Primeiro-ministro britânico condenou os ataques russos e anunciou medidas para acelerar o envio de mísseis de defesa aérea. Visita ocorre em meio ao aumento das tensões entre Kiev e Washington.

O primeiro-ministro britânico, Andy Burnham, recebeu o presidente da Ucrânia, Volodímir Zelenski, em Downing Street, em Londres, na quarta-feira, 14 de outubro, e reafirmou o compromisso do Reino Unido com a defesa ucraniana. O encontro ocorreu em meio ao agravamento das tensões entre Kiev e Washington e após novos ataques russos contra instalações energéticas, que deixaram centenas de milhares de pessoas sem eletricidade.

Durante a reunião, Burnham reiterou que o apoio britânico à Ucrânia continuará e anunciou medidas para acelerar a entrega de armamentos defensivos. O governo também pretende ampliar a pressão econômica sobre Moscou, com novas sanções e outras iniciativas para limitar a capacidade russa de sustentar a guerra.

A visita integra os esforços diplomáticos de Zelenski para assegurar o apoio dos aliados europeus em um momento de incerteza sobre a continuidade e as condições da assistência norte-americana. Após a passagem por Londres, o presidente ucraniano tinha prevista uma viagem a Bruxelas para dar sequência às conversas com parceiros europeus.

Reino Unido promete acelerar o envio de mísseis

Entre as principais medidas anunciadas pelo governo britânico está a aceleração da entrega de mísseis leves multifuncionais, destinados a reforçar a capacidade de defesa da Ucrânia contra os ataques russos.

Burnham também afirmou que o Reino Unido pretende desenvolver soluções militares adaptadas às necessidades do campo de batalha, inclusive mediante a instalação de tecnologia britânica em equipamentos fornecidos por outros parceiros internacionais.

As conversas incluíram ainda a possibilidade de acelerar o envio de sistemas defensivos de maior alcance antes da chegada do inverno, período em que os ataques à infraestrutura energética podem agravar as dificuldades enfrentadas pela população ucraniana.

Além do fornecimento de armamentos, Londres pretende atuar diplomaticamente para ampliar a disponibilidade internacional de equipamentos de defesa. O objetivo é reduzir a vulnerabilidade ucraniana diante das ofensivas russas, especialmente dos ataques realizados com drones de longo alcance.

O governo britânico também sinalizou a intenção de preparar novas medidas econômicas e de apoio financeiro. A estratégia busca manter a pressão sobre Moscou sem depender exclusivamente das decisões de Washington.

Zelenski denuncia dificuldades com o sistema Starlink

Um dos assuntos discutidos durante o encontro foi a recente limitação do acesso ucraniano à rede de comunicação por satélite Starlink, operada pela empresa SpaceX, de Elon Musk.

A tecnologia é utilizada pelas forças ucranianas para manter comunicações em áreas de combate e apoiar operações com drones. Segundo autoridades da Ucrânia, os problemas de conectividade prejudicaram determinadas missões, inclusive aquelas realizadas com drones interceptadores empregados para combater aeronaves não tripuladas russas.

Zelenski demonstrou preocupação com as consequências operacionais das restrições e com a dependência de tecnologias controladas por empresas e autoridades estrangeiras. A versão militar do sistema, conhecida como Starshield, está sujeita ao controle do governo norte-americano, conforme esclarecimentos atribuídos a Musk.

O presidente ucraniano também manifestou preocupação com a disponibilidade de informações de inteligência necessárias para antecipar ataques russos. A questão ganhou relevância após ofensivas recentes que atingiram diferentes regiões do país sem que, segundo Kiev, houvesse alertas prévios suficientes.

Apesar das preocupações, não havia confirmação de que todo o compartilhamento de inteligência entre Estados Unidos e Ucrânia tivesse sido suspenso. A União Europeia informou não ter indicação de que essa cooperação tivesse sido completamente interrompida.

Ataques russos deixam centenas de milhares sem eletricidade

A visita ocorreu após uma nova onda de ataques russos com mísseis e drones contra a Ucrânia, com impactos especialmente graves em Kiev e Kharkiv, a segunda maior cidade do país.

Segundo informações divulgadas por autoridades ucranianas e pela agência Reuters em 14 de outubro, os ataques danificaram cerca de 30 instalações energéticas e deixaram pelo menos 600 mil pessoas sem eletricidade. O balanço inicial divulgado pela Reuters apontou três mortos em Kiev, enquanto a extensão total das vítimas e dos danos continuava sendo apurada.

Zelenski classificou a ofensiva como deliberada e afirmou que a escala dos bombardeios demonstrava o desinteresse russo por uma trégua. O presidente também acusou Moscou de desrespeitar os esforços diplomáticos para interromper os ataques à infraestrutura energética.

A ofensiva ocorreu depois de o presidente norte-americano, Donald Trump, defender uma interrupção dos ataques contra instalações energéticas russas e ucranianas. No entanto, nem Moscou nem Kiev haviam confirmado publicamente um acordo formal e plenamente estabelecido para a suspensão dessas operações.

A situação aumentou as divergências entre Washington e Kiev. A administração Trump vinha defendendo medidas para reduzir os preços internacionais dos combustíveis, incluindo o relaxamento de sanções relacionadas ao diesel russo, enquanto o governo ucraniano sustenta que interromper seus ataques sem garantias equivalentes deixaria o país em desvantagem.

Londres tenta manter a pressão sobre Moscou

A recepção a Zelenski reforça o papel que o governo britânico pretende desempenhar na articulação do apoio europeu à Ucrânia, especialmente diante das incertezas sobre a política externa dos Estados Unidos.

Antes do encontro presencial, Burnham e Zelenski já haviam conversado por telefone em 10 de outubro. Na ocasião, o primeiro-ministro britânico reafirmou sua solidariedade à Ucrânia e defendeu a manutenção da pressão sobre a Rússia, incluindo novas sanções e medidas para limitar os recursos disponíveis para a guerra.

A posição de Londres procura conciliar o reforço da assistência militar a Kiev com a manutenção dos canais diplomáticos com Washington. O governo britânico considera a cooperação com os Estados Unidos importante para a segurança europeia, mas tem defendido que os aliados aumentem sua própria capacidade de apoiar a Ucrânia.

Para Zelenski, a prioridade continua sendo garantir armas, informações de inteligência e recursos tecnológicos que permitam ao país resistir às ofensivas russas. A continuidade desse apoio será decisiva para a capacidade defensiva ucraniana nos próximos meses, enquanto a diplomacia tenta encontrar uma saída para o conflito.

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