Por: Professor Américo Venâncio Lopes Machado Filho – Universidade Federal da Bahia

É no mínimo curioso ouvir repórteres de telejornais brasileiros utilizarem, replicantemente, na fala, as formas “abre aspas” e “fecha aspas”, para introduzirem discursos indiretos, isto é, para invocarem, “nos longes”, uma “presença impossível” – se nos der licença António Gedeão, por esses usos dispersos de excertos poéticos de Teatro óptico.

Como se sabe e como de fato se pôde observar acima neste mesmo texto, ao se manifestarem exogenamente sobre os versos do poeta, as aspas servem de importante recurso gráfico para delimitação de citação, podendo ainda marcar, em outros cenários, certos realces textuais na escrita, sobretudo no mundo científico, em que as ideias pregressas muito importam para sustentação ou refutação de hipóteses. A ausência desses sinais pode mesmo evidenciar dolos, como se viu recentemente, denunciando a intencionalidade de algum candidato a ministro, do maldito governo de Bolsonaro, de se apropriar, desonestamente, do conhecimento e da escrita alheios, para obtenção de títulos acadêmicos com vistas ao posterior e imoral registro em seus Lattes. A questão desses empregos midiáticos extrapola, entretanto, a mera ou mínima curiosidade, antes alegada, quando se observa, subjacentemente, a força que detém a língua escrita sobre sua variante diamésica, a fala, nas sociedades consideradas letradas, parecendo revelar um quê de predominância e de equivocada importância daquela sobre esta.

Não é nova a confusão entre essas duas modalidades da língua. O primeiro gramático normativo do português, João de Barros, mesmo reconhecendo na sequência de sua obra a separação entre fala e escrita, chega a definir gramática como “çiençia de leteras” – e aqui não se assustem os puristas com a grafia proposta por ele nos meados do século XVI, já que, a essa época, ainda não havia ortografia. Ora, como se deveria saber hoje, letra nada tem a ver com fone ou com fonema. Letra e os sinais que lhe dão suporte, assim como os diacríticos, são manifestações exclusivas da escrita. À língua falada cabem os fones, os fonemas, assim como os elementos prosódicos que lhe flexibilizam o uso, e lhe dão os contornos culturais das comunidades que os utilizam, caracterizando-as dialetal e diastraticamente.

Mas se se considerar o que diz, ipsis litteris, ainda João de Barros em sua gramática que “bem assy emtram as leteras pela uista, como as paláuras pelos ouuidos”, parece que hoje, para além das palavras, têm entrado também os sinais gráficos pelos ouvidos, se se considerar o incansável uso de “abre e fecha aspas” da mídia falada nacional, fio condutor inicial dessas poucas ou muitas letras.
Quem efetivamente “abre” ou “fecha” as aspas? O repórter? As próprias aspas? Autofagia de caso gramatical? Ergatividade plena? Para além da confusão entre língua escrita e língua falada, a questão ganha maior dimensão quando se analisa a sentença e se procura desvendar um sujeito.

Provavelmente, haveria um gramático normativo, dentre os muitos arrogantes “senhores” ou alegados lídimos “donos” da língua, de propor um chamado sujeito oculto, figura muito conhecida de alguns estudantes que, desde muito cedo, foram bombardeados com essa ideia absurda, senão fantasmagórica, presente nos manuais escolares. Formalmente, ou há ou não há sujeito. Apenas isso. E para lembrar mais um ministro desonesto e sem brio, “simples assim” e sem aspas. Que não se o obedeça.

Se o português brasileiro não tivesse perdido, na fala, a passiva pronominal, provavelmente haveriam de dizer os repórteres da mídia falada “abrem-se aspas” e “fecham-se aspas”, mas esse mesmo “se” parece hoje ser um indeterminador, que funciona como sujeito, como em “se vende fiado”, em que “se” representaria ‘alguém’, ‘qualquer um’, ‘a loja em que se instala a placa’, que, ao fim e ao cabo, ocuparia a posição de elemento nominativo. Para os puristas seria uma excrescência gramatical, certamente, mesmo que não soubessem reproduzir a passiva pronominal antes descrita. Em um abatedouro de São Paulo, identificou-se certa feita uma tabuleta com um surpreendente “vende frango-se”, em que o clítico já não sabia em que elemento tônico se apoiar. Alerta! Que não se confundam as aspas simples há pouco empregadas com aspas duplas, pois aquelas indicam, lexicográfica e deiticamente, um significado.

Não obstante o emprego do “se”, como pronome apasssivador ou como indeterminador, ter-se-ia certamente como maior e óbvio prestígio o primeiro formato, mas a confusão entre língua escrita e língua falada permaneceria, pois as “aspas” dissociam-se da fala, assim como a ciência do negacionismo.
Por isso, não seria melhor optar-se por “cito” e “concluo a citação”, como se faz em outras línguas em que a fala tem merecido o devido estatuto que outros reservaram à escrita, sem o recurso obtuso de sinais que não pertencem à sua dêixis Não se trata de uma questão de assepticidade linguística, nem o poderia ser, mas de mero bom senso e de adequação, assim como não se costuma ir a um casamento de roupas de banho. Sua possibilidade, conquanto exista, é reservada à poesia.

Aliás, não foi senão da massa da fala que se construíram os alicerces desse poderoso poder, a norma-padrão, que deveria, em tese, funcionar como elemento centrípeto para as diferentes e desejáveis normas, se as escolas cumprissem efetivamente seu democrático papel? Que a pontuação e os sinais gráficos assumam seu lugar na história da escrita, cuja função muito bem – diga-se – têm desempenhado na identificação e na manutenção da autoria. Mas, para que a fala não venha a precisar de pontos e vírgulas, que se lhe fechem as aspas na boca.

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