Cinco pessoas foram colocadas sob investigação judicial na França por suspeitas de transferir recursos ao Hamas por meio de associações que afirmavam arrecadar doações para ajudar a população civil da Faixa de Gaza. O caso ganhou dimensão internacional depois que os Estados Unidos anunciaram sanções contra dois dirigentes de entidades francesas e divulgaram informações sobre uma suposta rede que teria arrecadado mais de US$ 2 milhões entre 2020 e 2026.
Entre os investigados estão Faouzi Barika, de 35 anos, ligado à associação Baraka, Nordine Barika, seu irmão, e Amel Oualid, de 39 anos, presidente da organização Ensemble C Mieux. As autoridades americanas afirmam que os três teriam colaborado com uma rede internacional de arrecadação e transferência de dinheiro que beneficiaria o Hamas, organização palestina que controla a Faixa de Gaza e cuja ala militar é responsável por ataques contra Israel.
As acusações ainda não foram comprovadas judicialmente. Os representantes dos investigados contestam as suspeitas e afirmam que as atividades das associações tinham finalidade humanitária.
Investigação começou após informações dos Estados Unidos
O caso ganhou força no início de outubro, quando o Departamento do Tesouro e o Departamento de Justiça dos Estados Unidos divulgaram medidas contra integrantes de uma suposta rede internacional de financiamento do Hamas.
Segundo Washington, a estrutura era coordenada por Saleem Alzaq, identificado pelas autoridades americanas como integrante da ala militar do grupo palestino e responsável por uma rede de arrecadação que operava em diferentes países.
A investigação americana sustenta que campanhas divulgadas nas redes sociais apresentavam as doações como ajuda humanitária destinada aos moradores de Gaza, mas que parte dos recursos teria sido transferida para beneficiar o Hamas. As autoridades afirmam que a rede arrecadou mais de US$ 2 milhões ao longo de seis anos, dos quais aproximadamente US$ 1,5 milhão teriam sido obtidos depois dos ataques liderados pelo Hamas contra Israel, em 7 de outubro de 2023.
De acordo com o Departamento de Justiça americano, os responsáveis pela rede teriam utilizado diferentes mecanismos de transferência financeira, incluindo intermediários e criptomoedas. Os investigadores também alegam que os responsáveis pelas associações francesas mantinham relações financeiras com Alzaq.
Essas informações fazem parte das acusações apresentadas pelas autoridades dos Estados Unidos e ainda precisam ser avaliadas no âmbito dos procedimentos judiciais pertinentes.
Duas associações francesas estão no centro do caso
Uma das entidades mencionadas na investigação é a Baraka, associação criada em 2023 e sediada em Saint-André-de-Cubzac, nas proximidades de Bordeaux, no sudoeste da França. A organização apresenta suas atividades como iniciativas de assistência humanitária destinadas a civis na Faixa de Gaza.
Faouzi Barika, um dos responsáveis pela entidade, é acusado pelas autoridades americanas de ter participado da arrecadação e da transferência de recursos para a rede atribuída a Alzaq.
A segunda organização mencionada é a Ensemble C Mieux, sediada em Saint-Étienne, no centro-leste francês, e presidida por Amel Oualid. Segundo Washington, a associação teria sido utilizada para arrecadar doações posteriormente encaminhadas à mesma rede.
Em 2 de outubro, os Estados Unidos anunciaram sanções contra Barika, Oualid e as duas organizações. As medidas restringem as operações financeiras sujeitas à jurisdição americana e têm como objetivo impedir que os alvos movimentem recursos por meio do sistema financeiro dos Estados Unidos.
A inclusão nas listas de sanções não equivale, por si só, a uma condenação criminal. As medidas americanas se baseiam nas conclusões apresentadas pelo governo dos Estados Unidos, enquanto a investigação francesa segue seu próprio procedimento judicial.
Cinco pessoas foram colocadas sob investigação judicial
A investigação francesa é conduzida pelo Ministério Público Nacional Antiterrorista, responsável por casos relacionados ao terrorismo no país. Os suspeitos foram detidos em 29 de setembro pela Direção-Geral de Segurança Interna, o serviço francês de inteligência interna.
Após a abertura de uma investigação judicial, cinco pessoas foram formalmente colocadas sob investigação em Paris. As suspeitas incluem financiamento de organização terrorista, abuso de confiança em grupo organizado e lavagem de dinheiro relacionada ao caso.
Segundo informações divulgadas pela imprensa francesa com base em fontes judiciais, Faouzi Barika foi colocado em prisão preventiva. Amel Oualid e Nordine Barika permaneceram em liberdade sob controle judicial, assim como os outros dois investigados.
A diferença entre essas medidas é importante: a prisão preventiva implica privação de liberdade durante o processo, enquanto o controle judicial permite que a pessoa permaneça em liberdade sob determinadas condições impostas pela Justiça. Nenhuma das medidas representa, isoladamente, uma declaração de culpa.
Defesa contesta suspeitas de financiamento do Hamas
Os representantes dos investigados rejeitam a interpretação apresentada pelas autoridades americanas e pela investigação francesa.
A advogada de Faouzi Barika afirmou à imprensa que seu cliente participou de campanhas de arrecadação com finalidade exclusivamente humanitária. A defesa de Amel Oualid também negou qualquer vínculo de sua cliente com o Hamas e sustentou que seu trabalho era voltado ao apoio da população civil de Gaza.
As declarações das defesas contrastam com a versão apresentada pelas autoridades americanas, que afirmam ter identificado transferências financeiras para uma pessoa apontada como integrante da estrutura militar do Hamas.
O esclarecimento definitivo dos fatos dependerá da análise das transações financeiras, dos documentos reunidos pelos investigadores e das provas apresentadas durante o processo judicial. Até que haja uma decisão, os investigados devem ser tratados como suspeitos, e não como culpados.
Caso amplia debate sobre controle de doações humanitárias
A investigação ocorre em meio a um cenário de grande necessidade humanitária na Faixa de Gaza, onde a guerra provocou mortes, deslocamentos em massa e danos extensos à infraestrutura civil. Organizações internacionais e entidades de assistência têm enfrentado dificuldades para levar alimentos, medicamentos e outros suprimentos à população.
O caso também evidencia o desafio de fiscalizar campanhas de arrecadação que atravessam fronteiras e utilizam diferentes meios de pagamento. Segundo as autoridades americanas, a rede investigada recorria a campanhas nas redes sociais e a transferências financeiras internacionais para captar e movimentar recursos.
A apuração, entretanto, não permite concluir que outras associações humanitárias estejam envolvidas em atividades semelhantes. As suspeitas se referem às pessoas e entidades mencionadas nos procedimentos específicos.
Para as autoridades francesas e americanas, o objetivo da investigação é determinar se recursos apresentados como ajuda humanitária foram efetivamente desviados para financiar uma organização terrorista. A resposta dependerá do avanço das investigações e da avaliação das provas pela Justiça.