Sebastião Salgado sai de cena: sua ausência deixa uma cratera no Brasil. Seu trabalho deixa um legado para o mundo.

Sebastião Salgado faleceu aos 81 anos, deixando um legado incomparável que transcende a fotografia. Mais do que um fotógrafo, foi um humanista incansável, defensor da dignidade humana, das causas indígenas e da preservação ambiental. Sua obra, marcada por imagens em preto e branco de profunda sensibilidade, percorreu os cantos mais remotos do planeta, registrando a beleza e a dor da existência humana com um olhar transformador.
Salgado iniciou sua carreira como economista, mas foi na fotografia que encontrou sua verdadeira vocação. Ao longo de sua trajetória, viajou por mais de 120 países, produzindo mais de 500 mil imagens que documentam desde os horrores da guerra até a majestade dos ecossistemas intocados. Séries como Êxodos, Trabalhadores e Gênesis capturam a essência de comunidades esquecidas, o sofrimento dos deslocados e a grandiosidade da natureza, sempre com um compromisso ético de dar voz aos silenciados
Seu estilo fotográfico, de olhar atento e respeitoso, sempre buscou revelar a dignidade humana mesmo nas situações mais adversas. Ele acreditava que a fotografia tinha o poder de sensibilizar e provocar mudanças, e sua obra reflete essa crença.
Salgado teve um papel fundamental na conscientização ambiental. Junto com sua esposa, Lélia Wanick Salgado, fundou o Instituto Terra em 1998, com o objetivo de restaurar a Mata Atlântica em Minas Gerais. O instituto já plantou mais de 2,5 milhões de árvores nativas e recuperou áreas degradadas, transformando um território devastado em floresta viva.

Image: Philippe Petit
O Instituto Terra é uma organização civil sem fins lucrativos fundada em 1998 por Sebastião Salgado e sua esposa, Lélia Wanick Salgado, com o objetivo de restaurar a Mata Atlântica no Vale do Rio Doce, em Minas Gerais. A primeira ação do instituto foi transformar a antiga Fazenda Bulcão, uma área de 608,69 hectares completamente degradada, em uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN), sendo pioneiro no Brasil ao receber esse título para uma propriedade com compromisso de recuperação ambiental. Desde então, o Instituto Terra tem se dedicado à recuperação de áreas degradadas, plantando mais de 3 milhões de árvores nativas e restaurando mais de 600 hectares de floresta. Além disso, o instituto tem trabalhado na recuperação de cerca de 2 mil nascentes, contribuindo para a revitalização dos recursos hídricos da região.
O Centro de Educação e Recuperação Ambiental (CERA), criado em 2002, é uma das principais iniciativas do instituto. Por meio do CERA, o Instituto Terra oferece capacitação técnica em restauração ecológica e promove a educação ambiental, alcançando mais de 82 mil pessoas em mais de 170 municípios da Bacia do Rio Doce.

Em 2023, o Instituto Terra lançou o programa Terra Doce, com investimento de R$ 70 milhões, visando o plantio de 2 milhões de novas árvores e a recuperação de mais de 4 mil nascentes, além da implementação de 200 hectares de sistemas agroflorestais junto às comunidades da bacia do Rio Doce.
O trabalho do Instituto Terra tem sido reconhecido nacional e internacionalmente, recebendo diversos prêmios e títulos, como o Prêmio Ford de Conservação Ambiental e o título de Posto Avançado da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica pela UNESCO.
Com sua abordagem integrada de recuperação ambiental, educação e desenvolvimento sustentável, o Instituto Terra se tornou um exemplo mundial de como é possível regenerar a natureza e promover a conscientização ambiental. Seu trabalho foi reconhecido mundialmente, recebendo diversos prêmios e honrarias, incluindo o Prêmio Príncipe de Astúrias de Artes e a Medalha do Centenário da Royal Photographic Society. Seu legado também foi imortalizado no documentário O Sal da Terra, dirigido por seu filho Juliano Salgado e Wim Wenders, indicado ao Oscar de Melhor Documentário em 2015.

Sebastião Salgado partiu, mas deixou raízes profundas — na arte, na consciência social e na terra que ajudou a replantar. Seu legado é um convite à sensibilidade, ao respeito e à ação. Um chamado para enxergar o mundo não apenas com os olhos, mas com o coração.