A extrema direita alemã alcançou uma vitória histórica nas eleições regionais de Saxônia-Anhalt. A Alternativa para a Alemanha (AfD) conquistou 44,2% dos votos e 39 das 83 cadeiras do parlamento estadual, ficando a apenas três assentos da maioria absoluta.
O resultado representa o melhor desempenho da história da AfD em uma eleição estadual alemã e um dos maiores avanços de um partido de extrema direita na política do país desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Ao mesmo tempo, a União Democrata-Cristã (CDU), partido do chanceler federal Friedrich Merz, sofreu uma derrota devastadora: terminou com 17,1% dos votos, praticamente a metade do resultado obtido pela AfD.
A votação realizada no domingo, 6 de setembro de 2026, transforma Saxônia-Anhalt em um dos principais símbolos da mudança no cenário político alemão. A AfD não apenas venceu: conseguiu ampliar de maneira extraordinária sua vantagem em relação aos partidos tradicionais e passou a enxergar concretamente a possibilidade de chegar ao governo de um estado federado.
AfD fica a três cadeiras da maioria
A AfD recebeu mais de 565 mil votos, alcançando 44,2% da votação válida. Em 2021, havia obtido cerca de 20,8%, o que significa que praticamente dobrou sua participação no eleitorado estadual.
A CDU, por sua vez, despencou para 17,1%, uma queda de mais de 20 pontos percentuais em relação à eleição anterior. O resultado representa um golpe particularmente duro para Merz, que assumiu a Chancelaria alemã defendendo a necessidade de conter o crescimento da extrema direita e recuperar o eleitorado perdido pela direita tradicional.
O resultado também foi expressivo para outros partidos. O Partido Social-Democrata (SPD) ficou com 9,2%, os Verdes alcançaram 8,9%, a Esquerda obteve 8,5% e a Aliança Sahra Wagenknecht (BSW) chegou a 5,2%, garantindo representação no parlamento estadual.
A participação eleitoral também chamou atenção: 76% dos eleitores aptos a votar compareceram às urnas, um aumento de 15,7 pontos percentuais em relação à eleição anterior.
O que explica a ascensão da extrema direita?
O avanço da AfD não pode ser explicado por um único fator. Pesquisas e análises realizadas após a eleição apontam para uma combinação de insatisfação econômica, preocupação com a imigração, insegurança, descontentamento com os partidos tradicionais e uma sensação persistente de abandono em partes do leste da Alemanha.
A própria estrutura social do voto ajuda a explicar o resultado. A AfD teve desempenho particularmente forte entre homens, trabalhadores e eleitores de determinadas regiões rurais, embora tenha conseguido ampliar sua votação também nas cidades e entre diferentes grupos etários. A legenda venceu em praticamente todo o território estadual.
Outro elemento importante foi a mobilização de eleitores que anteriormente não costumavam participar das eleições. O aumento expressivo da participação indica que o crescimento da AfD não ocorreu simplesmente porque seus apoiadores tradicionais compareceram às urnas em maior número: houve também uma forte mudança no comportamento de setores do eleitorado.
A AfD pode governar?
É justamente neste ponto que o resultado eleitoral se transforma em uma crise política.
Embora tenha conquistado uma votação histórica, a AfD não alcançou a maioria absoluta. Com 39 cadeiras, precisa de pelo menos mais três para controlar sozinha o parlamento estadual.
O partido pretende formar um governo liderado por Ulrich Siegmund, seu principal nome em Saxônia-Anhalt. O problema é que os demais partidos tradicionais mantêm, até o momento, a política de não cooperar com a AfD, conhecida na Alemanha como uma espécie de “barreira” contra a extrema direita.
A situação, entretanto, é mais complexa do que em eleições anteriores. A BSW, partido fundado por apoiadores de Sahra Wagenknecht após uma ruptura com A Esquerda, conquistou cinco cadeiras e poderá se tornar peça importante nas negociações. A possibilidade de algum tipo de apoio ao governo da AfD aumenta a incerteza sobre o próximo governo estadual.
Caso não consiga construir uma maioria parlamentar, a AfD poderá pressionar pela realização de uma nova eleição. A própria liderança do partido já sinalizou que não teme esse cenário.
Uma derrota que atinge diretamente Friedrich Merz
O terremoto político não se limita a Saxônia-Anhalt.
A derrota da CDU coloca novamente em discussão a liderança de Friedrich Merz e sua capacidade de conter o crescimento da AfD. Analistas da emissora pública alemã destacaram que o resultado aumenta a pressão sobre o chanceler e provoca questionamentos dentro da própria CDU sobre o futuro de sua liderança.
A derrota é ainda mais significativa porque Merz havia transformado o combate ao crescimento da AfD em uma questão central de sua estratégia política. Em Saxônia-Anhalt, porém, a AfD não apenas deixou de ser contida: ampliou sua vantagem sobre a CDU para mais de 27 pontos percentuais.
A eleição também acontece em um momento delicado para a economia alemã, marcada por baixo crescimento, dificuldades industriais, custos elevados de energia e insatisfação com algumas das reformas promovidas pelo governo federal. A combinação desses fatores criou um terreno favorável para discursos que responsabilizam os partidos tradicionais pela situação econômica e pela imigração.
Um sinal que ultrapassa as fronteiras da Alemanha
O resultado de Saxônia-Anhalt tem uma dimensão que vai além da política regional.
A vitória da AfD ocorre em um momento em que partidos de extrema direita e movimentos populistas vêm ganhando espaço em diferentes países europeus. Para outros governos do continente, a eleição alemã funciona como um alerta sobre os efeitos políticos da insatisfação com a economia, da insegurança e da perda de confiança nas instituições tradicionais.
A situação é particularmente sensível porque a Alemanha é a maior economia da União Europeia e uma das principais forças políticas do bloco. Um crescimento ainda maior da AfD poderá influenciar o debate nacional sobre imigração, segurança, energia e economia e aumentar a pressão sobre os partidos tradicionais para modificar sua estratégia.
O resultado também reforça uma transformação que já vinha sendo observada no leste alemão. A AfD já havia conquistado importantes resultados regionais e, nas eleições federais de 2025, tornou-se a segunda maior força política do país. Agora, em Saxônia-Anhalt, chegou mais perto do que nunca de transformar essa força eleitoral em poder executivo estadual.
O aspecto mais significativo da eleição, portanto, não está apenas nos 44,2% obtidos pela AfD. Está no fato de que a extrema direita deixou de disputar apenas o papel de principal força de protesto em determinadas regiões e passou a estar a poucos parlamentares de assumir efetivamente um governo estadual.
O isolamento político ainda pode impedir que isso aconteça imediatamente. Mas a eleição de Saxônia-Anhalt mostra que o chamado cordão sanitário está sendo submetido a uma pressão sem precedentes — e que o crescimento eleitoral da AfD já não pode ser tratado como um fenômeno marginal da política alemã.
Para Friedrich Merz e para os partidos tradicionais, a mensagem das urnas é difícil de ignorar: a insatisfação que alimenta a extrema direita não desapareceu, e a AfD acaba de demonstrar que é capaz de transformar esse descontentamento em uma força eleitoral de dimensão histórica.