento oficial ministrado por um funcionário ou fornecedor de treinamento da polícia. A força afirmou também que considera importante oferecer formação sobre diferentes religiões, culturas e comunidades para que seus agentes possam atuar de maneira imparcial.
Declarações de Farage foram comparadas a um crime
De acordo com o material apresentado durante a sessão, os participantes assistiram a uma entrevista concedida por Farage em 2024 na qual o político afirmou que um número crescente de pessoas não compartilhava dos valores britânicos.
Na entrevista, Farage citou muçulmanos e participantes de manifestações pró-Palestina em Londres entre os grupos que, segundo ele, deveriam ser considerados nesse debate.
A apresentação posteriormente pediu aos participantes que refletissem sobre a relação entre as declarações de Farage e um episódio de abuso racial contra um motorista de ônibus muçulmano ocorrido em 2024.
Segundo a reportagem, o palestrante perguntou aos policiais quem teria causado mais danos entre as duas situações e sugeriu uma comparação com o tratamento que seria dado a uma declaração semelhante contra judeus.
O objetivo declarado do Project Unity é justamente discutir como determinadas mensagens públicas podem contribuir para preconceitos contra grupos religiosos ou étnicos. A organização afirma que suas oficinas procuram combater generalizações e melhorar a compreensão entre diferentes comunidades.
Debate sobre os valores britânicos
Outro eixo da apresentação foi a relação entre os valores associados ao islamismo e os chamados valores britânicos.
O material utilizado na sessão argumentava que os princípios fundamentais do islamismo poderiam ser compatíveis com valores como democracia, Estado de Direito, respeito, tolerância e liberdade individual.
Esses princípios fazem parte da definição de valores britânicos utilizada pelo governo do Reino Unido em políticas de integração e prevenção do extremismo.
A apresentação também discutiu afirmações de que mulheres seriam necessariamente oprimidas pelas regras do islamismo e procurou contestar o que os organizadores consideram generalizações sobre os muçulmanos.
Em uma das atividades, os participantes também assistiram a um trecho de um programa apresentado por Matthew Goodwin, comentarista político e ex-candidato parlamentar do Reform UK, no qual era discutida a percepção dos britânicos sobre a compatibilidade entre islamismo e valores nacionais.
Marchas pró-Palestina também entraram na discussão
A apresentação abordou ainda as manifestações pró-Palestina realizadas no Reino Unido após o início da guerra entre Israel e Hamas.
Najib criticou o uso da expressão “marchas de ódio” para caracterizar os protestos e citou políticos que haviam feito críticas às manifestações, entre eles Suella Braverman e Robert Jenrick.
Jenrick, que posteriormente deixou o Partido Conservador e passou ao Reform UK, havia criticado manifestações realizadas em Londres em 2023 depois que integrantes do Hizb ut-Tahrir foram filmados entoando palavras associadas à jihad durante um protesto. O grupo foi posteriormente proibido pelo governo britânico sob as leis antiterrorismo.
A discussão apresentada aos policiais, portanto, combinou temas relacionados a preconceito contra muçulmanos, integração, imigração, manifestações sobre o conflito no Oriente Médio e declarações de políticos britânicos.
Pesquisa sobre muçulmanos e Hamas
Farage também havia mencionado em sua entrevista uma pesquisa segundo a qual 46% dos muçulmanos britânicos declararam simpatia pelo Hamas.
Esse número merece contexto. A pesquisa foi realizada pela JL Partners entre fevereiro e março de 2024 com 1.000 muçulmanos britânicos e encomendada pela Henry Jackson Society. O resultado foi amplamente divulgado na época, mas também recebeu críticas relacionadas à formulação das perguntas e à interpretação dos resultados. O Religion Media Centre, por exemplo, registrou tanto os resultados quanto as críticas feitas por pesquisadores e organizações ao enquadramento utilizado.
Assim, a cifra não deve ser apresentada como uma medida atual da opinião dos muçulmanos britânicos em 2026, mas como o resultado de uma pesquisa específica realizada em 2024.
Projeto recebeu financiamento para combater preconceito
O Project Unity é uma iniciativa da Better Communities Bradford voltada à realização de oficinas sobre preconceito contra muçulmanos e integração comunitária.
O programa oferece atividades sobre temas como “mitos e equívocos sobre o islamismo”, islamismo e extremismo, terrorismo e segurança, supostas “gangues de exploração”, situação das mulheres e narrativas políticas e midiáticas.
Segundo material divulgado pelo próprio projeto, as oficinas são gratuitas e podem ser realizadas em escolas, universidades, organizações públicas, instituições de caridade e outros espaços.
As contas da Better Communities Bradford registram £35.790 em financiamento para o Project UNITY no período financeiro mais recente disponível.
A organização afirma que sua atuação não tem objetivo partidário. Em declaração sobre o projeto, Najib disse que a iniciativa procura combater generalizações “onde quer que apareçam” e que a entidade não pretende tomar partido político.
Polícia nega que tenha sido treinamento oficial
A Polícia de North Yorkshire afirmou que considera importante oferecer formação sobre diferentes religiões e comunidades e que esse tipo de preparação deve abordar temas como identidade, pertencimento, crimes de ódio, raça, etnia, cultura e nacionalidade.
A corporação, contudo, contestou a caracterização de algumas reportagens sobre seus programas de formação e ressaltou que o evento em questão não deve ser confundido com um curso oficial ministrado pela força.
Segundo a polícia, o palestrante não era funcionário da corporação nem seu fornecedor de treinamento. A apresentação fazia parte da programação da conferência sobre crimes de ódio.
Documentos públicos da própria estrutura de supervisão de North Yorkshire confirmam a participação de Abbas Najib na conferência de 2025, com uma apresentação intitulada “Faith, fear and fabrication: dismantling the roots of anti-muslim hate”, sobre as origens do preconceito contra muçulmanos.
A corporação também afirmou que seu treinamento de conscientização cultural abrange diferentes religiões e crenças e que seu objetivo é garantir que os agentes possam atuar sem favorecimento ou discriminação.
Debate sobre liberdade de expressão e combate ao preconceito
O episódio ocorre em meio a um debate mais amplo no Reino Unido sobre os limites entre o combate ao preconceito religioso e a proteção da liberdade de expressão, especialmente quando críticas a uma religião ou a determinadas posições políticas são apresentadas em ambientes institucionais.
Para organizações que combatem o preconceito contra muçulmanos, iniciativas como o Project Unity são uma forma de ajudar profissionais a reconhecer generalizações e compreender como determinadas mensagens podem afetar comunidades.
Já críticos da abordagem questionam se conteúdos desse tipo podem ultrapassar a linha entre combater discriminação e apresentar determinadas posições políticas ou críticas ao islamismo de maneira inadequadamente negativa.
No caso da conferência de North Yorkshire, a questão central permanece justamente nessa distinção: a apresentação ocorreu em um evento voltado ao combate aos crimes de ódio, mas a polícia afirma que o conteúdo não representava uma posição oficial da corporação.
O episódio também mostra a dificuldade enfrentada por instituições públicas ao tentar equilibrar duas responsabilidades: combater efetivamente o preconceito contra grupos religiosos e, ao mesmo tempo, preservar um ambiente no qual críticas a religiões, partidos e políticos possam ser discutidas sem que isso seja automaticamente tratado como hostilidade contra uma comunidade.