O Brasil se despede nesta terça-feira, 13 de outubro de 2026, de uma das vozes mais conhecidas da axé music. O cantor baiano Netinho, nome artístico de Ernesto de Souza Andrade Júnior, morreu aos 60 anos, em Salvador, após enfrentar um linfoma não Hodgkin do tipo B. A doença evoluiu para insuficiência renal e disfunção de múltiplos órgãos, segundo comunicado divulgado pela equipe do artista.

Conhecido nacionalmente por sucessos como “Milla”, “Menina”, “Capricho dos Deuses” e “Beijo na Boca”, Netinho construiu uma carreira marcada pela energia dos trios elétricos, pela popularização do axé nos anos 1990 e por apresentações que ajudaram a levar a música baiana a públicos de diferentes regiões do Brasil e do exterior. Sua voz tornou-se parte da memória afetiva de gerações que cresceram ao som dos grandes sucessos do Carnaval.

Da Banda Beijo ao sucesso nacional

Nascido em 12 de julho de 1966, em Santo Antônio de Jesus, no Recôncavo Baiano, Netinho mudou-se ainda criança para Salvador, onde começou a desenvolver sua relação com a música. Aos 14 anos, ganhou o primeiro violão da mãe e aprendeu a tocar por conta própria. Embora tenha iniciado a faculdade de Engenharia Civil, decidiu seguir a carreira artística e passou a se apresentar profissionalmente em bares e outros espaços da capital baiana.

O grande salto veio em 1987, quando passou a integrar a Banda Beijo. No ano seguinte, estreou no circuito oficial do Carnaval de Salvador e ganhou projeção nacional com “Beijo na Boca”, canção que se tornou um dos primeiros grandes sucessos de sua trajetória.

À frente do grupo, Netinho participou de uma fase importante de expansão da axé music. O gênero, que reúne influências de ritmos afro-baianos, samba-reggae, frevo e música pop, conquistava espaço nas rádios e nos programas de televisão, ultrapassando os limites do Carnaval de Salvador.

A trajetória da Banda Beijo também teve momentos de projeção internacional. Em 1990, durante a Copa do Mundo da Itália, Netinho participou de apresentações em Turim com um trio elétrico levado do Brasil, iniciativa que ajudou a apresentar a festa e a música baiana a torcedores de diferentes países.

Carreira solo e o fenômeno “Milla”

Em 1993, Netinho iniciou sua carreira solo com o álbum “Um Beijo pra Você”. O trabalho apresentou ao público sucessos como “Menina”, “Capricho dos Deuses” e “Total”, consolidando sua presença entre os principais nomes da música baiana e ampliando seu alcance nacional. “Menina”, inclusive, integrou a trilha sonora da novela “Tropicaliente”, da TV Globo.

O momento mais emblemático de sua carreira chegou em 1996, com o álbum “Netinho ao Vivo!”. Gravado em Aracaju, o disco trouxe “Milla”, canção que rapidamente se transformou em um dos grandes hinos da axé music e em presença recorrente nas festas populares e nos carnavais brasileiros.

A música ultrapassou gerações e fronteiras, tornando-se o principal símbolo da carreira do cantor. O álbum alcançou vendas milionárias, segundo a biografia publicada pelo próprio artista, e consolidou Netinho como um dos nomes de maior popularidade do gênero na década de 1990.

Além de “Milla”, seu repertório inclui canções como “A Vida é Festa”, “Barracos”, “Estrela Primeira”, “Preciso de Você” e “Fim de Semana”. As músicas ajudaram a definir a trilha sonora de uma época em que a axé music ganhou espaço nas rádios, nos programas de televisão, nas micaretas e nos grandes eventos pelo país.

Uma trajetória marcada por desafios de saúde

A vida de Netinho também foi marcada por graves problemas de saúde. Em 2013, o cantor passou por internações após sofrer acidentes vasculares cerebrais, enfrentando um longo período de recuperação e reabilitação. Anos depois, voltou a se apresentar e retomou gradualmente suas atividades profissionais.

Em março de 2025, o artista foi diagnosticado com linfoma não Hodgkin, um tipo de câncer que afeta o sistema linfático. O tratamento incluiu internação e sessões de quimioterapia. Após uma fase de melhora, Netinho chegou a anunciar a recuperação e voltou a cumprir compromissos profissionais.

A doença, porém, voltou a se manifestar em 2026. No fim de setembro, o cantor foi internado no Hospital Aliança Star, em Salvador, para retomar o tratamento. A equipe médica avaliava a evolução do quadro enquanto o artista realizava novas sessões de quimioterapia e mantinha a expectativa de recuperação. A piora clínica culminou em insuficiência renal e disfunção de múltiplos órgãos, segundo a nota divulgada após sua morte.

Durante esse período, Netinho compartilhou com os fãs parte de sua experiência e expressou gratidão pela vida e pelo carinho recebido ao longo da carreira. Em comunicado publicado nesta terça-feira, sua equipe afirmou que ele morreu tranquilamente e destacou a importância da música e da relação construída com o público.

Homenagens e despedida reservada

A notícia da morte provocou manifestações de pesar entre artistas e admiradores. Nomes ligados à música brasileira, como Claudia Leitte, Bell Marques, Alexandre Pires, Sarajane e Mara Maravilha, lamentaram a perda e destacaram a trajetória do cantor. As homenagens ressaltaram sua presença no Carnaval e a influência de seus sucessos na memória musical de diferentes gerações.

Netinho deixa uma filha, Bruna Trindade Andrade, de 28 anos, médica residente em ortopedia. Segundo informações divulgadas pela imprensa brasileira, o velório e a cremação serão realizados em cerimônia reservada, conforme o desejo do artista, com a presença de familiares e amigos próximos. Até o momento, não foram divulgados publicamente todos os detalhes da despedida.

O legado de Netinho para a música baiana

A importância de Netinho vai além dos números de vendas ou da popularidade de uma única canção. Sua trajetória acompanhou a expansão da axé music como fenômeno nacional, levando os ritmos e a energia do Carnaval baiano a diferentes públicos e contribuindo para consolidar o gênero na cultura popular brasileira.

De “Beijo na Boca” a “Milla”, suas músicas permaneceram presentes em festas, encontros familiares, celebrações e carnavais. São canções que evocam uma época, mas que continuam encontrando espaço entre ouvintes mais jovens, mantendo viva a ligação entre a música baiana e a memória coletiva do país.

A morte do cantor encerra uma trajetória de décadas nos palcos, mas não apaga a obra que construiu. Em Salvador e em tantas outras cidades brasileiras, sua voz continuará associada à alegria dos trios elétricos e a um dos períodos mais marcantes da história da axé music.

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