Milhares de pessoas foram às ruas de Portugal no sábado, 10 de outubro, para protestar contra o aumento do custo de vida, a alta dos aluguéis e as dificuldades para conseguir uma moradia. As manifestações reuniram participantes em Lisboa e no Porto, além de mobilizações convocadas em Aveiro e Braga, sob o lema “Não dá mais para viver assim”. Os atos refletiram a insatisfação de trabalhadores, jovens e famílias que afirmam ter cada vez mais dificuldade para pagar as despesas básicas e conquistar independência financeira.
Em Lisboa, milhares de pessoas se concentraram no Largo do Intendente e seguiram em marcha pelas ruas da cidade. No Porto, cerca de 1.500 manifestantes ocuparam uma área central, onde alguns participantes chegaram a montar barracas para chamar a atenção para a dificuldade de encontrar uma habitação a preços acessíveis. Cartazes com mensagens sobre salários insuficientes e a impossibilidade de sair da casa dos pais marcaram os protestos.
Entre as frases exibidas estavam “Este salário não dá para viver” e “Quero sair da casa dos meus pais antes dos 50 anos”. As mensagens sintetizaram a preocupação de pessoas que, mesmo trabalhando, enfrentam dificuldades para arcar com aluguel, alimentação, transporte, energia e outras despesas essenciais.
Jovens e trabalhadores denunciam dificuldades para pagar as contas
A mobilização foi organizada pela plataforma cívica “Não dá mais para viver assim”, que reúne organizações e coletivos de diferentes áreas da sociedade civil. O movimento defende medidas para reduzir a pressão sobre os orçamentos familiares, incluindo o controle dos preços de produtos essenciais e combustíveis, limites para aumentos de aluguéis e prestações habitacionais e ampliação da oferta de moradia pública. Também pede maior tributação sobre lucros extraordinários de grandes empresas dos setores bancário, energético e de distribuição.
Em comunicado divulgado antes das manifestações, a plataforma afirmou que a população vem sendo pressionada há anos pelo aumento dos preços da habitação e do custo de vida. Segundo os organizadores, muitos trabalhadores passam o mês tentando fazer o salário cobrir as despesas básicas, enquanto enfrentam o encarecimento dos combustíveis e o risco de perder a própria moradia.
Em Lisboa, a participante Teresa Fonseca disse à agência Lusa que decidiu comparecer depois de saber da manifestação pelo Instagram. Ela também relacionou sua participação às mobilizações recentes na Espanha, onde a crise habitacional ganhou destaque após o despejo de uma idosa de 87 anos.
Outra participante ouvida pela Lusa, Ana Mendes, de 35 anos, relatou que vive em um quarto alugado cujo custo consome mais da metade de sua renda. Apesar de ter concluído o ensino superior, ela trabalha em uma central de atendimento e recebe o salário mínimo. Seu relato ilustra uma das principais queixas dos manifestantes: a dificuldade de transformar formação profissional e emprego em condições de vida mais estáveis.
Aluguéis em alta ampliam a pressão sobre as famílias
Os protestos ocorrem em um contexto de forte encarecimento da habitação em Portugal. Dados do Instituto Nacional de Estatística indicam que a renda mediana dos 35.407 novos contratos de arrendamento firmados no segundo trimestre de 2026 chegou a € 10,17 por metro quadrado. O valor representa um aumento de 10,2% em relação ao mesmo período de 2025, acima da variação de 9,1% observada no trimestre anterior.
As diferenças regionais também são significativas. Na Grande Lisboa, a renda mediana dos novos contratos alcançou € 15,24 por metro quadrado. Na Região Autônoma da Madeira, chegou a € 12,78; na Península de Setúbal, a € 11,99; no Algarve, a € 11,56; e na Área Metropolitana do Porto, a € 10,83. Os números ajudam a explicar por que a dificuldade de encontrar uma casa compatível com a renda familiar se tornou uma questão central no debate público.
O problema não se limita ao valor mensal do aluguel. A procura por moradias em áreas urbanas, a dificuldade de acesso à habitação pública e a competição por imóveis em regiões com maior concentração de empregos podem obrigar famílias a procurar alternativas mais distantes dos centros urbanos. Para os jovens, a consequência pode ser permanecer por mais tempo na casa dos pais ou destinar uma parcela elevada do salário à moradia.
Embora a habitação tenha sido o principal foco da mobilização, os organizadores também criticaram o custo de outros bens e serviços. A reivindicação é que o governo adote medidas para proteger o poder de compra e evitar que os aumentos das despesas essenciais continuem reduzindo a renda disponível das famílias.
Protestos em Portugal seguem mobilizações na Espanha
Parte dos manifestantes portugueses afirmou ter se inspirado nas mobilizações realizadas recentemente na Espanha. No Porto, um grupo se posicionou diante de um cartaz com a frase “Vamos fazer como na Espanha”, em referência aos protestos que ganharam força após o despejo de Maricarmen Abascal, de 87 anos, em Madri.
Maricarmen foi retirada em 23 de setembro do apartamento onde havia vivido por mais de sete décadas. O caso provocou indignação e mobilizou organizações de defesa do direito à moradia. Depois do despejo, ela permaneceu hospitalizada e morreu em 7 de outubro, antes de conseguir voltar para casa, apesar de um acordo que havia aberto essa possibilidade. Sua morte intensificou os protestos contra os despejos e a dificuldade de acesso à habitação no país. (RTVE.es)
A repercussão do caso ampliou a pressão sobre o governo espanhol. O primeiro-ministro Pedro Sánchez tentou avançar com medidas emergenciais relacionadas à habitação, mas os decretos propostos foram rejeitados pelo Parlamento. Em meio a um cenário político mais amplo de disputas e desgaste do governo, Sánchez anunciou eleições gerais antecipadas para 29 de novembro. A crise habitacional tornou-se um dos temas centrais do debate político espanhol, embora não tenha sido o único fator envolvido na decisão de antecipar a votação.
A mobilização portuguesa demonstra como as dificuldades relacionadas à moradia e ao custo de vida também alimentam a insatisfação em outros países europeus. Apesar das diferenças entre os mercados imobiliários e as políticas nacionais, a preocupação com os aluguéis, os salários e o acesso a condições dignas de habitação aproxima as reivindicações dos manifestantes.
Movimento cobra respostas do governo português
Ao levar milhares de pessoas às ruas, a plataforma “Não dá mais para viver assim” pretende ampliar a pressão por medidas concretas para enfrentar o encarecimento da vida. Entre as propostas defendidas estão a limitação dos aumentos dos aluguéis, o reforço da habitação pública e o controle de preços de produtos essenciais e combustíveis.
Os protestos também colocaram em evidência a distância entre ter emprego e conseguir manter uma vida financeiramente estável. Para muitos participantes, o problema não se resume a encontrar trabalho, mas a garantir que o salário seja suficiente para pagar as contas e permitir o acesso a uma moradia independente.
Por enquanto, as manifestações expressam as reivindicações dos organizadores e dos participantes, sem representar, por si só, a aprovação ou implementação das medidas exigidas. A continuidade da mobilização e a resposta das autoridades deverão indicar o peso político que a crise do custo de vida e da habitação terá nos próximos debates em Portugal.