Inflação britânica acelera pelo segundo mês consecutivo, pressionada principalmente pelos preços dos combustíveis e das passagens aéreas. Em outubro, o teto das tarifas de energia também subirá 4%, elevando em £60 a conta anual de um consumidor típico.
A inflação no Reino Unido voltou a acelerar em agosto e chegou a 3,1% em 12 meses, segundo os dados divulgados nesta quarta-feira, 16 de setembro, pelo Escritório Nacional de Estatísticas (ONS). O índice ficou acima dos 2,9% registrados em julho e interrompe uma sequência de alívio observada no primeiro semestre.
O resultado representa o maior nível em cinco meses e mantém a inflação britânica significativamente acima da meta de 2% estabelecida pelo Banco da Inglaterra.
A aceleração, entretanto, não foi generalizada entre todos os componentes da inflação. O principal impulso veio do setor de transportes, especialmente dos combustíveis para veículos, enquanto as passagens aéreas também contribuíram para a alta.
Combustíveis pressionam o índice
O impacto mais evidente aparece nos postos de combustíveis.
Segundo a ONS, o preço médio da gasolina aumentou 9,1 pence por litro entre julho e agosto, chegando a 161,3 pence por litro. Foi o maior preço médio registrado desde novembro de 2022.
O diesel teve uma alta ainda maior no período, de 14,2 pence por litro, alcançando uma média de 181,8 pence por litro.
Como consequência, os preços dos combustíveis para veículos ficaram 23% mais altos em agosto do que um ano antes, ante uma alta anual de 15,5% registrada em julho.
O aumento dos combustíveis está relacionado à forte elevação dos preços internacionais do petróleo em meio ao conflito no Oriente Médio e às preocupações com o abastecimento mundial de energia.
Passagens aéreas também ficaram mais caras
Os combustíveis não foram o único fator relacionado aos transportes.
A ONS informou que as tarifas aéreas aumentaram 6,2% entre julho e agosto, uma alta superior aos 2,1% registrados no mesmo período do ano anterior.
O principal impacto veio das rotas de longa distância. Segundo a agência, os preços dessas viagens aumentaram em agosto, enquanto haviam registrado queda no mesmo mês de 2025.
A combinação entre combustíveis mais caros e passagens aéreas pressionou o setor de transportes e contribuiu significativamente para a aceleração da inflação britânica.
Inflação volta a se afastar da meta de 2%
A trajetória dos últimos meses mostra uma reversão parcial do movimento observado no primeiro semestre.
A inflação medida pelo índice de preços ao consumidor chegou a 2,6% em junho, antes de subir para 2,9% em julho e 3,1% em agosto.
Isso significa que, em apenas dois meses, o índice avançou meio ponto percentual.
Apesar da alta da inflação geral, alguns indicadores acompanhados pelo Banco da Inglaterra oferecem uma leitura menos pressionada. A inflação subjacente, que exclui energia, alimentos, álcool e tabaco, permaneceu em 2,6% em agosto, enquanto a inflação dos serviços ficou em 3,4%.
Essa diferença é importante porque indica que parte significativa do novo choque inflacionário está concentrada em componentes mais diretamente afetados pelos preços de energia e transporte.
Conta de energia sobe em outubro
Para as famílias britânicas, a pressão sobre o orçamento doméstico ganhará outro componente a partir de outubro.
O regulador britânico de energia, Ofgem, confirmou que o teto das tarifas para consumidores em tarifas padrão aumentará 4% entre 1º de outubro e 31 de dezembro de 2026.
Para um consumidor típico que utiliza gás e eletricidade e paga por débito automático, o valor anual de referência passará de £1.663 para £1.723.
Na prática, isso representa um aumento de £60 por ano, ou aproximadamente £5 por mês, caso o consumo permaneça no padrão utilizado para o cálculo.
O valor não é uma cobrança fixa para todos os consumidores. O teto da Ofgem limita as tarifas unitárias e as cobranças fixas que os fornecedores podem aplicar aos clientes em tarifas padrão. A conta efetivamente paga depende do consumo de cada residência.
Além disso, cerca de 35% dos domicílios, aproximadamente 11 milhões de famílias, estão em tarifas fixas e não serão diretamente afetados por essa alteração específica do teto.
Pressão sobre as famílias antes do inverno
A nova alta chega justamente no início do período em que o consumo de energia costuma ganhar importância para os lares britânicos.
Embora o aumento de £60 seja uma referência anual, o reajuste ocorre a partir de outubro, quando as famílias começam a enfrentar temperaturas mais baixas e maior necessidade de aquecimento.
A pressão sobre o orçamento doméstico também ocorre em um cenário de aumento dos preços dos alimentos. Dados divulgados nesta semana pela Worldpanel apontaram que a inflação dos produtos de supermercado chegou a 2,3% nas quatro semanas até 6 de setembro, acima dos 2,1% registrados no período anterior.
O resultado amplia a preocupação com o custo de vida, especialmente para famílias que precisam administrar simultaneamente gastos com alimentação, transporte, energia e moradia.
Inflação pode se aproximar de 4% em 2027
A perspectiva para os próximos meses permanece dependente principalmente da evolução dos preços internacionais de energia e dos efeitos do conflito no Oriente Médio.
Uma previsão citada pela Reuters, elaborada pelo Goldman Sachs, indica que a inflação britânica pode atingir um pico de 3,9% no início de 2027, antes de começar a desacelerar.
O cenário também será acompanhado de perto pelo Banco da Inglaterra, que precisa equilibrar o combate à inflação com os sinais de enfraquecimento do mercado de trabalho e da atividade econômica.
Os dados divulgados nesta semana mostraram que o crescimento dos salários também perdeu força. Os ganhos semanais médios, excluindo bônus, aumentaram 3,5% nos três meses até julho, enquanto o número de trabalhadores registrados em folha de pagamento caiu em agosto.
Para os consumidores britânicos, entretanto, a combinação de inflação acima da meta, combustíveis mais caros e aumento das tarifas de energia significa que a pressão sobre o custo de vida continuará sendo um dos principais desafios nos próximos meses.