Falha técnica no sistema de controle de tráfego aéreo provocou uma onda de cancelamentos e atrasos em aeroportos de todo o Reino Unido; impacto deve continuar nesta quarta-feira

O caos tomou conta dos aeroportos do Reino Unido nesta terça-feira, 8 de setembro, depois que uma falha técnica no sistema de processamento de voos da empresa responsável pelo controle do tráfego aéreo provocou centenas de cancelamentos e milhares de atrasos.

Os aeroportos de Heathrow e Gatwick, em Londres, estiveram entre os mais afetados. Ao longo do dia, o problema atingiu também Stansted, London City e Luton, além de importantes aeroportos de outras regiões do país, como Manchester e Birmingham.

Embora a empresa responsável pelo controle aéreo tenha conseguido corrigir a falha, o restabelecimento do sistema não foi suficiente para normalizar imediatamente as operações. O grande número de aeronaves e tripulações que ficaram fora de suas posições habituais criou um efeito dominó que deverá continuar afetando os passageiros nesta quarta-feira.

Segundo dados do site de acompanhamento de voos Flightradar24, mais de 1.000 voos haviam sido cancelados nos aeroportos britânicos até a noite de terça-feira. A interrupção também provocou um número elevado de atrasos e afetou conexões internacionais em diferentes partes da Europa.

Falha atingiu o sistema de processamento de voos

A interrupção começou durante a tarde, quando a National Air Traffic Services, conhecida como NATS, informou que estava investigando um problema técnico que afetava as partidas em diversos aeroportos.

A NATS é responsável pelos serviços de controle de tráfego aéreo em 15 aeroportos do Reino Unido. Inicialmente, a empresa afirmou que seus engenheiros estavam trabalhando para identificar a origem da falha.

Posteriormente, a companhia confirmou que o problema estava localizado em seu sistema de processamento de voos, utilizado para administrar informações fundamentais para a operação do tráfego aéreo.

Por volta das 16h40, a NATS informou que havia implementado uma correção e que o sistema começava a se recuperar. Mais tarde, a empresa afirmou que a operação havia voltado ao normal, mas reconheceu que a recuperação da rede levaria tempo devido ao acúmulo de voos afetados.

A NATS afirmou ainda que a falha desta terça-feira não era a mesma registrada em episódios anteriores de interrupção do sistema.

O diretor-executivo da empresa, Martin Rolfe, pediu desculpas aos passageiros afetados e afirmou que a NATS assumia a responsabilidade pelo ocorrido. Segundo ele, embora falhas desse tipo sejam relativamente raras, o problema provocou um grande impacto no sistema de aviação.

Heathrow suspendeu chegadas durante a noite

O aeroporto de Heathrow, o principal terminal aéreo de Londres e um dos mais movimentados do mundo, foi um dos pontos mais afetados.

No início da noite, o aeroporto informou que as partidas haviam sido retomadas, mas decidiu suspender as chegadas durante o restante da terça-feira para garantir a segurança dos passageiros e das equipes.

Heathrow orientou os passageiros a verificarem diretamente com suas companhias aéreas a situação dos voos antes de se dirigirem ao aeroporto. O terminal opera normalmente com cerca de 1.300 pousos e decolagens por dia, o que ajuda a dimensionar o impacto de uma interrupção dessa magnitude.

A paralisação provocou cenas de tensão dentro dos terminais. Passageiros relataram longas esperas, falta de informações sobre os voos e dificuldades para encontrar alternativas de viagem.

Alguns viajantes permaneceram durante horas dentro das aeronaves, aguardando autorização para desembarcar ou receber informações sobre o futuro de seus voos.

Gatwick também enfrenta uma onda de cancelamentos

Gatwick, o segundo grande aeroporto de Londres, também sofreu fortes impactos.

O problema afetou especialmente as partidas, enquanto centenas de passageiros aguardavam informações sobre possíveis cancelamentos, remarcações e reembolsos.

Segundo análises do Flightradar24, Heathrow e Gatwick estavam entre os aeroportos mais afetados pela quantidade de aeronaves que ficaram fora de suas posições habituais.

Ian Petchenik, diretor de comunicação do Flightradar24, explicou que a situação poderia continuar durante a quarta-feira justamente porque as companhias precisariam reposicionar aeronaves e tripulações.

“À medida que as companhias aéreas trabalham para reposicionar suas aeronaves, esperamos atrasos contínuos e alguns cancelamentos amanhã”, afirmou.

A avaliação coincide com o alerta de outras empresas do setor de que a recuperação completa da operação não aconteceria imediatamente após a solução do problema técnico.

Passageiros relatam horas de espera

A dimensão da interrupção ficou evidente nos relatos de passageiros presos dentro de aeronaves ou nos terminais.

Josie Donoghue, que viajaria de Gatwick para a Irlanda, afirmou que passou aproximadamente três horas dentro do avião antes de o voo ser cancelado.

Depois de conseguir desembarcar, ela comparou a experiência a “tentar sair de Alcatraz”.

“Estávamos presos lá dentro. Disseram que não poderíamos sair até que os voos fossem cancelados e, finalmente, permitiram que saíssemos”, relatou.

A passageira classificou a situação no aeroporto como um “pesadelo absoluto”.

Outra viajante, Katherina Wilken, de 26 anos, estava prevista para embarcar de Heathrow com destino a Düsseldorf, na Alemanha. O voo deveria partir às 14h45, mas, às 15h, ainda não havia informações sobre o portão de embarque.

Ela contou que começou a entrar em pânico diante da falta de informações e afirmou que ela e o companheiro prefeririam permanecer no aeroporto durante a noite para evitar o risco de se hospedarem em um hotel distante e perderem uma eventual remarcação.

Em Gatwick, a jornalista Julia Pobegailova também passou cerca de três horas dentro do avião antes de descobrir que seu voo para Tel Aviv havia sido cancelado. A companhia aérea não teria outro voo para o mesmo destino até sábado.

Mais de 65 mil passageiros da Ryanair foram afetados

As companhias aéreas também enfrentaram consequências significativas.

A Ryanair informou que mais de 65 mil passageiros foram afetados pela interrupção e que mais de 50 voos programados foram cancelados.

A empresa criticou duramente a NATS e voltou a exigir mudanças na gestão do sistema britânico de controle de tráfego aéreo.

A British Airways, por sua vez, informou que precisou cancelar ou desviar mais de 100 voos durante a terça-feira, afetando dezenas de milhares de passageiros.

A companhia afirmou que, mesmo depois de ser informada pela NATS de que o problema havia sido resolvido, a gravidade da interrupção provocaria um impacto significativo nas operações seguintes.

A situação também atingiu a easyJet. A empresa informou que alguns de seus voos não poderiam ser realizados e alertou que os efeitos do problema se estenderiam a operações em outros países europeus.

O problema chegou a provocar consequências fora do Reino Unido. Segundo informações do sistema europeu de gerenciamento do tráfego aéreo, algumas aeronaves que deveriam seguir para aeroportos britânicos permaneceram em solo em outros países para evitar um congestionamento ainda maior.

Governo britânico cobra respostas da NATS

A secretária de Transportes do Reino Unido, Heidi Alexander, afirmou que estava acompanhando a situação e pediu garantias de que as autoridades aprenderiam com o episódio.

Em uma declaração publicada nas redes sociais, a ministra disse estar buscando garantias de que os sistemas responsáveis por sustentar a aviação britânica são suficientemente robustos e que as lições do incidente serão incorporadas aos procedimentos futuros.

Ela também agradeceu aos profissionais que trabalhavam para normalizar as operações e ajudar os passageiros afetados.

A Autoridade de Aviação Civil britânica também sinalizou que o incidente deverá ser analisado. A repetição de falhas nos sistemas da NATS aumentou a pressão sobre a empresa e reacendeu questionamentos sobre a capacidade da infraestrutura de controle aéreo do país.

Terceira grande falha em pouco mais de três anos

O episódio desta terça-feira também chama atenção porque não é a primeira interrupção de grande escala envolvendo sistemas da NATS nos últimos anos.

Em agosto de 2023, uma falha técnica durante o processamento de um plano de voo provocou uma das maiores interrupções recentes da aviação britânica. Mais de 700 mil passageiros foram afetados, enquanto centenas de voos foram cancelados ou sofreram atrasos.

O episódio levou a uma investigação e provocou críticas sobre a capacidade dos sistemas de contingência do controle aéreo britânico.

Outro problema relacionado ao controle de tráfego aéreo ocorreu em 2025 e também provocou interrupções significativas.

A NATS afirmou que o incidente desta terça-feira é diferente das falhas anteriores, mas a sequência de episódios voltou a colocar a empresa sob pressão. A Ryanair chegou a pedir a saída de Martin Rolfe, enquanto a companhia aérea Wizz Air afirmou que uma infraestrutura nacional considerada crítica não deveria provocar repetidas paralisações do sistema de aviação.

Impacto deve continuar nesta quarta-feira

Apesar da correção do problema técnico, a normalização completa dos voos deve levar tempo.

O principal desafio agora é reorganizar uma operação que ficou desestruturada durante várias horas. Aeronaves que deveriam estar em determinados aeroportos acabaram permanecendo em outros locais, enquanto tripulações também ficaram fora de suas posições planejadas.

Isso significa que mesmo aeroportos onde o sistema já voltou a funcionar normalmente podem continuar registrando atrasos e cancelamentos.

A British Airways alertou que o impacto da interrupção deverá continuar, enquanto o Flightradar24 também prevê novos atrasos e cancelamentos durante a quarta-feira.

Por isso, Heathrow e outros aeroportos afetados recomendaram que os passageiros não se dirijam aos terminais sem antes confirmar o status de seus voos diretamente com as companhias aéreas.

O episódio desta terça-feira expôs novamente a dependência da aviação britânica de sistemas digitais altamente integrados. Embora a falha tenha sido identificada e corrigida sem que o espaço aéreo britânico precisasse ser totalmente fechado, o efeito em cadeia demonstrou como uma interrupção relativamente localizada pode rapidamente afetar centenas de milhares de passageiros e operações em vários países.

Para Londres, onde Heathrow, Gatwick, Stansted, Luton e London City concentram uma parcela significativa do tráfego aéreo da região, o impacto foi especialmente visível. E, mesmo com a NATS afirmando que seus sistemas voltaram a operar normalmente, a recuperação da malha aérea deverá continuar durante os próximos dias.

Adicionar comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *