Uma expressiva onda de vitórias democratas nas eleições de meio de mandato realizadas na terça-feira, 3 de novembro, mudou o equilíbrio de poder nos Estados Unidos. O partido conquistou o controle da Câmara dos Representantes e do Senado, segundo projeções da imprensa americana, impondo uma derrota histórica ao presidente Donald Trump e ao Partido Republicano.
O resultado representa uma mudança significativa na política de Washington. Depois de dois anos de controle republicano das duas casas do Congresso, Trump terá de enfrentar uma oposição fortalecida, com poder para bloquear projetos legislativos, fiscalizar sua administração e abrir investigações sobre decisões do governo.
A vitória democrata também alcançou estados que tradicionalmente votam nos republicanos. Texas, Kansas e Carolina do Sul, por exemplo, elegeram senadores democratas pela primeira vez em décadas. A oposição também conquistou resultados expressivos em Iowa, Ohio e Carolina do Norte.
As projeções indicam que a insatisfação dos eleitores com o custo de vida, a inflação, a condução da economia, a guerra com o Irã e as preocupações com a corrupção tiveram peso importante na votação. Pesquisas de saída das urnas apontaram que quase nove em cada dez eleitores consideraram o custo de vida um fator importante ou decisivo na escolha dos candidatos.
Texas protagoniza uma das maiores derrotas republicanas
Um dos resultados mais surpreendentes ocorreu no Texas, considerado um dos principais redutos eleitorais republicanos do país.
A democrata Gina Hinojosa derrotou o governador republicano Greg Abbott e se tornou a primeira mulher latina eleita para comandar o estado. A vitória encerrou uma sequência de mais de três décadas sem que os democratas conquistassem uma eleição estadual no Texas.
Na disputa pelo Senado, James Talarico derrotou o procurador-geral republicano Ken Paxton, garantindo outra vitória histórica para o partido. Desde 1994, os democratas não venciam uma eleição estadual no Texas.
O resultado também alcançou os distritos próximos à fronteira com o México, onde os republicanos haviam conquistado avanços importantes entre os eleitores hispânicos nas eleições presidenciais de 2024. Desta vez, os democratas recuperaram apoio em diversas comunidades da região e ampliaram sua representação no Congresso.
A derrota republicana foi ainda mais significativa porque Donald Trump havia apoiado publicamente os candidatos derrotados. O presidente fez campanha em favor de Paxton e Abbott, mas não conseguiu impedir a mudança no comportamento eleitoral do estado.
Derrotas republicanas em estados tradicionalmente conservadores
A onda democrata também atingiu outras regiões consideradas favoráveis aos republicanos.
Na Carolina do Sul, a médica democrata Annie Andrews derrotou a senadora republicana Darline Graham. Foi a primeira vez neste século que os democratas conquistaram uma cadeira no Senado federal pelo estado.
No Kansas, Adam Hamilton venceu o senador republicano Roger Marshall. A última vez que os democratas haviam eleito um senador pelo estado foi em 1932, durante a Grande Depressão.
Em Iowa, Josh Turek, atleta paralímpico e candidato democrata, derrotou a republicana Ashley Hinson, conquistando uma cadeira que fortalece a presença do partido em uma região tradicionalmente conservadora.
No Ohio, o democrata Sherrod Brown derrotou o republicano Jon Husted e retornará ao Senado, dois anos depois de ter perdido sua cadeira. Na Carolina do Norte, o ex-governador Roy Cooper também conquistou uma vitória importante para os democratas.
Em Michigan, Abdul El-Sayed derrotou o republicano Mike Rogers e conquistou uma cadeira no Senado. Sua vitória representa um marco histórico: ele será o primeiro senador muçulmano dos Estados Unidos.
Outro resultado de grande repercussão ocorreu no Maine. A democrata Troy Jackson derrotou a republicana Susan Collins, que ocupava uma cadeira no Senado havia cinco mandatos consecutivos, totalizando aproximadamente 30 anos de atuação na instituição.
Por que a derrota muda o cenário político de Trump?
O controle das duas câmaras do Congresso permite aos democratas exercer um contrapeso muito mais forte sobre a administração republicana. A mudança, entretanto, não significa que o presidente perderá seus poderes ou que poderá ser impedido de governar automaticamente.
A nova composição legislativa terá início em 3 de janeiro de 2027, quando os parlamentares eleitos tomarão posse.
A partir desse momento, os democratas assumirão a presidência das principais comissões da Câmara e do Senado, ampliando sua capacidade de supervisionar o governo e investigar decisões da Casa Branca.
1. Investigações e fiscalização do governo
Com o controle das comissões, os democratas poderão convocar autoridades para prestar depoimentos, solicitar documentos e abrir investigações sobre diferentes setores da administração Trump.
Entre os assuntos que poderão receber maior atenção estão os gastos do governo, decisões relacionadas à guerra com o Irã, possíveis conflitos de interesse e as atividades financeiras do presidente e de pessoas próximas a ele.
O poder de convocação das comissões também poderá aumentar a pressão política sobre integrantes do gabinete e funcionários da Casa Branca. No entanto, pedidos de documentos e informações classificadas estão sujeitos a regras legais e restrições de segurança.
2. Dificuldades para aprovar leis e orçamentos
A perda da maioria nas duas casas dificultará a aprovação de projetos prioritários de Trump, incluindo propostas econômicas, tributárias, ambientais e de segurança.
Como o Congresso precisa aprovar o orçamento federal e autorizar despesas públicas, os democratas terão influência direta nas negociações sobre os recursos destinados aos diferentes departamentos e programas do governo.
A aprovação de novos orçamentos poderá exigir acordos entre republicanos e democratas. Sem entendimento, o país poderá enfrentar novos impasses orçamentários e até paralisações parciais do governo federal, conhecidas como government shutdowns.
Trump continuará, entretanto, com o poder de vetar projetos aprovados pelo Congresso. Para derrubar um veto presidencial, os parlamentares precisam reunir uma maioria de dois terços nas duas casas.
3. Freio às indicações para cargos importantes
A conquista do Senado tem uma consequência particularmente importante: os democratas passam a controlar a análise e a votação das indicações presidenciais para cargos que dependem de confirmação parlamentar.
Isso inclui integrantes do gabinete, embaixadores e juízes federais, inclusive possíveis indicações para a Suprema Corte caso surjam vagas durante o restante do mandato presidencial.
Com uma maioria democrata, Trump terá muito mais dificuldade para aprovar nomes alinhados à sua agenda política e ideológica.
4. Pressão sobre a política externa
O controle do Congresso também poderá influenciar a política externa americana.
Os democratas terão maior capacidade de fiscalizar os gastos militares, questionar a condução da guerra com o Irã e examinar os recursos destinados à diplomacia e às operações internacionais.
Embora o presidente mantenha poderes importantes na condução das relações exteriores e como comandante das Forças Armadas, o Congresso exerce influência sobre o financiamento das operações e a autorização de despesas.
Uma derrota que pode redefinir a política americana
As eleições de 2026 representam um dos maiores reveses políticos da trajetória de Donald Trump. A perda de estados historicamente republicanos e o enfraquecimento do apoio entre jovens e eleitores hispânicos indicam dificuldades para manter a coalizão que garantiu sua vitória presidencial em 2024.
Segundo pesquisas de saída das urnas citadas pela Reuters, o apoio republicano entre eleitores hispânicos caiu em relação à eleição presidencial anterior. O descontentamento econômico também apareceu como um dos principais fatores da mudança de comportamento eleitoral.
Para os democratas, a vitória abre uma oportunidade de recuperar protagonismo nacional e fortalecer possíveis lideranças para a eleição presidencial de 2028. Entretanto, controlar o Congresso também significa assumir maior responsabilidade pelas decisões econômicas e legislativas do país.
Trump, por sua vez, afirmou que não considera o resultado uma derrota pessoal e declarou estar disposto a trabalhar com os democratas. Também prometeu vetar propostas da oposição que considerar inaceitáveis.
O novo cenário político deverá começar a produzir efeitos concretos em janeiro de 2027. Até lá, a atenção estará voltada para a conclusão da apuração eleitoral, a definição das lideranças parlamentares e os primeiros sinais de como os democratas pretendem utilizar o poder conquistado nas urnas.
A mensagem dos eleitores foi clara: o controle republicano de Washington não recebeu a renovação esperada. Agora, Trump terá de governar diante de um Congresso que será comandado pela oposição durante os dois últimos anos de seu mandato.