Os motoristas do Reino Unido gastaram quase um quinto a mais com combustíveis em setembro, em meio à forte alta do diesel provocada por preocupações com o abastecimento mundial de petróleo e derivados. O aumento encarece o orçamento das famílias e ameaça pressionar ainda mais os preços de alimentos e outros produtos transportados por caminhões.
Dados divulgados pelo Barclays mostram que os gastos com combustível realizados com cartões do banco cresceram 17,3% em setembro. Na comparação com o mesmo mês de 2025, os motoristas desembolsaram, em média, £ 17 a mais para abastecer. Como os números consideram apenas as transações feitas com cartões do Barclays, o impacto total sobre os consumidores pode ser maior.
Abastecer um carro familiar custa cerca de £ 110
A escalada dos preços levou o diesel a ultrapassar, pela primeira vez, a marca de £ 2 por litro no início de outubro. Segundo dados do RAC, o preço médio chegou a 200,01 pence por litro em 2 de outubro, superando o recorde anterior, registrado em junho de 2022, após a invasão russa da Ucrânia.
Com esse valor, encher o tanque de um carro familiar típico passou a custar aproximadamente £ 110 — cerca de £ 31 a mais do que no início do conflito com o Irã, em 28 de fevereiro de 2026.
Houve um pequeno alívio nos dias seguintes. Em 9 de outubro, o preço médio nacional do diesel recuou para 199,90 pence por litro, ficando ligeiramente abaixo da marca de £ 2. A queda, porém, não reverteu a forte alta acumulada desde o início do conflito.
Conflitos pressionam o abastecimento de combustíveis
A alta está relacionada às interrupções nas cadeias internacionais de energia em meio aos conflitos no Oriente Médio e à guerra entre Rússia e Ucrânia. Ataques a instalações petrolíferas e refinarias, além de riscos ao transporte de combustíveis, dificultam a produção e a distribuição de derivados como o diesel.
O problema vai além do preço cobrado nos postos. O combustível é essencial para o transporte rodoviário, a agricultura e a logística de alimentos. Quando o custo aumenta, transportadoras, produtores rurais e fabricantes precisam decidir se absorvem a despesa adicional ou repassam parte dela aos consumidores.
Em setembro, os gastos essenciais dos consumidores britânicos aumentaram 2,5% em relação ao mesmo período do ano anterior, impulsionados principalmente pela alta de 17,3% nas despesas com combustível. Os gastos não essenciais cresceram 1,8%, segundo o levantamento do Barclays.
Alimentos podem ficar mais caros
A indústria alimentícia está entre os setores mais expostos à alta do diesel. O transporte de matérias-primas, a movimentação de produtos entre fábricas e centros de distribuição e as entregas aos supermercados dependem de uma cadeia logística que consome grandes volumes de combustível.
A Food and Drink Federation (FDF), entidade que representa fabricantes de alimentos e bebidas no Reino Unido, alertou que a combinação de custos mais altos de energia, ingredientes, mão de obra e transporte reduz a capacidade das empresas de absorver novos aumentos sem repassá-los aos preços finais.
A economista-chefe da entidade, Liliana Danila, afirmou que os fabricantes e os demais negócios da cadeia de abastecimento estão tentando conter os custos, mas enfrentam pressões simultâneas que limitam essa margem de manobra.
As projeções da FDF indicam que a inflação dos alimentos e das bebidas não alcoólicas poderá chegar a 3,9% em dezembro de 2026. Para 2027, a entidade prevê inflação de 5,5% no conjunto do ano, com um pico de 6,4% em julho. Trata-se de uma previsão, e não de um aumento já confirmado: a evolução dependerá, entre outros fatores, dos custos de energia, das condições climáticas e da duração dos conflitos internacionais.
Banco da Inglaterra alerta para pressão inflacionária
O aumento dos preços da energia também preocupa o Banco da Inglaterra. Catherine Mann, integrante externa do Comitê de Política Monetária da instituição, afirmou que os custos energéticos têm um efeito expressivo sobre a inflação geral britânica.
A preocupação é que a alta dos combustíveis não fique restrita aos postos e às contas de energia. Se empresas de transporte, agricultura, indústria e comércio repassarem seus custos adicionais, o encarecimento poderá se espalhar por diferentes setores da economia.
O banco central já reconheceu que o conflito no Oriente Médio interrompeu o transporte e o abastecimento de energia, elevando os custos dos combustíveis e das contas domésticas. A duração e a intensidade desse impacto, porém, continuam incertas.
G7 libera reservas e crise ganha dimensão internacional
Diante da pressão sobre o abastecimento, países do G7 concordaram em liberar 100 milhões de barris de petróleo e diesel de suas reservas, numa tentativa de ampliar a oferta e conter a crise energética.
Nos Estados Unidos, o presidente Donald Trump anunciou em 9 de outubro um acordo com o presidente russo, Vladimir Putin, para receber imediatamente cerca de 300 mil toneladas de diesel russo, com remessas adicionais previstas para os meses seguintes. A iniciativa foi criticada por autoridades ucranianas e por parlamentares americanos, que argumentaram que a flexibilização das restrições às exportações russas pode beneficiar financeiramente Moscou enquanto a guerra contra a Ucrânia continua.
O acordo foi apresentado por Trump como uma medida para aliviar a pressão sobre o mercado de combustíveis, mas seu efeito sobre os preços internacionais permanece incerto.
Para os consumidores britânicos, a consequência mais imediata continua sendo o custo mais alto de abastecer o carro. Mesmo com a recente redução do diesel para pouco menos de £ 2 por litro, os valores permanecem elevados e mantêm o risco de novas pressões sobre o orçamento doméstico e os preços de bens essenciais.