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Usuários relatam internet lenta, chamadas que não completam e mensagens que não são entregues; operadores apontam falta de capacidade, remoção de antenas e dificuldades no planejamento urbano

Para uma cidade que concentra milhões de trabalhadores, moradores e visitantes e depende cada vez mais de serviços digitais, ficar sem uma conexão móvel confiável pode significar muito mais do que alguns minutos sem conseguir enviar uma mensagem.

Em diferentes áreas de Londres, usuários relatam aumento de problemas com celulares, incluindo internet móvel lenta, chamadas que não completam, mensagens que demoram a ser entregues e conexões que funcionam em determinados horários, mas praticamente desaparecem nos períodos de maior movimento.

Testes realizados recentemente em áreas centrais da capital identificaram problemas particularmente evidentes em locais como Liverpool Street e Covent Garden, onde o desempenho da rede pode piorar durante os horários de pico e voltar a níveis normais quando o movimento diminui.

O problema não tem uma única causa. Especialistas e empresas do setor apontam uma combinação de aumento da demanda, capacidade insuficiente em áreas congestionadas, perda de locais onde existem antenas e dificuldades para instalar novas estruturas em uma cidade que está em constante transformação.

Ter sinal no celular não significa ter uma boa conexão

Uma das principais razões para a frustração dos usuários é que as barras exibidas no celular não contam toda a história.

Um aparelho pode mostrar quatro ou cinco barras de sinal e, ainda assim, apresentar uma conexão extremamente lenta.

Isso acontece porque cobertura e capacidade são problemas diferentes.

A cobertura indica se o telefone consegue se conectar a uma estação da rede. Já a capacidade está relacionada à quantidade de dados que aquela infraestrutura consegue processar simultaneamente.

Em uma região relativamente vazia, uma antena pode atender os usuários sem dificuldades. Mas quando milhares de pessoas chegam ao mesmo local para trabalhar, fazer compras ou utilizar o transporte público, a demanda aumenta rapidamente.

O resultado pode ser uma situação aparentemente contraditória: o celular continua mostrando sinal forte, mas a internet fica lenta, chamadas não são completadas e mensagens podem levar muito tempo para chegar.

Esse problema é particularmente relevante em áreas de grande circulação, como centros comerciais, estações ferroviárias e regiões de escritórios.

A própria London Infrastructure Framework, documento de planejamento da capital, identifica uma lacuna crescente no desempenho das redes móveis, com problemas de cobertura interna e capacidade insuficiente em centros comerciais, áreas de grande circulação e regiões próximas a transportes. O documento também aponta a perda de locais para antenas devido à reconstrução de edifícios como um dos fatores que reduzem a confiabilidade das redes.

O que acontece quando um prédio com antenas é demolido?

Outro problema está literalmente acima da cabeça dos londrinos.

Grande parte da infraestrutura móvel da capital depende de antenas instaladas em edifícios. Quando um imóvel entra em processo de reforma, reconstrução ou demolição, as operadoras podem ser obrigadas a retirar seus equipamentos.

A Virgin Media O2 afirma que operadores podem receber uma notificação para deixar o local, obrigando a retirada da infraestrutura em até 18 meses.

O problema é que encontrar e aprovar um novo local pode demorar mais do que esse prazo.

Segundo a empresa, atualmente leva mais de dois anos, em média, para substituir uma estação, enquanto alguns locais permanecem fora de operação por mais de sete anos.

Isso cria uma espécie de intervalo na cobertura.

A antena antiga precisa ser retirada porque o edifício será transformado, mas a nova estrutura ainda não está disponível. Durante esse período, moradores, trabalhadores e pessoas que passam pela região podem experimentar uma piora significativa do serviço.

A situação é ainda mais complicada em áreas densamente construídas, onde existem poucos locais alternativos para instalar equipamentos.

Novos edifícios podem aumentar a demanda e, ao mesmo tempo, reduzir o sinal

Existe ainda uma segunda consequência do crescimento imobiliário.

Um novo edifício não apenas pode bloquear ou substituir uma estrutura existente. Ele também pode colocar centenas ou milhares de novas pessoas em uma área que já possui uma rede próxima do limite de sua capacidade.

Em outras palavras, a cidade pode ganhar novos moradores e trabalhadores sem que a infraestrutura móvel seja ampliada na mesma velocidade.

A Virgin Media O2 afirma que muitos projetos imobiliários são aprovados sem que seu impacto sobre a conectividade móvel seja suficientemente considerado desde o início. A empresa defende que os novos empreendimentos deveriam incorporar essa necessidade ao planejamento, permitindo que a infraestrutura necessária fosse instalada antes que surgissem problemas.

O setor também reclama das diferenças entre os procedimentos de planejamento das autoridades locais.

Londres é administrada por 32 distritos e pela City of London, e as decisões sobre determinados projetos de infraestrutura passam por diferentes autoridades e processos de planejamento. Para as operadoras, essa fragmentação pode dificultar a criação rápida de novos pontos de cobertura.

O problema pode afetar quem depende do celular para trabalhar

A dificuldade de conexão não é apenas uma questão de conveniência.

Para trabalhadores que dependem do telefone para receber pedidos, responder clientes, acessar sistemas, realizar pagamentos ou participar de reuniões, uma rede congestionada pode significar perda de tempo e produtividade.

O mesmo vale para pequenos negócios, entregadores, motoristas e profissionais que trabalham fora de um escritório.

Um relatório citado recentemente pelo The Times estima que os problemas provocados pela retirada de infraestrutura móvel em Londres podem representar uma perda de produção econômica de £7,4 milhões por dia. O cálculo, porém, é uma estimativa encomendada pelo setor e não representa uma medição independente de todas as perdas econômicas provocadas pela conectividade deficiente.

A mesma análise estima que Londres poderia perder cerca de £2,7 bilhões por ano em produção econômica relacionada a problemas provocados pelas chamadas notificações para retirada de equipamentos.

Operadoras dizem estar investindo bilhões

As empresas de telecomunicações rejeitam a ideia de que a piora do serviço seja resultado simplesmente de falta de investimento.

A Mobile UK, associação que representa as principais operadoras britânicas, afirma que as empresas já investiram bilhões de libras na modernização das redes de Londres.

A Virgin Media O2, por exemplo, afirma que investirá mais de £700 milhões em sua rede móvel neste ano, mas argumenta que parte desse investimento perde eficiência quando os equipamentos existentes precisam ser retirados e os processos para substituí-los são demorados.

A empresa também afirma que Londres possui atualmente menos de sete locais 5G para cada 10 mil habitantes, número que considera insuficiente diante da demanda da capital.

Por isso, o setor vem pressionando o governo por mudanças nas regras de planejamento, com o objetivo de facilitar a instalação de novas antenas e acelerar a aprovação de locais alternativos.

Londres também está ampliando a rede

Apesar das reclamações, a situação não significa que a capital esteja paralisada.

A Prefeitura de Londres vem trabalhando para ampliar a infraestrutura digital e aumentar a capacidade das redes móveis. O programa Connected London prevê, entre outras medidas, o uso de pontos de ônibus, semáforos e postes de câmeras de segurança para instalar infraestrutura de conectividade em áreas onde o sinal é mais fraco.

A expansão também chegou ao metrô.

Em junho, a Transport for London informou que cerca de 60% das estações subterrâneas já tinham cobertura móvel e que o objetivo era levar o serviço a toda a rede até o fim de 2026. A expansão inclui tanto estações quanto trechos de túneis e envolve as principais operadoras móveis.

A tecnologia de pequenas células também vem sendo utilizada em áreas de grande circulação, como King’s Cross, Waterloo, London Bridge, Old Street, The Shard e Hyde Park Corner, para aumentar a capacidade onde existe uma concentração particularmente alta de usuários.

O desafio é acompanhar uma cidade em transformação

O problema de Londres, portanto, não pode ser explicado simplesmente pela falta de sinal.

Em algumas regiões, a dificuldade está na capacidade da rede para atender milhares de usuários simultaneamente. Em outras, está relacionada à cobertura e à perda de locais onde estavam instaladas antenas. E, em determinadas áreas, os dois problemas podem ocorrer ao mesmo tempo.

Enquanto a capital continua construindo apartamentos, escritórios, centros comerciais e grandes empreendimentos, a infraestrutura de telecomunicações precisa acompanhar o crescimento da população e do fluxo diário de pessoas.

O governo britânico afirma que está revisando as regras de planejamento e as condições do mercado de telecomunicações para facilitar investimentos e acelerar a construção da infraestrutura necessária. A meta declarada pelo governo é alcançar uma cobertura 5G independente de maior qualidade em todas as áreas povoadas do Reino Unido até 2030.

Para quem vive ou trabalha em Londres, porém, a questão é mais imediata: em uma cidade cada vez mais dependente do celular para trabalhar, viajar, pagar, pedir serviços e se comunicar, ter barras de sinal na tela não é suficiente se a rede não consegue entregar uma conexão quando milhares de pessoas precisam dela ao mesmo tempo.

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