Primeira visita oficial de um papa à França em quase duas décadas reúne diplomacia, religião e grandes debates sobre inteligência artificial, dignidade humana, paz e futuro da Europa. Cerca de 15 mil agentes serão mobilizados em Paris.

O papa Leão XIV iniciou nesta sexta-feira, 25 de setembro, sua primeira visita oficial à França, quase duas décadas depois da última visita de um pontífice ao país. Aos 71 anos, o primeiro papa nascido nos Estados Unidos e com nacionalidade peruana desembarca para uma viagem apostólica de quatro dias, com passagens por Paris, Lourdes e Metz.

A visita, que se estenderá até 28 de setembro, mobiliza um gigantesco aparato de segurança e deve reunir centenas de milhares de pessoas. Somente em Paris, cerca de 15 mil agentes estarão envolvidos no dispositivo de segurança nos dias 25 e 26, entre policiais, gendarmes, forças móveis e militares. As autoridades esperam aproximadamente um milhão de fiéis e visitantes durante os dois primeiros dias.

O tamanho da operação também elevou o custo previsto da viagem. O orçamento, inicialmente estimado em cerca de 15 milhões de euros, chegou a 27 milhões de euros, segundo a organização da visita, diante do aumento da participação esperada e da necessidade de ampliar estruturas como barreiras, sistemas de som e telas para acompanhar as celebrações.

Inteligência artificial no centro do discurso de Leão XIV

No primeiro dia em Paris, a tecnologia ocupou um lugar central na agenda do pontífice. A inteligência artificial é um dos temas recorrentes do pontificado de Leão XIV e também está no centro de sua primeira encíclica, Magnifica Humanitas, publicada em maio.

O documento defende que o desenvolvimento tecnológico seja orientado pela dignidade humana, pelo bem comum e pela responsabilidade. O texto também alerta para os riscos de concentrar poder nas mãos de poucos grupos que controlam dados, infraestrutura digital e sistemas de inteligência artificial.

Na encíclica, Leão XIV sustenta que a inteligência artificial não deve substituir a consciência e a responsabilidade humanas. O pontífice também afirma que decisões irreversíveis, especialmente aquelas relacionadas à vida e à morte, não devem ser delegadas a sistemas artificiais.

A preocupação dialoga com posições que o presidente francês, Emmanuel Macron, também vem defendendo. Macron tem afirmado que a inteligência artificial deve permanecer a serviço das pessoas e que o desenvolvimento tecnológico precisa ser acompanhado por regras, transparência e proteção da criação humana.

A visita, portanto, coloca Vaticano e governo francês diante de um tema que ultrapassa as diferenças religiosas e políticas: como estabelecer limites para uma tecnologia que já interfere em trabalho, informação, educação, segurança e relações sociais.

Um encontro entre posições diferentes sobre a vida

A passagem de Leão XIV pela França também ocorre em um momento de profundas diferenças entre a doutrina da Igreja Católica e algumas decisões recentes do Estado francês.

A França incluiu o direito ao aborto em sua Constituição em 2024. Em 2026, o Parlamento aprovou definitivamente uma legislação sobre o direito à ajuda para morrer, posteriormente promulgada após a análise do Conselho Constitucional. A nova legislação estabelece critérios específicos para o acesso ao procedimento.

A posição do Vaticano permanece contrária à ajuda para morrer e a outras práticas que, segundo a doutrina católica, comprometem a proteção da vida humana. Leão XIV também se posiciona contra a gestação por substituição, determinadas intervenções genéticas e a comercialização de órgãos.

A questão da vida aparece, assim, como um dos pontos de tensão entre a visão defendida pelo pontífice e uma França marcada por uma forte tradição de Estado laico.

Segurança reforçada para uma visita de grandes proporções

A dimensão popular da viagem levou as autoridades francesas a tratar a visita como um grande evento de segurança.

Em Paris, o governo espera uma concentração excepcional de pessoas durante os dois primeiros dias. O Ministério do Interior informou que os 15 mil integrantes do dispositivo estarão mobilizados nos dias 25 e 26, enquanto a prefeitura adotará restrições temporárias de circulação e medidas específicas de controle de acesso.

A programação inclui a presença do papa na Unesco, encontros com autoridades francesas, uma celebração na Catedral de Notre-Dame de Paris e uma grande vigília com jovens no Stade de France, em Saint-Denis.

A organização chegou a prever cerca de 80 mil jovens entre 17 e 35 anos no estádio. No dia seguinte, uma grande missa ao ar livre na região da Place de la Concorde e da Champs-Élysées deverá reunir entre 500 mil e 600 mil pessoas, segundo as estimativas mais recentes divulgadas pelas autoridades e pela Igreja francesa.

Lourdes e o encontro com vítimas de abusos

Depois de Paris, Leão XIV seguirá para Lourdes, onde a agenda religiosa ganhará maior peso.

O pontífice participará de momentos de oração no santuário e celebrará uma missa ao ar livre no domingo, 27 de setembro. A organização espera aproximadamente 150 mil pessoas para a celebração.

Lourdes também será palco de um dos encontros mais delicados da viagem: uma reunião privada com sete pessoas que foram vítimas de abusos sexuais cometidos no contexto da Igreja Católica.

O encontro acontece em um país profundamente marcado pelas revelações sobre abusos cometidos ao longo de décadas. Um relatório independente publicado em 2021 estimou que cerca de 216 mil menores sofreram abusos de membros do clero francês entre 1950 e 2020, número que chega a aproximadamente 330 mil quando são considerados também casos envolvendo leigos ligados a instituições da Igreja.

A reunião em Lourdes ocorre ainda em meio às discussões sobre a resposta da Igreja às vítimas e sobre a necessidade de medidas estruturais para enfrentar os abusos. O Vaticano decidiu divulgar oficialmente o encontro, diferentemente do que ocorreu durante a visita de Leão XIV à Espanha, quando uma reunião semelhante foi mantida em sigilo.

A última etapa será dedicada à Europa e à paz

A viagem terminará em Metz, no nordeste francês, na segunda-feira, 28 de setembro.

Ali, o papa participará de encontros dedicados ao diálogo inter-religioso e ao futuro europeu, com um discurso centrado nas raízes da Europa, na paz e na unidade. A programação será encerrada com uma missa na Catedral de Saint-Étienne, diante de um público estimado em 12 mil pessoas.

A escolha de Metz dá à etapa final uma dimensão particularmente política e continental. Em vez de se limitar a uma visita religiosa, a viagem procura colocar temas como paz, unidade europeia, tecnologia e dignidade humana no centro do diálogo entre a Igreja e as instituições.

Uma viagem que vai além da religião

A visita de Leão XIV à França ocorre em um momento de grande atenção internacional ao papel da inteligência artificial, às transformações sociais provocadas pela tecnologia e aos debates sobre vida e morte.

Ao mesmo tempo, o pontífice chega a um país que combina forte tradição secular com uma programação religiosa capaz de mobilizar centenas de milhares de pessoas.

Entre Paris, Lourdes e Metz, a viagem reunirá questões que vão muito além da agenda pastoral: os limites da inteligência artificial, a proteção da dignidade humana, a resposta da Igreja aos abusos sexuais, a paz e o futuro do projeto europeu.

Quase 20 anos depois da última visita papal oficial à França, Leão XIV encontra um país diferente daquele visitado por seus antecessores. E sua passagem pelo território francês será observada não apenas pelo número de fiéis nas ruas, mas também pelo peso das mensagens que pretende levar a uma Europa diante de profundas transformações tecnológicas, sociais e políticas.

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