A Polícia Metropolitana de Londres abriu uma investigação criminal contra o Reform UK após uma reportagem de investigação da Channel 4 revelar imagens nas quais integrantes da cúpula do partido aparecem discutindo possíveis formas de receber financiamento estrangeiro em desacordo com a legislação eleitoral britânica.

A investigação amplia um inquérito que já estava em andamento sobre as finanças do partido liderado por Nigel Farage e coloca novamente sob pressão uma formação que ganhou força política nos últimos anos e passou a ocupar um espaço cada vez maior no cenário eleitoral britânico.

A Polícia Metropolitana informou que recebeu diversos relatos depois da reportagem exibida pela Channel 4 em 3 de setembro. Após analisar as informações, os investigadores concluíram que havia indícios de possíveis infrações que exigiam uma investigação formal.

As novas alegações serão incorporadas ao inquérito já conduzido pela equipe especializada da polícia responsável pela investigação de doações ao Reform UK.

Imagens mostram discussão sobre financiamento estrangeiro

A reportagem foi produzida pela equipe de investigação Verbatim, cujos jornalistas se passaram por potenciais doadores ligados aos Estados Unidos. As gravações secretas mostram dois integrantes importantes do Reform UK, Dan Jukes e James Orr, discutindo com os supostos financiadores formas de apoiar o partido.

Um dos pontos centrais da investigação envolve três pesquisas de opinião encomendadas pelo Reform UK e que, segundo a reportagem, foram financiadas por uma empresa norte-americana.

O custo das pesquisas foi de aproximadamente £32.500. Segundo as imagens divulgadas, os jornalistas apresentaram a possibilidade de uma empresa estrangeira pagar pelos levantamentos, o que poderia configurar uma contribuição política proveniente de uma fonte não autorizada.

A legislação britânica estabelece regras específicas sobre quem pode fazer doações a partidos políticos e também considera determinadas contribuições indiretas, inclusive pagamentos de bens ou serviços, dentro das normas de financiamento político.

As imagens levaram à saída temporária de Jukes e Orr de suas funções no Reform UK. Ambos negaram ter cometido irregularidades.

Nigel Farage também aparece nas gravações

O líder do Reform UK, Nigel Farage, também foi filmado durante um encontro com os jornalistas infiltrados em Clacton, no fim de julho.

Na ocasião, os jornalistas se apresentaram como um empresário norte-americano rico e seu filho, residente no Reino Unido. Durante a conversa, foi discutida a possibilidade de uma doação de £500 mil ao partido.

Segundo a reportagem, o dinheiro seria proveniente do suposto pai, o que poderia representar um problema diante das regras britânicas sobre doações de origem estrangeira.

Farage também foi filmado comentando positivamente os resultados das pesquisas realizadas para o partido. Em determinado momento, ao falar sobre o desempenho dos levantamentos, ele afirmou: “Funcionou. Bum!”.

A reportagem mostrou ainda Farage agradecendo aos supostos doadores e dizendo que tudo estaria dentro das regras.

Nenhuma doação de £500 mil chegou a ser efetivamente realizada pelos jornalistas infiltrados. A questão central da investigação policial é determinar se houve intenção, tentativa ou outras condutas que possam configurar infrações à legislação eleitoral.

Polícia investiga possíveis crimes eleitorais

Em comunicado, a Polícia Metropolitana afirmou que as novas alegações apresentam características semelhantes às questões financeiras que já estavam sendo investigadas envolvendo o mesmo partido.

Todos os possíveis delitos analisados estão relacionados à Lei dos Partidos Políticos, Eleições e Referendos de 2000, que estabelece as regras para financiamento e funcionamento dos partidos políticos no Reino Unido.

Os investigadores também estão tentando obter as imagens completas da reportagem exibida pela Channel 4 para avaliar o material e determinar se houve alguma infração.

A polícia informou ainda que mantém contato com a Comissão Eleitoral e com o Serviço de Promotoria da Coroa durante o andamento das investigações.

Até o momento, ninguém foi interrogado em relação às novas alegações decorrentes da reportagem.

Reform UK nega irregularidades

O Reform UK afirmou que não cometeu nenhuma irregularidade e que cooperará integralmente com a investigação.

Em comunicado, o partido declarou que não fará novos comentários enquanto o caso estiver sendo investigado.

Farage, por sua vez, acusou anteriormente a reportagem de utilizar métodos de armadilha para colocar integrantes do partido em situações comprometedoras.

Em entrevista à BBC, o líder do Reform UK afirmou que conhece as regras sobre doações políticas melhor do que qualquer outra pessoa e argumentou que seus assessores deveriam ter realizado verificações básicas antes de apresentar possíveis doadores a ele.

Farage também afirmou que não estava prestando atenção ao conteúdo da conversa durante o encontro em Clacton.

Segundo ele, havia sido informado de que os possíveis financiadores faziam parte de um escritório familiar internacional sediado em Londres. Por isso, argumentou, os recursos poderiam ter origem em diferentes países.

Investigação já analisava doações de £500 mil

O novo caso se soma a uma investigação anterior sobre duas doações de £250 mil feitas ao Reform UK em 2024 por Fiona Cottrell, totalizando £500 mil.

Cottrell é mãe de George Cottrell, aliado de Farage e antigo integrante de sua equipe. Os investigadores estão examinando se a verdadeira origem desses recursos foi ocultada ou se o dinheiro veio de uma fonte que não tinha autorização para realizar doações políticas.

Duas pessoas já foram interrogadas sob advertência formal no âmbito dessa investigação.

A polícia passou a analisar os novos elementos da reportagem da Channel 4 como parte desse mesmo inquérito, em vez de abrir um processo completamente separado.

A Comissão Eleitoral também acompanha o caso. A legislação britânica estabelece regras rigorosas para impedir que partidos recebam recursos de fontes estrangeiras ou de pessoas e entidades que não estejam autorizadas a financiar atividades políticas.

Farage enfrenta outro questionamento financeiro

A nova investigação surge enquanto Nigel Farage também enfrenta uma apuração separada relacionada a um presente de £5 milhões recebido do empresário de criptomoedas Christopher Harborne.

O valor foi entregue a Farage antes das eleições gerais de 2024 e não foi declarado no registro de interesses parlamentares. O líder do Reform UK afirma que o dinheiro foi um presente pessoal, destinado originalmente a despesas relacionadas à sua segurança, e que recebeu orientação jurídica de que não precisava registrá-lo.

A justificativa, entretanto, é objeto de análise pelo comissário parlamentar de normas, Daniel Greenberg.

As regras parlamentares determinam que novos deputados devem declarar determinados benefícios financeiros recebidos nos 12 meses anteriores à eleição. A investigação deverá avaliar se o pagamento deveria ter sido registrado e se Farage cumpriu suas obrigações como parlamentar.

Farage apresentou diferentes explicações públicas sobre o dinheiro ao longo dos últimos meses, incluindo a afirmação de que o valor teria sido uma espécie de recompensa por seu trabalho político em favor do Brexit.

Pressão aumenta sobre o Reform UK

A abertura da investigação criminal representa um novo problema para o Reform UK justamente quando o partido tenta consolidar seu crescimento eleitoral e ampliar sua presença na política britânica.

A legenda passou a enfrentar uma sequência de questionamentos sobre suas fontes de financiamento, incluindo as doações de £500 mil já investigadas, as alegações apresentadas pela reportagem da Channel 4 e o escrutínio parlamentar sobre os £5 milhões recebidos por Farage.

O partido insiste que não violou nenhuma lei e afirma que colaborará com as autoridades.

Por enquanto, a investigação da Polícia Metropolitana não significa que o Reform UK ou seus dirigentes tenham sido considerados culpados de qualquer crime. Caberá aos investigadores determinar se as conversas registradas nas gravações representam apenas discussões hipotéticas ou se existem elementos suficientes para demonstrar uma tentativa concreta de violar as regras de financiamento eleitoral.

O caso, porém, coloca novamente a transparência financeira dos partidos no centro do debate político britânico e pode representar um dos maiores desafios para Farage desde o crescimento nacional do Reform UK.

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